PADRE LUIZ JOÃO BERTOTTI

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Pe. Luiz João Bertotti (01/01/1929 – 21/08/2016)

Pe. Luiz João Bertotti nasceu em Nova Trento em 1º de janeiro de 1929. Seus pais: Alberto Bertotti e Francisca Bottamedi. Percorreu sua formação seminarística nos Seminários de Azambuja, e de São Leopoldo. Foi sempre aluno e seminarista exemplar e, como estudante, caracterizou-se pela clareza do raciocínio. Madre Paulina tinha firme o plano de criar o ramo masculino de sua Congregação: era a Congregação dos Robertinos, iniciada por ela em Nova Trento, mas suprimida por Dom Duarte Leopoldo, sob o argumento que já havia fundações suficientes e que bastava escolher uma delas. Santa Paulina, radicalmente obediente à autoridade eclesiástica, conservou o sonho dessa fundação. As Irmãzinhas auxiliaram na formação de seminaristas de Nova Trento, esperando que, como padres, levassem adiante a bandeira. Foram esses os seminaristas: Tarcísio Marchiori, Cláudio Cadorim e Luiz João Bertotti, todos ordenados padres e já falecidos.

Foi ordenado presbítero por Dom Joaquim Domingues de Oliveira no Santuário de Azambuja em 8 de dezembro de 1956. Em 29 de dezembro de 1956 recebeu a provisão de vigário paroquial de São Sebastião de Tijucas, trabalhando com o rigoroso Mons. Augusto Zucco nesta grande paróquia que abrangia Tijucas, Canelinha, Porto Belo e Itapema, com suas distâncias e muitas capelas.

Em 21 de dezembro de 1961, foi nomeado pároco de Sant’Ana de Canelinha, onde iniciou a construção da igreja matriz sob projeto arquitetônico moderno e funcional. Não era de seu temperamento pedir dinheiro, organizar festas, mas não teve medo do trabalho. Dois anos depois, em 24 de dezembro de 1963, assumiu como vigário paroquial de Mons. José Locks em São João Batista.

Homem de consciência social, no espírito da ação católica, enfrentou a poderosa USATI, Usina de Açúcar de Tijucas, denunciando a dupla exploração daquele povo: no preço da cana e nos baixos salários. Foi muito criticado como comunista, mas não era homem de temer gente importante. No ano seguinte veio o Golpe militar de 31 de março e os problemas sociais tiveram de ser varridos para debaixo do pano. Além disso, sob as ordens do severo Mons. José Locks não havia muito espaço para pregação social. Mons. José enxergava os problemas e se indignava com eles, mas, receava o perigo vermelho nas denúncias deles, especialmente quando escutou que Pe. Luiz queria organizar uma greve dos trabalhadores da cana.

Em 1968, Pe. Luiz trabalhou no Seminário de Azambuja, como professor e na dura missão de assistente de meia centena de adolescentes que se aproveitavam de sua bondade e paciência e o provocavam com bagunça nos corredores e salas de estudo. Lecionava a disciplina de Concílio do Vaticano II, introduzindo nos seminaristas uma mentalidade aberta sobre a Igreja, Povo de Deus. Não era de seu temperamento gritar ou castigar, razão pela qual pediu transferência e, em 14 de fevereiro de 1969 foi provisionado pároco do Divino Espírito Santo de Camboriú.

Pe. Luiz era bom pregador e suas homilias, breves, partiam da Palavra de Deus. Quem o escutasse pela primeira vez poderia ter a impressão de estar diante de um revolucionário. Era consequente com o Evangelho. A linguagem clara e original era fruto de muito estudo, da capacidade de expressar com beleza o que ensinava. Que ele gostasse da filosofia, não se pode negar. Especialmente era um bom tomista, na lógica do raciocínio. Também era claro seu apreço pela eclesiologia do Concílio, seu desejo de uma Igreja a caminho, atuante na história. Sua espiritualidade e ação pastoral não eram muito dadas a devoções, manifestações da religiosidade popular. Preferia a Palavra.

Era um homem sério e que levava a realidade e as pessoas a sério. Não se pode imaginá-lo em brincadeiras ou manipulações. O interlocutor ganhava seu respeito e uma resposta objetiva aos problemas.

