PADRE PEDRO LUIZ AZEVEDO

Padre Pedro Luiz Azevedo

Padre Pedro Luiz Azevedo

Fiquei feliz ao receber do Pe. Flávio Feler um exemplar do livro “Homilias do Pe. Pedro Luiz Azevedo”, publicado em 2013. Foi um gesto de gratidão de Pe. Flávio, ao sacerdote que era seu pároco em Canelinha à época de sua ordenação presbiteral. O livro contém homilias breves, bem preparadas e destinadas a celebrações de jubileus, casamentos, sepultamentos. Entre as muitas que algum distraído jogou no lixo, foram as poucas que sobraram, felizmente, e permitem penetrar na alma sacerdotal de Pe. Pedro.

Somos gratos ao Pe. Flávio por esse gesto amigo e que nos dá acesso à alma pastoral do Pe. Pedro.

O chamado de Deus

Padre Pedro Luiz Azevedo nasceu em Brusque em 5 de fevereiro de 1955, último filho de Marcelino Azevedo e de Guilhermina Ramos Azevedo. Era morador da Rua Nova Trento, que liga Azambuja à Rua 1º de Maio. Pela vizinhança com o Seminário Menor, conhecia quase todos os seminaristas, especialmente os estudantes de filosofia. Foi sempre amigo humilde de todos.

Importante para sua formação cristã foi o casal Hilário e Raquel Bernardo, que muito o incentivaram a participar do grupo jovem do Santuário, o COJA – Companhia de Jovens de Azambuja, que frequentou de 1973 a 1978. Foi atuante na pastoral litúrgica e da juventude brusquense.

Como operário, trabalhou no setor de recursos humanos do SENAI e, ao mesmo tempo, cursou a faculdade de Estudos Sociais na Fundação Educacional de Brusque – FEBE. Pe. Alvino Milani, formador no seminário menor, foi importante no seu encaminhamento cristão e vocacional. Nesse período eu era assistente dos estudantes de filosofia residentes no Seminário de Azambuja e escutei que Pedro pensava em ser padre, mas não queria entrar no Seminário porque precisava trabalhar e gostava da liberdade. De certa forma isso era um problema, pois a norma previa o ingresso no Seminário para aprofundamento da fé e da vida comunitária.Teimoso, decidiu arriscar para ver. Lembro que num dia lhe falei que o caminho não era esse e que se o arcebispo me pedisse recomendação, não daria.

Mas, a vida é melhor do que as normas e no final de 1978, Pedro pediu para falar comigo e veio exatamente para solicitar a Carta de recomendação. Ele sentiu-se grato, porque logo o atendi e escrevi a Dom Afonso Niehues recomendando-o e falando de suas qualidades para o ministério. Eram palavras verdadeiras.

Os próximos quatro anos Pedro estudou Teologia no Instituto Teológico de Santa Catarina – ITESC em Florianópolis. Os finais de semana de 1979-1980 fez estágio pastoral em Canelinha, acompanhado pelo Pe. Sérgio Giacomelli e nos anos de 1981-1982 trabalhou em Tijucas, com Monsenhor Augusto Zucco, homem enérgico e afamado por disciplinar quem trabalhasse com ele. Por onde passava, Pedro Azevedo se empenhava nos grupos jovens, de coroinhas e nas equipes de Liturgia. Seu espírito alegre, bem humorado, conquistou muitos amigos. Mesmo irritado, às vezes desbocado, era incapaz de ofender alguém. Era seu dom.

A alegria do ministério sacerdotal

Padre Pedro Luiz Azevedo

Padre Pedro Luiz Azevedo

Concluídos os estudos, em 31 de julho de 1982 foi ordenado Diácono na igreja matriz de Tijucas. Seu lema, muito verdadeiro: “Tu me amas? Senhor, tu sabes que eu te amo” (Jo 21, 17). E, no dia 05 de dezembro de 1982, a ordenação Sacerdotal no Santuário de Azambuja, onde iniciou e alimentou sua fé. Bispo ordenante, Dom Afonso Niehues. Juntamente com ele outro brusquense foi ordenado padre, Gilberto Mafra (+ 1996). Seu lema: “Chamei-te pelo nome: és meu. És caro aos meus olhos, digno de estima, te amo” (Is 43, 1-5).

Seu primeiro campo de apostolado foi em Tijucas mesmo, até fevereiro de 1983, nas férias de Mons. Zucco. Em 11 de fevereiro de 1983 recebeu a provisão de vigário paroquial da paróquia Senhor Bom Jesus de Nazaré, em Palhoça. Ali, muito trabalhou e aprendeu com o zeloso Pe. Alvino Introvini Milani, numa grande paróquia hoje dividida em seis comunidades paroquiais. Sua alegria e bom humor contagiavam a todos e até estimulou a construção de uma capela na localidade de Pachecos, cujo padroeiro ficou sendo São Pedro, em homenagem ao Pe. Pedro e aos muitos Pedros do lugar.

