A VERDADE LIBERTA A PAZ

Paquistão - criança acaricia o pai desesperado - Foto di Gjorgji Lichovski, novembre 2015

Paquistão – criança acaricia o pai desesperado – Foto di Gjorgji Lichovski, novembre 2015

E Jesus dizia: Se permanecerdes na minha palavra,
sereis meus verdadeiros discípulos:
conhecereis a verdade e a verdade vos libertará (Jo 8,31-32).

Um jornalista perguntou a São João Paulo II qual, a seu ver, seria a palavra mais importante do Evangelho. O Papa pensou e declarou: A verdade vos libertará (Jo 8, 32). E justificou a escolha: A pessoa humana não pode viver na mentira, no engano. Ninguém nasce para se iludir ou iludir os outros. E, no Cristianismo, a verdade libertadora não é uma teoria, doutrina, mas é uma pessoa: Jesus Cristo. A verdade que liberta é o Senhor Libertador que nos mergulha no mundo onde as coisas são verdadeiras, e não ilusões.

E mais: a palavra de Jesus é a verdade, e a verdade se identifica com o mandamento do amor: Amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo (cf. Mc 12, 30-31). Jesus é a verdade, é o amor feito homem. Ninguém se achega à verdade se não passar pelo caminho do amor. E ninguém é verdadeiramente livre sem o caminho da verdade/amor.

A maioria das pessoas busca o conhecimento da verdade, estuda, participa de cursos, ingressa em movimentos filosóficos, adere a religiões que prometem o verdadeiro conhecimento, mas continua sempre buscando, sem alcançá-lo. Vive na ilusão de uma verdade que satisfaça apenas à inteligência. Não é possível: a verdade não é um conhecimento obtido nos livros, ela nasce em nosso coração, em nossa interioridade onde mora Deus, que se revela e é conhecido pelo amor.

A verdade vos libertará, o amor vos tornará livres, diz Jesus. Pensamos que liberdade é fazer o que se quer, sem levar em conta a pessoa do outro, sem levar Deus em conta. Ninguém é realmente livre sem a experiência do amor libertador de nós mesmos, de nossas coisas, de nosso dinheiro, de nossas manias, de nos ocuparmos apenas com nossa família, de acharmos que não temos tempo para nada. O apego a isso tudo é escravidão, e pensamos que é liberdade.

Toda escravidão das coisas, dos bens, nos impede de amar, porque não saímos de nós mesmos, de nosso mundo. Com esses sentimentos acabamos por escravizar até a pessoa do outro colocando-a a nosso serviço, dela nos aproveitando, apenas. É triste a visão errada que hoje se está dando ao amor, especialmente ao amor entre um homem e uma mulher. Nada mais é que um egoísmo refinado, que pode assim ser resumido: Eu quero você para mim, porque quero ser feliz…

Cristo, verdade que liberta a paz

No dia 20 de setembro, Francisco presidiu o 30º Dia Mundial de Oração pela Paz, na cidade de Assis. Reuniu mais de 500 líderes religiosos de todo o mundo, cristãos, judeus, muçulmanos, representantes das grandes religiões, para rezar pela paz no mundo. Deus nos dá a paz que vem da justiça e do diálogo, por isso devemos orar pedindo a paz.

O mundo vive uma guerra mundial em pedaços (diversas guerras ao mesmo tempo), então devemos nos empenhar pela paz em pedaços: cada pessoa, cada família, cada comunidade, cada Igreja, religião, se comprometer com a paz, e assim, a união desses pedaços nos dará a paz verdadeira.

Aceitamos muito as mentiras dos poderosos do mundo que se empenham em discursos pacíficos quando, na verdade, financiam guerras em outras nações, e lucram com o mercado internacional das armas, chegando mesmo a usar o nome do Deus amor e verdade para explodir pessoas, destruir culturas. Quantas vezes o sentimento patriótico foi instrumentalizado como se fosse sentimento religioso e, na verdade, serviu apenas para aumentar fronteiras, garantir mercado e matérias primas. É esse o alimento de guerras fomentadas pelos estados modernos, também atuais, cujo fruto triste é produzir multidões de migrantes e imigrantes, depois tratados como lixo incômodo do grande mercado capitalista. É muito sintomático que os séculos XX-XXI, tempo de expansão imensa do capitalismo, sejam o tempo das maiores migrações de que se tem notícia na história humana. A gula pela riqueza provoca ânsia de vômito diante de povos errantes pelas estradas e que o deus capital pretende evitar construindo muros.

Deus é a verdade, Jesus é a verdade que traz a vida, não a morte. Blasfêmia gravíssima colocar o nome de Deus no meio do ódio e da mentira. Deus é Deus da paz. Não existe um deus da guerra. Quem faz a guerra é o maligno, o diabo, que quer a morte de todos.

Somente a busca sincera da verdade vai nos libertar da mentira que transforma cidades em ruínas, pessoas em mira de fuzis e bombas. Ao iniciar a guerra, a primeira vítima é a verdade.

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Como crentes, não podemos cair no paganismo da indiferença, que nos leva a cruzar os braços diante do sofrimento de homens e mulheres, jovens e crianças. Seremos chamados de filhos de Deus se formos construtores da paz.

Francisco nos convida ao diálogo pela paz e à educação para o diálogo: diálogo-educação. O diálogo nasce quando sou capaz de reconhecer que o outro é um dom de Deus e tem algo a dizer-me. A verdade que liberta nos conduz à pedagogia do encontro, ao diálogo que ensina a aprender, o oposto das conversações ordinárias que dividem as pessoas entre as que estão certas e as que estão erradas. Entrar em diálogo significa superar a imagem refletida no espelho, ensina aprender enriquecer-se com a diversidade do outro. No diálogo não existem perdedores, mas somente vencedores. A verdade nos libertará.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Joao Flavio em 22 de setembro de 2016 - 12:44

    Boa reflexão! Gostei! Bom dia! Diác. João Flávio

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