Dois irmãos e uma história

Aconteceu então um fato que mudou o exercício de seu ministério sacerdotal: seu irmão padre, Egídio Alberto Bertotti, ex-jesuíta, incardinado na diocese de Maringá, pediu para trabalhar na Arquidiocese de Florianópolis e, se possível, junto com seu irmão, que tinha dificuldade ao volante por não ter boa visão. Dom Afonso Niehues aquiesceu ao pedido e, em 26 de janeiro de 1970 nomeou Pe. Luiz vigário do Santíssimo Sacramento de Itajaí e Pe. Egídio pároco. O projeto pastoral de Dom Afonso era que Pe. Luiz cuidasse da capela da Vila Operária, preparando-a para futura sede paroquial, o que não aconteceu, pois era comunidade muito próxima da Matriz do Santíssimo e Pe. Luiz julgou que seria apenas multiplicar estruturas.

Em 10 de janeiro de 1980, os dois irmãos foram provisionados para São João Batista. Não havia mais o problema social da Usina de Açúcar, que tinha sido fechada e transformada na Cerâmica Porto Belo em Tijucas. Após décadas de exploração e de fuligem descarregada pela chaminé, poluindo o ambiente urbano, São João Batista viveu o drama do desemprego, suavizado depois pela indústria calçadista. Os tempos eram outros. Ali Pe. Luiz dedicou-se à pregação evangélica iluminada pela opção preferencial pelos pobres de Puebla, cuja Conferência fora realizada no ano de 1979.

Pe. Paulo Bratti, diretor do ITESC, julgou de bom propósito pedir a Pe. Luiz que lecionasse Doutrina Social da Igreja em Florianópolis. O pedido foi aceito e Pe. Luiz se empenhou no compromisso semanal mas, foi apenas um ano. Ele pensava numa análise teórica da Doutrina Social, num estudo exigente. Infelizmente os estudantes estavam mais entusiasmados pela pastoral de passeata, dos slogans, o que espantou o professor e a experiência ficou restrita ao ano de 1981.

Aqui é oportuno lembrar que Pe. Luiz Bertotti era um intelectual, homem de reflexão e de muita leitura, e isso sempre. Não apreciava sucesso fácil.

Em 29 de janeiro de 1993, recebeu a provisão de vigário paroquial de São Francisco Xavier de Saco Grande, uma grande e exigente paróquia cujos limites iam de Saco Grande até o Rio Vermelho, o Norte da Ilha de Santa Catarina. Seu irmão era o pároco e deu prosseguimento à construção da igreja matriz. Só Deus sabe o que significou levar adiante essa obra, num tempo de inflação galopante e sem referencial de moeda. Tiveram a alegria de inaugurá-la.

A partir dessa missão, os dois irmãos sentiram problemas de saúde, e Pe. Luiz sempre mais sofria, enxergando apenas com uma vista. Foram transferidos 1998 para a paróquia Nossa Senhora do Desterro, Catedral metropolitana, como vigários paroquiais. Ali se dedicaram ao atendimento espiritual, às confissões, com zelo e desprendimento, mesmo com a idade avançando e a saúde debilitada. Eram ótimos e sábios conselheiros.

Em 2010, Pe. Luiz percebeu que não era mais tempo de compromissos e, junto com Pe. Egídio, decidiram fixar residência em Nova Trento, no Salto. Terminavam onde iniciaram.

A saúde de Pe. Luiz, com sérios problemas cardíacos, foi se deteriorando. Sabia sofrer, sabia viver. Sua fé iluminava seus passos e lhe indicava o novo horizonte que se abria. Em agosto de 2016 esteve internado no Hospital de Azambuja. Retornou a Nova Trento, em cujo hospital passou os últimos dias de sua longa existência terrena e sacerdotal.

No dia 21 de agosto Deus o chamou. Seu irmão, Pe. Egídio, ouviu suas últimas palavras conscientes: “Mãe, Mãe, Mãe do Céu – não aguento mais…vem, vem Mãe” e … deu o último suspiro. Na manhã do dia seguinte foi sepultado em Nova Trento.

Pe. Luiz viveu uma bela vida de 87 anos de idade e, no dia 8 de dezembro festejaria o Jubileu de Diamante sacerdotal. Deixou-nos a imagem de um padre pastor, dedicado, perseverante, humilde. No silêncio viveu, no silêncio Deus o recolheu.

Deixou o comovente exemplo de vida fraterna, trabalhando junto com seu irmão Pe. Egídio por 46 anos. Eram dois irmãos no sentido mais belo: trabalhando, conversando, estudando, discutindo, na alegria da unidade segundo a palavra bíblica: “Oh, como é bom, como é agradável para irmãos unidos viverem juntos” (Salmo 133, 1).

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Ivone Maria Koerich Coelho em 22 de agosto de 2016 - 13:14

    Bonita esta história dos dois irmãos Padres. Padre José também muito bonito é o senhor valorizar e escrever estás maravilhas na vida dos padres.

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