MISSÃO E CUIDADO DA CASA COMUM

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A natureza – um hino à vida

Em outras épocas, tanto a Missão católica quanto a de outras confissões cristãs tinha como foco o anúncio confessional, era mais propaganda religiosa, oferecimento de salvação, garantia da posse da verdade. Era o proselitismo, hoje não mais aceito como método para o anúncio do Evangelho de Jesus. Tanto na América, como na África e na Ásia, o missionário acompanhava expedições conquistadoras, unindo a cruz à espada.

Admirar a coragem e a generosidade missionária não significa apreciar a pedagogia que implicava na destruição de culturas e de religiões ancestrais. A missão é o anúncio vivido do Senhor que deu a vida por todos os povos, o que não pode admitir que se mate em nome dele. A ação missionária com a espada foi fruto da dominação dos povos europeus que buscavam riquezas, matérias primas, na suposição e convicção de que em troca ofereciam o melhor para esses povos considerados atrasados e que deveriam agradecer o dom da civilização e, especialmente, o dom da salvação.

Encima de tudo isso foi edificada uma civilização que negava a riqueza pessoal do outro, negava a cultura e a religiosidade de povos até então desconhecidos, negava mesmo sua dignidade inviolável, reduzindo-os a coisas, a escravos. No Brasil, a missão deixou um rastro de 400 anos da escravidão negra, de julgamento do valor das pessoas pela cor da pele, mesmo sendo batizadas.

Evidente que não podemos desconhecer a generosa e heroica ação de homens e mulheres que deram a vida, criaram obras de misericórdia para o socorro de doentes, de leprosos, com eles dividindo a doença, as privações, amando como Jesus ama. Levaram o estilo de vida dos discípulos de Jesus, sem a preocupação de aumentar suas fileiras religiosas.

Graças à ação do Espírito, somos hoje capazes de reconhecer a dignidade de todos, de sentir as sementes da verdade por toda a terra. Não há nenhum povo abandonado por Deus. O Superior Geral dos Jesuítas, Pe. Adolfo Nicolás, afirmou que o primeiro ato de um missionário é descobrir a ação do Espírito Santo na cultura aonde é enviado, ver o que Deus já fez ali no decorrer de sua história. Assim, a ação missionária é comunhão fraterna com quem é diferente, mas tem conosco a ação divina que nos chama a todos de filhos.

A missão não pode se expressar na competição, nas acusações doutrinais cuja virulência oculta o rosto do Pai: “Deus-Amor se anuncia amando”, tuitou Francisco em 6/10/16.

Cuidar da Casa Comum – obra de misericórdia

agua-fonte-da-vida-m-sokalA Igreja não conhece um tempo de acomodação, como se bastasse conservar o que já se alcançou, sem novos desafios. O papa Francisco tem claro que a missão da Igreja, das igrejas e das religiões está sujeita à contínua reforma, porque a vida não para, há um dinamismo interno em toda a criação e que não permite conservarmos a linguagem apenas religiosa e doutrinal. O ser humano está situado no mundo, não nas alturas. Francisco acentuou a misericórdia como centro da existência cristã e nela, como tema de seu pontificado, a crise da humanidade inserida na economia global e que gera milhões de migrantes, expatriados, frutos da guerra, da miséria. Sua primeira viagem fora de Roma foi a Lampedusa, onde aportam diariamente barcaças trazendo milhares de pobres africanos e árabes. Outro tema, a crise da humanidade que explora egoisticamente as riquezas naturais, profanando a beleza da criação e deixando como rastro a poluição, a desertificação, comprometendo o presente e o futuro da família humana. A encíclica “Laudato si” sobre o cuidado da casa comum (18/06/2015) testemunha para o mundo a preocupação com o destino da criação; foi fruto da escuta de cientistas interessados no meio ambiente e de seu contato com a paisagem desoladora de tantos países devastados pela economia de regiões ricas que buscam seu conforto sem se deter no destino de miséria e violência em que mergulham nações pobres.

“Cuidar da Casa Comum é a nossa missão”, é o tema da Campanha Missionária de 2016 e o lema, “E Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31). Somos desafiados a preservar a obra divina confiada ao homem e à mulher, num caminho que vincula indissoluvelmente a todos os povos, regimes, religiões e Igrejas, caso queiramos garantir para nós e as gerações futuras um planeta habitável.

O Papa Francisco mostrou-nos a associação íntima que existe entre a vida dos pobres e as fragilidades do Planeta. A Campanha Missionária oferece material específico para as comunidades refletirem sobre o tema com o objetivo de chamar a atenção a respeito do compromisso de todos – especialmente dos cristãos – para o cuidado em relação ao planeta, à “Casa Comum”.

missao-e-ecologiaÉ preciso considerar o sentido humano da Ecologia e buscar um novo estilo de vida que olhe a integração de tudo. Como salienta a ecologia integral, os seres humanos estão profundamente ligados entre si e à criação na sua totalidade. Quando maltratamos a natureza, maltratamos também os seres humanos. Ao mesmo tempo, cada criatura tem o seu próprio valor intrínseco que deve ser respeitado. Escutemos ‘tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres’ e procuremos atentamente ver como se pode garantir uma resposta adequada”, destaca Francisco. Da sua parte, como uma resposta concreta, o Papa tomou a iniciativa de propor no elenco das conhecidas sete obras de misericórdia materiais e espirituais a inclusão de uma oitava, a saber: o cuidado da casa comum.

Na espiritualidade do Ano Santo da Misericórdia poderemos receber a indulgência plenária vivenciando o cuidado com a casa comum. Preservar o meio ambiente é abrir a Porta Santa do louvor ao Criador, amar as criaturas, defender a vida em todos os seus aspectos, permitir que declaremos, com o autor bíblico, “e Deus vê que tudo é muito bom”. E também devemos nos penitenciar pela ação missionária que acompanhou e apoiou o secular processo de colonialismo econômico e cultural que saqueou a riqueza de povos e deixou-lhes como herança a miséria, a briga pelo poder e guerras sem fim. Promover a reconstrução da casa comum é assumir como nosso o plano do Criador que deu tudo a todos e o que deu era muito bom.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Joao Flavio em 7 de outubro de 2016 - 06:59

    Bom dia, Pe. José! Obrigado pelas reflexões! Diác. JFV

  2. #2 por Regina D'Cassia Kirchner em 11 de outubro de 2016 - 12:15

    Minha fé renova-se através da bela mensagem.

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