Com a morte repentina de Monsenhor Augusto Zucco, em 1987, foi provisionado pároco de Tijucas em 28 de maio. Já amava e muito amou essa Paróquia onde trabalhara como estudante e neo-sacerdote e onde tinha grande número de amigos. Pe. Pedro gostaria de permanecer muitos anos em Tijucas mas, em 28 de dezembro de 1994 o novo arcebispo Dom Eusébio Oscar Scheid, SCJ, o transferiu para Anitápolis, grande paróquia, mas na serra, isolada do mundo onde vivera. Eram 15 capelas, com poucos habitantes, a 85 km. de Florianópolis.

Obediente, Pe. Pedro assumiu o trabalho. Sofreu muito a solidão, a distância dos amigos. Quem o conhecia percebeu que a melancolia tomava conta de sua vida, ia perdendo o ânimo, o bom humor. E, talvez isso fosse mais grave, espantava a tristeza com a crescente dependência do álcool. Às vezes,  a vida da Igreja, em nome da presumida sabedoria das autoridades, se impõem serviços cujo maior serviço é afugentar o gosto pela vida. Nós sentíamos o isolamento de Pe. Pedro, o silêncio que o rodeava. Ali viveu e trabalhou até 20 de dezembro de 2002, data de sua nomeação para pároco de Sant’Ana de Canelinha, onde trabalhara e aprendera como seminarista, e perto de Tijucas. Conseguiu reanimar a paróquia, cujo pároco tinha saído da casa paroquial para o casamento.

O leito de dor é o altar de Pe. Pedro

Pe. Pedro Luiz Azevedo estava doente, tomado por crescente tristeza e pela doença que se insinuava em seu corpo. Mesmo sofrendo, marcava seu apostolado com a bondade, dedicação, seriedade e cultivando amizades. Em 07 de dezembro de 1993 sentiu o baque da perda da mãe Guilhermina, a quem estava muito ligado. Doente, de certo modo impondo-se o isolamento, não partilhava suas dores, e posso pensar o quanto foi valente e generoso em meio a tantos trabalhos, compromissos, capelas, enterros, casamentos, celebrações.

Não aceitou festejar seu jubileu de prata sacerdotal em 2007. Era avesso a qualquer tipo de festa, e escreveu: “todos os dias são dias de festa, basta saber vivê-los. Agradeço a Deus por esses 25 anos de ministério e a todos os que me ajudaram ao longo dessa caminhada”. Também não quis celebrar o cinquentenário da criação da paróquia de Sant’Ana, em 17 de janeiro de 2009.

Pe. Pedro não aceitava submeter-se a um tratamento mais prolongado, que lhe foi oferecido, e assim o câncer no fígado foi dominando seu organismo. Quem o via sozinho, sentado na calçada da casa paroquial, em silêncio, não percebia que Pe. Pedro se preparava para morrer e, o que é mais doloroso, Pe. Pedro queria morrer.

Finalmente, em 10 de agosto de 2010 foi internado no Hospital de Tijucas, depois no Caridade de Florianópolis e, em busca de especialização, no Hospital Evangélico de Brusque. Foi longo e doloroso seu calvário de 47 dias. O arcebispo Dom Murilo Krieger assim falou na homilia exequial: “A morte de nosso irmão sacerdote Pe. Pedro Luiz Azevedo não foi uma surpresa para nós: surpresa foi sua resistência e a longa duração de seu Calvário. Como pude lhe dizer por ocasião da última visita que lhe fiz, na UTI do Hospital Evangélico, em Brusque: Hoje, sua cama é seu altar; seus sofrimentos se unem aos sofrimentos de Cristo; mais do que nunca, você está vivendo seu sacerdócio”.

Na última visita que Dom Murilo lhe fez, ele não podia mais falar mas, ao chegar perto de sua cama, viu que uma lágrima descia pelo canto de seus olhos: “Aquela lágrima era uma palavra, uma grande palavra, ainda mais partindo dele, que sempre procurava disfarçar seus sentimentos. Que esta sua lágrima, expressão de tudo o que viveu nas últimas semanas de sua vida, seja fonte de vida para muitos e de novas vocações sacerdotais para a Igreja”.

Após 57 anos de existência e 28 dedicados ao sacerdócio, às 21 horas de 07 de outubro de 2010, Pe. Pedro nos deixou. No dia seguinte, dia 08, seu corpo foi velado na igreja matriz de Sant’Ana de Canelinha, com a sentida presença do povo. Às 15 horas, Dom Murilo presidiu a Missa de Exéquias e, em seguida, seus restos mortais foram sepultados no cemitério Parque da Saudade em Brusque, na área reservada aos padres diocesanos de Florianópolis.

Pe. Pedro, na sua simplicidade pessoal e seriedade no trabalho,  deixou-nos a recordação um homem digno do nome sacerdotal.


Pe. José Artulino Besen

 

  1. #1 por Joao Flavio em 12 de novembro de 2016 - 17:32

    Obrigado pelo envio deste texto! Diác. João Flávio

  2. #2 por Joao Flavio em 12 de novembro de 2016 - 20:56

    Padre José: A doa Odete avisa que a Dona Ivonete continua no Hospital e não tem previsão de alta, pois precisa se recuperar melhor! Boa noite! Diác. João Flávio

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