NÃO ADIANTA QUERER SER OUTRO 

Criança em plantação de chá - Ruanda - Sebastião Salgado - 1991

Criança em plantação de chá – Ruanda – Sebastião Salgado – 1991

Tu és meu filho, eu hoje te gerei (Sl 2,7).

Contou um monge do deserto do Egito, no século 4º, que um noviço chamado Cirilo se entregava a muitas penitências, vida de oração contínua que a cada dia ia alterando sua personalidade, a ponto de seus companheiros quase não o reconhecerem mais. Seu mestre espiritual o chamou e perguntou-lhe o porquê de tanta mudança. Cirilo respondeu satisfeito: “Meu pai espiritual, tudo o que estou fazendo, os sacrifícios que aceito e a mudança que estão observando em mim prova que estou no caminho certo: quero ser igual a Santo Antão”. Cheio de experiência e de sabedoria, o velho mestre o repreendeu: “Meu filho, Deus não quer que você seja Santo Antão. Deus quer apenas que você seja Cirilo!”.

O ser humano é único e irrepetível. Não há nem haverá alguém igual a nós, somos originais. Isso também significa que não somos reencarnação de alguém que em outra época teve outra cara, outra personalidade e outro nome. Diz a Sagrada Escritura: “Tu és meu filho, eu hoje te gerei” (Sl 2,7), e não “Tu és meu filho, eu hoje te reencarnei”… A reencarnação nega a nossa individualidade e a nossa liberdade, pois supõe que tenhamos sido outro em outra encarnação e que estejamos pagando pelos erros desse outro, como um karma. Deus criou nosso ser no momento de nossa concepção, quando soprou um sopro de vida novo.

Quando o mestre espiritual na história contada há pouco diz que “Deus quer apenas que sejamos nós mesmos”, nos coloca diante de duas realidades fundamentais: nossa originalidade e nossa missão única no mundo.

Somos únicos e necessários

Deus nos criou de modo único. No meio dos bilhões de habitantes da terra e dos bilhões de antes e do futuro, ninguém foi ou será igual a nós, nem na aparência nem na personalidade. A Bíblia diz que fomos tecidos no ventre de nossa mãe, cada um de nós é uma obra-prima da sabedoria e do amor de Deus (cf. Sl 138,13-14).

Copiar é obra da limitação humana, incompatível com a inteligência divina: Deus cria, não copia. Somos únicos no mundo. A consequência é que devemos nos estimar e valorizar. Não somos qualquer coisa, nem qualquer um. Deus não cometeu erros quando nos criou: somos obra de seu amor. Por que, então, estar reclamando de si mesmo, da inteligência, do aspecto externo, das limitações naturais? Seremos felizes não nos comparando com os outros, querendo ser outro, mas valorizando cada vez mais a maravilha que somos nós, alimentando uma visão positiva a respeito de nossa individualidade.

Outro ponto fundamental: nossa vida é única e necessária. Deus não cria pessoas descartáveis ou supérfluas. Cada um de nós tem uma missão a cumprir na história do mundo. Se não a cumprirmos, a história humana ficará incompleta. Isso mostra a importância de nossa vida. Nossas omissões deixarão a história humana imperfeita. Veja a responsabilidade que Deus colocou em nossas mãos: completar ou deixar incompleta a criação!

Então, tudo o que realizamos adquire uma importância decisiva no plano de Deus. Se não temos isso bem claro, fazemos as coisas mais ou menos, reclamando e até deixando de fazê-las porque nos julgamos uns pobres coitados, inúteis, incapazes.

Resumindo: eu me chamo José, Maria. Sou necessário ao mundo. Deus quer apenas que eu seja José ou Maria. Nada de complexos ou comparações. Eu me basto para ser feliz.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 12 de julho de 2016 - 12:37

    Obrigado pela mensagem, Padre José. Tomei a liberdade de compartilhá-la no facebook.

  2. #2 por Diác. Wilson Fábio de Castro em 12 de julho de 2016 - 12:54

    Certamente, quando saímos de nós mesmos, querendo ser o outro, não nos aceitando como somos, acabam nossas características e individualidades. Hoje, exagera-se na cultura do corpo perfeito e na beleza do rosto, deixando-o, muitas vezes, deformado. Talvez, com esse procedimento, agredimos a vida, que é dom de Deus, abafando o “sopro da vida”, que o Senhor nos deu com imenso amor.

  3. #3 por maria besen em 12 de julho de 2016 - 14:25

    Realmente somos únicos. Nosso defeito é querer imitar os outros. Deixamos de aperfeiçoar os dons que Deus depositou em nos

  4. #4 por Joao Flavio em 12 de julho de 2016 - 15:03

    Sim, é isso mesmo! Gostei de sua reflexão! E que bom se todos possam assim se sentir!! Boa tarde!

  5. #5 por Carlos Martendal em 12 de julho de 2016 - 15:54

    Caro Pe. José,
    Muita bonita a sua reflexão: obrigado por escrevê-la e divulgá-la.
    Com sua bênção,
    Fraterno abraço,
    Carlos Martendal

  6. #6 por Rita de Cassia Martins Botelho em 12 de julho de 2016 - 18:29

    Padre José!
    O Senhor é uma bênção em nossas vidas, aprendo muito com os seus ensinamentos.

  7. #7 por Ivone Maria Koerich Coelho em 12 de julho de 2016 - 21:32

    Nossa vida é única e necessária! obrigada por seu pensamento tão belo Padre José.

  8. #8 por luiz heleno em 20 de julho de 2016 - 22:05

    BOA PE GOSTO MUITO

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