A DESPEDIDA DE NOSSO IRMÃO SEBASTIÃO

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Sebastião Artulino Besen – em seu último ano

Recordo, na memória e no coração, o dia 30 de dezembro de 1958, um dia de muito calor e de muita alegria: de madrugada nossa vó materna Maria Gesser Pauli foi chamada para atender nossa mãe. Passado um tempo, ouvimos o choro de uma criança: era mais um bebê, mais um irmãozinho que acabava de chegar. Devido ao pudor que reinava em nossa casa, somente de manhã pudemos conhecer a novidade que já tinha recebido nome: Sebastião. Muita alegria lá em casa e o Sebastião já tinha o apelido de Tãozinho.

No meio da tarde, um susto: Tãozinho teve uma espécie de ataque, ficou vermelho e a mãe lamentava a morte iminente. Para garantir que fosse para o céu, mãe Lúcia o batizou e, dias depois, foi batizado na casa paroquial, sendo de nós o único que teve dois batismos. O bebê não morreu, cresceu uma criança muito linda, cabelos louros, cacheados. Para falar a verdade, nós guardávamos certa raivinha dele, inveja de criança, e porque todos queriam segurá-lo ao colo. Juvenila, nossa empregada, era a defensora de Tãozinho, a criança linda que podia fazer o que quisesse, que tinha sempre razão, ai de quem mexesse com ele. Às vezes, o beliscávamos para vê-lo chorar exageradamente e assim vingar as proteções de Juvenila. Ela perguntava ao Tão quem o tinha ofendido e ele sempre apontava um de nós, que recebíamos a correção devida.

Tãozinho era muito inteligente e tinha todas as atenções merecidas pelos caçulas.

Quando ele nem entendia muito da vida e da morte, lembro-me dele de mãozinhas no bolso, olhando para tanta gente reunida lá em casa, perguntando se mamãe iria se acordar logo. Não iria: era o 25 de novembro de 1964, e mãe Lúcia estava num caixão, tinha morrido naquela madrugada na Casa de Saúde São Sebastião. O sepultamento foi no dia seguinte, e o pai estava sério, cercado pelos oito filhos a quem deveria criar, educar, formar. O pai se consolava dizendo que perdera a esposa, mas tinham ficado os filhos. Mamãe tinha 47 anos e o Tãozinho estava para completar 6 e recebia o doloroso título de órfãozinho. Juvenila estava casada, minhas irmãs mais velhas, Maria e Nesir, eram internas no Colégio Coração de Jesus e eu estava no Seminário de Azambuja.

Aquele menino louro, vivo, acarinhado era uma criança meio solitária, agora privado das defesas que os caçulas costumam ter.

A palavra “mãe” não lhe trazia mais recordações. Como deve ter sofrido a solidão, o pobrezinho, aumentada porque nosso pai Artulino não era de dar proteção a algum filho. Todos foram criados como se fossem um só.

No tempo que foi passando, todos foram matriculados na escola das primeiras e segundas letras, na escola do catecismo, na escola do trabalho na roça.

Em 1971, ao chegar em casa para as férias, nosso pai deu-me a notícia: Sebastião queria ser padre, ia para o Seminário de Azambuja, onde eu agora lecionava e frequentava o curso de Filosofia. Por dever de ofício, tive de mostrar uma grande felicidade mas, intimamente sentia a nova solidão que meu irmão caçula iria viver: ser anônimo numa casa com mais de 100 crianças e jovens, sozinho e anônimo por aqueles grandes corredores, quentes no verão, frios no inverno. Recordo com muito sentimento a dor que sentia ao contemplá-lo passando pela experiência da saudade da casa, da família, dos amigos da infância, numa casa de formação tocada por homens sem muitos sentimentos, na qual eu já vivia há 12 anos e onde eu derramei todas as lágrimas que podia, pura saudade, mesmo carregando o peso de que era pecado ter saudade, pois Jesus e Nossa Senhora davam muito mais alegria. Assim foi, porque assim era.

Tãozinho era de personalidade forte, teimoso a ponto de não aceitar desafios. Lembro um dia, assim me contaram, em que Pe. Albano afirmara que ninguém colaria a prova com ele. Sebastião abriu o livro de latim e disse: “eu colo, e pronto!” Ganhou um zero, mas vencera o desafio, como muitas vezes enfrentou depois.

Em setembro de 1972 eu fui indicado para cursar Teologia em Roma. Deixei meu irmão sozinho. Lembro de cartas que me dirigiu, falando de algum formador que não “ia com a cara dele”, da saudade que sentia de tudo. Meu irmão deve ter sofrido muito.

Terminado o Ginásio, deixou o seminário e nosso pai permitiu que ele cursasse o Colegial em Florianópolis, residindo numa pensão. Ali Sebastião foi batizado numa outra vida, onde não faltava o álcool, a droga e as farras. Os sentimentos religiosos foram se apagando, o carinho pela família também. Era outro Sebastião e pouco lembrava o Tãozinho de nossa casa.

Retornei de Roma em 1975 e me preparei para a ordenação presbiteral no ano seguinte, sentindo a indiferença de meu irmão, que me afirmou ver em tudo “babaquice”. Fez o favor de participar mas, no último banco da Igreja à moda hippie, cabelos compridos, calça e camisa jeans, estilo dos rebeldes da época. Nossas veneráveis tias comentavam: “Como ele é diferente”… Lá no fundo da igreja, Sebastião ria… Conseguiu ser diferente.

Tãozinho, nossa irmã Maria e Pedrinho, em 4 de fevereiro de 1967

Tãozinho, nossa irmã Maria e Pedrinho, em 4 de fevereiro de 1967

Desejava partir para o mundo, e partiu. Parece que foi para Porto Alegre. Teve uma experiência não tão boa e depois de uma ou duas semanas voltou…. Mas, antes de ir, escreveu uma carta que Irmã Maria leu para o pai. O assunto era que ele ia partir. Agradecia a educação recebida, mas que este tipo de educação não servia para ele. Passou um tempo no Ribeirão da Ilha, sustentado por nossa irmã Cecília, indo sempre ia ter com ela. Ia também visitar Ir. Maria, no Saco dos Limões. Quando voltou para casa, já noite adentro, disse para o pai que estava voltando. O pai mandou imediatamente o Pedrinho ir para o Ribeirão buscar as coisas dele, antes que se arrependesse. Sebastião ficava no quarto, dormia bastante, levantava pelas 9hs, fazia ele mesmo o sua merenda e almoço, pois era vegetariano. Depois tomava banho no rio. Admirável nosso humilde pai: não chamava atenção, alegre por seu filho estar em casa.

Tempo depois, Sebastião quis realizar o velho sonho: ir para São Paulo, ser livre. Teimou, e meu pai teve de autorizar mas, diferente do pai do filho pródigo, não lhe deu herança, apenas um dinheiro para a viagem e primeiras despesas. Era o ano de 1977 quando Sebastião nos abandonou para viver a vida longe de casa, sozinho no meio urbano, integrado num mundo estranho, e esquecido de seu pai e irmãos, aos quais nem deu o endereço, nem telefonou. Pelo que foi possível pescar, andou no Nordeste, apanhou da polícia, esteve preso, foi internado em hospital devido a alimentos estragados, viajou de trem até a Bolívia, pois queria drogas e queria viver livre. O dinheiro para viver arrecadava vendendo artesanato de couro,.que produzia.

Após dois anos de ausência total, numa madrugada bateu à janela do quarto de nosso pai, dizendo: “pai, sou eu, estou de volta!” Nesse momento nosso pai teve a atitude do pai do filho pródigo e respondeu: “Está bem, Tãozinho, entra para descansar”. E mais não disse, nem mais perguntou. Sebastião entrou em casa como se nunca dela tivesse saído.

Começou nova fase da vida, trabalhando na roça, sendo amigo dos mais pobres e dos humildes, marca de sua personalidade. Recuperou a fé, participava dos sacramentos, mas sempre na liberdade, a ponto de interromper uma homilia do padre para dizer que estava tudo trocado. Sebastião não conseguiu crer por obrigação, nunca mais.

Em 1979 ele quis fazer a experiência de vida dos Irmãozinhos de Jesus, e passou o ano em João Pessoa, trabalhando como servente de pedreiro, muito apoiado pelo Irmão Chico, que nele trabalhou o caminho da conversão.

Retornou nele o desejo de ser padre. Achei que Azambuja não seria o lugar adequado e, graças ao bom Pe. Alcido Kunzler, foi aceito no Seminário de Chapecó, conhecido pelo compromisso social. Mais um ano e, em 1981 veio para Azambuja, cursar a Filosofia. Eu era o formador e não foi fácil tratar com meu irmão, que não admitia a mínima injustiça nem ser obrigado a obediências. Meu irmão continuava o mesmo, cioso da liberdade mesmo a troco de perder benefícios.

