QUANTO MAIOR A FÉ, MENOR A SUPERSTIÇÃO

O Senhor é minha luz e minha salvação: a quem temerei?
O Senhor é o protetor de minha vida: de quem terei medo? 

(Sl 26,1)

supersticao (2)

Li a frase que dá título a essa página na porta de entrada da casa de um pastor luterano. Não mais abandonei-a e muito me serve diante de circunstâncias de minha vida pessoal e de pessoas que cruzam meu caminho.

Séculos atrás entendia-se que o homem tivesse medo da natureza, de supostas forças cósmicas, de raios e trovões. A ciência era pouco desenvolvida, e muitos fenômenos hoje vistos como próprios da natureza eram encarados como de origem divina. O trovão era explicado como sinal de alerta dos céus. O homem antigo não poderia imaginar que era o resultado do encontro de nuvens com cargas elétricas diferentes.

Com o progresso humano, os fenômenos físicos passam a ser entendidos na sua própria estrutura, não sendo mais necessário buscar na divindade a explicação que se encontra na própria natureza. Consequência direta é desaparecer o temor frente a supostas forças naturais ou desconhecidas.

Nesse contexto, é cada vez mais estranho o avanço da superstição no homem moderno. Por superstição se entende o medo humano frente a fenômenos e forças da natureza, confiar o próprio destino à proteção de imaginárias energias que emanam de seres, astros, plantas ou objetos, crer na força de palavras, gestos e repetições mágicas.

Há quem se declare livre da superstição, mas tem medo de passar por debaixo de escada, deixar o sapato virado para cima, sair por uma porta que não a de entrada, se espanta ao ver borboleta preta, gato preto. Então se protege com ferraduras, trevos de quatro folhas, ramos de arruda atrás da orelha, elefante ou figa pendurados ao peito, flores brancas à mesa, cristais, com despachos de umbanda ou macumba, etc. Em outras palavras, o homem renuncia a ser senhor do próprio destino, e o confia a objetos e forças naturais. Pior ainda, deixa de buscar em Deus a proteção para sua vida, para buscá-la na natureza, na leitura das mãos e dos astros, constelações e zodíacos, através dos horóscopos. Passa a viver com medo de mau olhado, olho gordo, de magia. Em regiões brasileiras, ao ver padre de batina se protegia os genitais com as mãos, para evitar impotência.

O homem “científico” se ajoelha diante da magia que, teoricamente, repudia. Uma parte da explicação para o renascimento da magia e da bruxaria deve ser buscada na diminuição da fé em Deus, ou numa falsa compreensão de Deus. Deus fez o homem senhor da natureza, deu-lhe a missão de dominá-la, e o homem, sem Deus, passa a ser servo dominado por ela. Acontece a renúncia à própria competência de explicar e dominar os fenômenos naturais.

Certa vez, um grande autor escreveu que o homem sempre crê em alguma coisa: ou crê em Deus, ou crê em bruxas. Países como a Inglaterra e a Alemanha, que conhecem um grande desenvolvimento científico, são hoje campeões na crença em bruxarias. Tiraram a transcendência de suas vidas, e o espaço vazio foi sendo ocupado por cultos mágicos. Multiplicam-se os rituais pagãos, as crenças célticas, druídicas, os cultos satânicos. A qualquer custo, procura-se esconjurar o medo que surge diante do abandono da confiança em Deus, de onde vêm o auxílio e socorro necessários para o homem.

E então, inocentes datas do calendário amedrontam o homem supersticioso: agosto dá desgosto, sexta-feira 13 é um perigo!

Quanto maior a fé, menor a superstição; quanto menor a fé, maior a superstição. O nosso auxílio vem de Deus, que fez o céu e a terra e de tudo é o senhor. Impressionante a multiplicação de devoções “curativas” no meio católico até esclarecido, e a transformação de devoções populares legítimas em mandingas e amuletos. Isso acontece mais no mundo urbano que desconhece a simplicidade dos gestos e sinais legítimos da devoção popular. Nada fica sem explicação nesse ambiente tornado mágico, infelizmente alimentado por comércio devocional.

Um exemplo é a Medalha ou Cruz de São Bento, de uma difusão excepcional. São Bento foi grande devoto da cruz, que sempre carregava consigo, e traçava uma cruz na testa de quem o procurava. Ele atribuía grande poder à Cruz do Senhor. Hoje temos suas medalhas, com diversas palavras e letras às quais se atribui eficácia quase infalível para afastar as tentações do demônio ou o demônio em pessoa. Ganha uma peregrinação ao túmulo do Santo para quem souber o significado dessas “poderosas” letras latinas gravadas na medalha: V.R.S.N.S.M.V.S.M.Q.L.I.V.B. Para ajudar o leitor e roubar-lhe o prêmio, adianto a resposta: Vade retro satana (Afasta-se satanás); nunquam suade mihi vana (nunca me aconselhes tuas vaidades); Sunt mala quae libas (A bebida que me ofereces é o mal); ipse venena bibas (bebe tu mesmo teus venenos). Se a isso se acrescenta uma oração a São Miguel Arcanjo, Satanás morrerá com seus venenos.

Com todo o respeito à medalha, se invocarmos o nome JESUS, o fruto não seria seguro?

Tenho observado a reedição de devocionários dos séculos 18/19, livros de visões do inferno e do purgatório, do horror vivido pelas almas, a descrição do tribunal divino, de possessões diabólicas. Os livros têm aprovação eclesiástica, de bispo tal, mas, de 1890.

Essa tendência supersticiosa alimentada inclusive em meios clericais, também ocorre em meios evangélicos, onde colocar a Bíblia em determinado lugar do corpo cura doenças e feridas. Efeito semelhante se obtém tocando o corpo do pastor, ou com um pano empapado no suor do reverendo.

Quando temos fé cristã, tudo isso perde sentido. Mas, se não temos fé no Nome do Senhor, tudo isso representa um mergulho na magia, na superstição, donde foi excluída a fé verdadeira. Lembremos a palavra de Pedro diante do paralítico: “ouro e prata não tenho, mas o que tenho te dou: em nome de Jesus Cristo, levanta-te e anda!”. (Atos 3, 6).

Pe. José Artulino Besen

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