TEOLOGIAS COMPLICADAS E ESPIRITUALIDADES SUPERFICIAIS

2016-04Quem conheceu o Jorge Mário Bergoglio como padre e bispo, e hoje papa Francisco, comenta a respeito de sua preocupação em ser claro, para ser compreendido ao falar a todo tipo de pessoas. Essa preocupação levou-o a ser capaz de expressar temas complexos com extrema simplicidade, pois tem consciência de não ter utilidade uma reflexão bíblica e teológica que não seja acessível ao povo de Deus.

Papa Francisco tem insistido no tema da fé cristã como viver o Cristo, comunicar o Cristo, e isso na simplicidade vivida por Jesus de Nazaré. É mais fácil e prático complicar a doutrina e a moral do que vencer as resistências que nos fazem preferir discutir o falso e o certo, a sã doutrina e a heresia, insistir nas verdades não negociáveis batendo e rebatendo nessa tecla que nos torna bons apologistas, mas cristãos chatos e repetitivos, como se o cristianismo fosse um conjunto de verdades e não uma vida tecida na vida do Senhor que nos dá a vida.

Ao colocar a misericórdia como a arquitrave da Igreja, Francisco cria uma imagem bela e desafiante: ser cristão é querer e saber encontrar-se com o outro, ser Igreja é não ser auto-referencial, é estar sempre de saída, buscando os pobres nas periferias da vida. Imagem concreta que recorda o bom samaritano, indicando-nos o caminho do serviço, sempre, em suas chagas contemplando as chagas do Senhor: “A fé que não leva a entrar nas chagas do Senhor não é fé. É uma ideia, uma ideologia, mas não fé no Senhor” (Francisco, na vigília da Divina Misericórdia, 02-04-2016).

Aqui entra outro tema, desafiador: a teologia que deve, em todos os seus cursos, estar a serviço da Igreja em saída, hospital de campanha, missionária. Em 11 de abril de 2014, no discurso à comunidade acadêmica da Pontifícia Universidade Gregoriana, do Instituto Bíblico e Instituto Oriental, que congregam estudantes de dezenas de países, Francisco se mostrou desgostoso com o narcisismo de teólogos e dos pensadores. Salientou a importância da abertura dos alunos à Igreja de Roma, onde estudam, mas unidos às igrejas e às culturas de origem: centro e periferia, pois “a lógica de Deus chega ao centro partindo da periferia para retornar à periferia”. Os que vão estudar na Cidade eterna não podem esquecer ou renegar sua proveniência e devem retornar sendo capazes de enriquecer as raízes de sua fé com a experiência romana.

Em seguida falou da relação entre estudo e vida espiritual: um dos desafios de hoje é transmitir o saber e dele oferecer uma chave de compromisso vital, não um amontoado de noções divididas entre si, mas uma hermenêutica evangélica nutrida em atmosfera espiritual. A filosofia e a teologia são fecundas somente quando feitas com a “mente aberta e de joelhos”. O teólogo que se orgulha de seu pensamento, julgando-o completo e definitivo, é um medíocre, pois o verdadeiro teólogo e filósofo julga seu pensamento sempre incompleto e aberto ao “maius”, ao mais de Deus e da verdade, sempre em crescimento. O teólogo que não reza e não adora a Deus acaba mergulhado no mais lamentável narcisismo. Deve sempre trabalhar com a “mente aberta e de joelhos”. Isso faz recordar Evágrio Pôntico (séc. IV): “Se és teólogo, rezas; se rezas, és teólogo”, pois na Antiguidade não se concebia um teólogo que não fosse santo: “ao santo as coisas santas”.

Cristãos complicados porque superficiais

Em outra ocasião, na Missa do Crisma que Francisco celebrou com o Clero romano na Basílica de São Pedro, em 24 de março de 2016, alertou a respeito de três perigos que afetam os bispos, sacerdotes e cristãos de hoje: o excesso de teologias complicadas, as espiritualidades sem compromisso, superficiais, e o mundanismo virtual.

As teologias complicadas – não confundir com teologias profundas – se confundem com elaborações de laboratório, abstrações que perdem de vista o dado singelo e concreto da fé. Nelas prolifera a submissão às ciências naturais (necessárias, claro) que são vistas como de bom tom, modernas, em diálogo com a ciência, mas humilham a fé dos humildes, dão lugar a construções bombásticas e hipercríticas, porém, não alimentam o povo. A síntese teológica parte do Creio, que deve julgar a teologia, e não das ciências naturais que o substituem, e isso está muito no gosto dos “mestres da suspeita”, que surgem na vida eclesial, e acabam esterilizando a reflexão sobre os dados da fé. Tais “mestres” acham que ser profundo é ser moderno, é questionar constantemente a fé eclesial. Não é que falte o Evangelho ao alcance de nossas mãos, mas preferimos usá-lo em pedaços sobre os quais tecemos nossos comentários. O papa São João XXIII, frente a essa tentação de modernidade comentou: a mim não agradam esses exegetas e teólogos que fazem da Bíblia um salame cortado em fatias e que impedem ver sua unidade.