Líder nato, engajado nas questões sociais, assumiu o Diretório Acadêmico da Fundação Educacional de Brusque, onde desenvolveu ótimo trabalho. Era 1985 quando eu deixei Azambuja e em 1986 ele deixou o Seminário. Competente e responsável, foi empregado na Prefeitura Municipal de Brusque, por seus méritos chegando a ser nomeado Secretário da Cultura.

Esposo e pai, o adeus

Herança do tempo de Seminário, namorava uma funcionária do Hospital de Azambuja, Nilzete Dubiella. Uma mulher íntegra, paciente, talhada para suportar as liberdades de Sebastião e que o salvou libertou das drogas. Compraram um lote de terra e construíram uma boa casa em Tomás Coelho, onde residia Nilzete. O casamento foi celebrado em 17 de janeiro de 1987, e teve suas peculiaridades: Sebastião entrou na capela de São Roque de manga de camisa, com gravata azul, calça jeans e tênis. Como ele gostava, não como o aconselhavam.

Nilzete e Sebastião foram um casal abençoado pela seriedade, honestidade e inserção na comunidade. O trabalho na prefeitura era bom, trazia o pão de cada dia, mas dependia dos humores da política.

Recebeu e aceitou o convite de meu cunhado Mário César e minha irmã Ivone para montar uma empresa em Curitiba e para lá se transferiu. Foram bem sucedidos e anos depois Sebastião e Nilzete abriram empresa própria, também com muito sucesso. Fiéis a suas convicções, foram sempre justos e generosos na remuneração dos empregados. Ao mesmo tempo adotaram uma família numerosa e muito pobre a quem visitavam a cada sábado, cobrando as lições escolares e ajudando na alimentação e educação. Assumiu o culto na capela Santa Teresinha e preparava jovens para a Crisma. Pouco a pouco revivia em nosso irmão Sebastião a formação religiosa recebida em casa. Foram abençoados pelo nascimento de dois filhos, Daiare e Gabriel. Eles crescendo, não contava as horas para conversar com os filhos sobre Deus, sobre a vida.

Tudo ia muito bem para essa família abençoada em todos os sentidos. Mas, Deus que a visitava sempre, quis que fosse visitada pela cruz, uma pesada cruz que, improvisamente, desmontou aquela felicidade: em 28 de junho de 2006, enquanto Sebastião dirigia o veículo para ir ao trabalho, sentiu dores anormais num braço e decidiu visitar o médico, visitar por visitar. Ao entrar no consultório, foi vitimado por diversos ataques cardíacos que o deixaram inconsciente.Às pressas foi internado no Hospital Evangélico de Curitiba. Era segunda-feira. No sábado seguinte, de manhã, acordou-se e conversou normalmente sobre a família e o trabalho. Daiare falava com muita convicção: “o pai não vai morrer, porque Deus sabe que ele é tão bom e somente fazia o bem. Tenho certeza”. Daiare não conhecia as surpresas de Deus.

Depois, Sebastião apagou-se, mergulhando na agonia que somente terminou em 16 de agosto de 2006. No dia seguinte, foi sepultado no cemitério de Antônio Carlos. Marcada pela dor inesperada, Nilzete falou enquanto olhava o cadáver de seu esposo: “Sebastião, estou muito triste porque você nos deixou. Mas, tenho um consolo: não perdi você para a riqueza, para outra mulher: perdi você para Deus!” Foi sua última conversa, um ato de amor e de fé de quem deveria assumir os filhos Daiare e Gabriel, a casa e as empresas. Foi vitoriosa. A cada fim de tarde se retirava para conversar com Sebastião.

Ali não estava nossa irmã mais velha, Maria, que tanto cuidara de Tãozinho. Era missionária no Ceará. Viveu um luto mais doloroso, pois não se despedira de Tãozinho. Nossa família tinha-se reunido ali, nesse cemitério, em 2 de janeiro de 2002, para a despedida de nosso pai Artulino, abençoado por uma existência de 82 anos e com a graça de não ser provado pela perda de um filho.

Na despedida final de Tãozinho me veio à mente o 26 de novembro de 1964: nesse mesmo lugar nossa mãe se despediu de nós aos 47 anos. Ao lado de seu caixão estava uma criança de 6 anos, o caçulinha Sebastião, que agora também partia, aos 47 anos.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Daiare A. besen em 14 de agosto de 2016 - 18:02

    Obrigada por compartilhar esse pedacinho da minha história que eu mesma não conhecia tio. Hoje a saudade dói muito mesmo…
    Atenciosamente / Best Regards
    Daiare P. Besen

    • #2 por José Artulino Besen em 15 de agosto de 2016 - 10:40

      Querida Daiare, você tem a graça de ter tido pais tão exemplares e lutadores pelo bem. Você aprendeu também que as cruzes nos amadurecem. Abraço do seu tio, Pe. José

  2. #3 por Edimar Blaskowski em 14 de agosto de 2016 - 18:37

    Obrigado, Pe. José, por partilhar uma história de vida tão bonita: Deus tenha o Tãozinho junto Dele. Continue colocando seus dons a serviço. Se lembrar, reza uma Ave Maria por mim, pois hoje estou completando idade nova. Abç.

  3. #4 por Laerte Tavares. em 14 de agosto de 2016 - 22:42

    Oh, Padre Besen, maravilhosa história de seu irmão. Tão impressionante quanto sua narrativa que parece o linguajar que conheço desde menino, tendo a mesma moral, discernimento, tópicos e respeitos. Até nomes me parecem familiares com Albano. Meu sentimentos sinceros por perda tão significativa, mas com disse-me o amigo Alcides Abreu em resposta a telegrama enviado pela morte de seu irmão Nélio: “Laerte, um dia é dia de ir e Nélio já foi. Muito obrigado.” Esta é a vida, Padre Besen. A perda de um familiar sempre é triste, mas a perda maior é para uma mãe quando perde um filho. Minha mãe perdeu dois em plena juventude – amou, cuidou, criou, depois perdeu… Abraço. Laerte.

    • #5 por José Artulino Besen em 15 de agosto de 2016 - 10:51

      Laerte, a vida é bela porque começou. Tudo o mais mergulha na eternidade, onde tudo é luz. Um abraço, Pe. José

  4. #6 por João Flávio Vendruscolo em 15 de agosto de 2016 - 07:48

    Em primeiro lugar, agradeço ao Pe. José, por partilhar este fato envolvendo seus familiares! Na descrição do nascimento do Tião, pude rever e recordar coisas de meu passado, com origem na colônia, numa família grande (14 irmãos). Também, passei por momentos semelhantes, ao ingressar no Seminário São José, na cidade de Faxinal do Soturno – RS, dos padres palotinos. É bem assim mesmo: sair da lavoura e se misturar com mais de 150 outros colegas. Sente-se sim a solidão e a saudade dos familiares, mas aos poucos vamos nos sentindo um grupo de aspirantes ao sacerdócio que, para mim, durou 12 longos anos de estudos e bom aprendizado. Hoje, como diácono, tenho a certeza que a semente desta vocação ao serviço, nasceu naqueles velhos tempos de Seminário.
    Pe. José, renovo meus sentimentos pela perda de Tião!

    • #7 por José Artulino Besen em 15 de agosto de 2016 - 10:54

      Diác. João Flávio, os caminhos são todos semelhantes, ao mesmo tempo são tão diferentes. São todos tecidos por uma mão invisível e amorosa, nem sempre visível. Um abraço, Pe. José

  5. #8 por Ivone Maria Koerich Coelho em 15 de agosto de 2016 - 09:15

    Bom dia, Padre José! Que bonito que o senhor escreveu mais um pouco sobre a vida de sua família.E agora sobre o seu irmão Tãozinho, desde a alegria do seu nascimento e tudo o que passou na vida. Mas com o bom exemplo da família o bom filho a sua casa retornou. O senhor está bem? Lembro sempre do senhor. Com saudades! Grande abraço

    Ivone Maria Koerich Coelho”O amor é a resposta não importa a pegunta”.

    Date: Sun, 14 Aug 2016 20:24:27 +0000 To: ivonemkc@hotmail.com

  6. #9 por guiotto em 15 de agosto de 2016 - 10:03

    Quem amamos, ressuscita cada vez que é lembrado.Vive eternamente. Amei a narrativa da caminhada do Tãozinho na terra, lá onde não haverá mais lágrimas, ele está livre, como sempre foi. Podemos dizer: Tãozinho, rogai por nós!

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