A BICICLETA, QUANTO MAIS ENFEITADA, MAIS PESADA

 

bicicleta

Olhai as aves do céu:
não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros
e vosso Pai celeste as alimenta (Mt 6,25-34).

É uma história verdadeira, acontecida nas margens do rio São Francisco, e que ensina uma verdade muito simples, como simples é toda verdade.

Pessoa de certas posses e competência, pescava no Velho Chico. Prevenido, levava caixa de isopor onde depositava os surubins e dourados. Um pobre sertanejo aproximou-se e pediu-lhe o favor de emprestar o anzol por uns minutos. Pouco depois, segurando um belo peixe, veio devolver o anzol. O homem previdente, assustado, perguntou: “Vai pescar só um? Não acha bom aproveitar que está vindo bastante peixe?” “Para hoje basta esse, doutor. Amanhã Deus dá outro”, respondeu com simplicidade. E contente, foi para casa.

São dois modos distintos de se viver: no primeiro caso, garantir reservas de segurança, pensar no dia de amanhã; no outro, viver bem cada dia, deixando para cada tempo a sua preocupação. São estilos de vida, cada um com seu valor. Quem gosta de garantir o dia seguinte, pode acabar não vivendo sossegado, pois nunca achará que tem o suficiente. Quem pensa apenas no dia de hoje, poderá ser surpreendido com alguma doença, algum imprevisto, mas aproveita a vida. O caminho justo seria o meio termo: não pensar somente no amanhã, esquecendo-se do dia de hoje, nem pensar somente no dia de hoje, esquecendo-se do dia seguinte. Na verdade, o que temos garantido para viver é o dia de hoje, o tempo presente.

O ideal de vida cristã, proposto por Jesus, é o da simplicidade, do desapego. O Evangelho conta que ele e os Apóstolos tinham uma bolsa com economias (Jo 13,29), da qual Judas acabava roubando, mas dá a entender que viviam livre e alegremente, sem a preocupação de acumular reservas. Eram economias para as suas despesas e para ajudar os pobres. Jesus condena com força aqueles que vivem guardando para o dia de amanhã, para o futuro, fazendo do “amontoar riquezas” um projeto de vida, dele excluindo o necessitado que lhe bate à porta. Muitas vezes esta mentalidade sacrifica a pessoa, a família e, especialmente, os pobres. Vão guardando, guardando, sempre economizando, amontoando e, quando menos esperam, morrem. Não viveram: se preveniram para num dia viver, e este dia acabou não chegando.

A liberdade reside na simplicidade

O dinheiro é um “deus” muito exigente: nunca diz “basta!”, mas sempre “é pouco”. Quem é dominado por ele, se tem uma casa, quer duas; tem um carro, precisa de dois; tem duas TVs, falta outra, ganhou um milhão, estão faltando dois, e assim por diante, criando necessidades que nunca são satisfeitas, pois supõem também o último modelo. A casa vai-se enchendo, a despensa é pequena, os armários parecem vazios, o tempo é curto. Numa palavra, a pessoa não domina mais seus bens, é dominado por eles. O dinheiro que deveria estar a serviço da família, torna-se patrão do lar.

Quando vamos acumulando sem limites, sem sabedoria, terminamos por assumir uma carga muito pesada, que nos impede de viver com liberdade, simplicidade, partilhando alegrias com amigos e vizinhos. Corremos até o perigo de usar os outros para aumentar nossa riqueza, ficamos com dificuldades de ter amigos (“eles dão muita despesa”), passamos a ter raiva de pobre (“é tudo malandro, vão trabalhar como eu”), não descansamos mais (“tempo é dinheiro”), uma verdadeira escravidão.

De tanto querermos garantir uma vida tranquila, perdemos a tranquilidade da vida, a carga fica muito grande, a vida pesada.

Numa homilia sobre o consumismo e a acumulação, Dom Gregório Warmeling, bispo de Joinville e de linguagem criativa, falou: “A bicicleta, quando mais enfeitada, mais pesada”. Bicicleta com muito enfeite acaba pesando e cansando na corrida. O dono gosta de enfeitá-la, mas sabe que ficará mais pesada. Quem usa bicicleta para competir em corridas procura uma de material leve e apenas com as peças necessárias, pois o que importa é a leveza e a velocidade, e não a visão dos enfeites.

Existem residências com tanto enfeite, peças de decoração, que circular por eles é  desconfortável, sendo as crianças as primeiras vítimas do “cuidado para não quebrar”.

Assim também nossa vida: se a enchemos com muita coisa, muito luxo, supérfluo, fica difícil de ser vivida. Quanto mais simplicidade, mais alegria, liberdade. Teremos mais tempo para nós e para os outros.

Encanta-nos, sempre, a natureza: tudo tão bonito, equilibrado, na medida do belo, que é o simples, imagem da perfeição.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Joao Flavio em 17 de abril de 2016 - 17:07

    Ok. Obr, padre josé

  2. #2 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 18 de abril de 2016 - 04:10

    Por isso, Jesus nos ensinou no Pai Nosso: … ” o pão nosso de cada dia dai-nos hoje”. Obrigado pela profunda mensagem.

  3. #3 por Luiz Carlos Konescki em 22 de abril de 2016 - 11:47

    Rogai a Deus pra que purifique nossas intenções,
    Perdão e amor guiem nossos passos e decisões
    E que a confiança no amor do Pai seja sem medida,
    Ofertai por Cristo, esta nossa prece Virgem Mãe querida.

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