As espiritualidades sem compromisso, superficiais, gasosas: tantas vezes somos cegos, privados da luz maravilhosa da fé: “Sentimos que a nossa alma morre sedenta de espiritualidade, e não por falta de Água Viva, do alimento espiritual oferecido pelos Sacramentos, mas por um excesso de espiritualidades sem compromisso, espiritualidades superficiais. Grandes Mestres espirituais da tradição cristã são substituídos por expertos e gurus, trocamos a grande Liturgia por manuais de autoajuda e de boas ações. Na sua superficialidade, querem com seus fogos de artifício evitar o drama do encontro entre a liberdade do homem e a liberdade de Deus”. Essa superficialidade espiritual, muito procurada na sociedade hedonista, satisfaz os que buscam se sentirem bem, mas esquecem que o conteúdo da tentação diabólica é sempre  “ser agradável”.

A mundanidade virtual que se abre e fecha com um click nos faz ceder ao “fascínio de mil e uma propostas de consumo a que não conseguimos renunciar para caminhar, livres, pelas sendas que nos conduzem ao amor dos nossos irmãos, ao rebanho do Senhor, às ovelhas que aguardam pela voz dos seus pastores”. Preferimos encontros superficiais que não nos conduzem ao compromisso pessoal com o próximo. Padres e leigos que fazem sucesso (e dinheiro) através dos Meios de Comunicação, vivem no autoengano, se satisfazem com massagens espirituais, pois no seu modo de ser e falar evitam aquilo que é vital na vida cristã: o encontro pessoal com o outro, com o pobre, com o outro que é Cristo.

A fé cristã reconhece e confessa o Verbo encarnado, o Cristo presente aqui e agora no povo da Igreja. Para viver e comunicar a fé cristã faz-se necessário estar na carne da história, na realidade do povo que procura e chora, desespera e caminha, com o Senhor presente em todos os pobres do mundo, os nossos legítimos senhores.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Marcos santos em 3 de abril de 2016 - 09:05

    Quantos ensinamentos maravilhosos recebi nos textos sagrados, nos padres e leigos tantos que passaram ma minha vida, mas que se tornaram-se chatos pois não confiavam a mim o ensinamento transmitido e trouxeram refinamentos do básico. Uma abstração inútil que me tirava aquela coragem desafiadora do Cristo diante de fazer o certo mesmo quando a lei engessava a atitude se ser bom e misericordioso.
    Recentemente fui convidado por um amigo para almoçarmos juntos, foi uma refeição onde sobrou pratos que nem tocamos por estarmos satisfeitas, em fim ele fez questão de pagar, o que achei um valor muito considerável mas ele insistiu, ao sairmos logo na entrada uma pessoa pedia dinheiro com a alegação de que queria se alimentar, logo meu amigo sacou as moedas e entregou ao senhor. Ai vem a parte interessante, ele me fitou como eu deveria fazer o mesmo, dai me lembrei de toda aquela comida que sobrou e vi que poucas moedas não pagariam uma refeição daquela, então tomei o senhor pelos braços que até se assustou e o levei a mesa onde estavam aquelas sobras , o homem ficou paralisado ao ver tanta comida em seguida me perguntou se podia levar, claro que sim respondi já estava pago. O meu amigo comentou depois que foi o melhor almoço que ele pagou na sua vida pois não teria aquela atitude de chamar um desconhecido para comer sobras.é essa coragem de um evangelho simples que nosso Cristo e o padre Bergoglio e o padre Besen maravilhosamente trazem as nossas vidas,em um tempo de formulas e regras prontas. Desculpe me estender tanto mas seu texto é um refrigerio na minha alma.

    • #2 por José Artulino Besen em 3 de abril de 2016 - 15:54

      Marcos, muito obrigado por seu texto, verdadeira parábola sobre a misericórdia. Foi muito bom ler sua história.

  2. #3 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 3 de abril de 2016 - 13:15

    Há coisas que foram feitas para circular; “abençoou a mim e agora abençoará meus amigos de facebook”. Obrigado, Pe. José A. Besen!

    • #4 por José Artulino Besen em 4 de abril de 2016 - 07:53

      Ademar, obrigado pelo estímulo sempre presente e por difundir essas humildes páginas. O Senhor nos inspire sempre.

%d blogueiros gostam disto: