O BOM LADRÃO, PRIMEIRO TEÓLOGO

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Os soldados também zombavam dele; aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre e diziam: “Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!”. Acima dele havia um letreiro: “Este é o Rei dos Judeus”. Um dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo: “Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!” Mas o outro o repreendeu: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma pena? Para nós, é justo sofrermos, pois estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal”. E acrescentou: “Jesus, lembra-te de mim, quando começares a reinar”. Ele lhe respondeu: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso” (Lucas 23, 36-43. 47).

Lucas, o evangelista da misericórdia, dos pecadores acolhidos por Jesus, da mulher pecadora, de Mateus e de Zaqueu, deixou para nós um exemplo da potência da graça quando narra a Paixão do Senhor crucificado: mesmo naquele momento de dor, de desprezo e de morte, não deixou de anotar quem acompanhava Jesus na crucifixão: dois ladrões. E escreveu que um era blasfemo e o outro tinha sido tocado por Jesus que, pouco antes, tinha suplicado: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!”. Um homem crucificado que invoca seu Pai para que perdoe os que se divertiam em humilhá-lo, declarando que o povo não sabia o que estava fazendo, não é somente um homem crucificado: é um homem que atrai sobre si toda a maldade humana para que pudesse pedir a seu Pai que perdoasse a todos. E pediu perdão para si, perdão pelos seus pecados, mas que são os nossos. E inaugurou o tempo da Salvação, o ano da misericórdia.

Muitos anos depois, o apóstolo João escreverá que o trono donde Cristo reinará será a cruz e que sua elevação à glória será a crucifixão. Iluminado pela graça, o bom ladrão reconheceu essa verdade. Os chefes da sinagoga, os mestres de Israel, não reconheceram a divindade de Jesus Cristo, enquanto que o último do povo, o criminoso, do alto de seu patíbulo confessou que Cristo é o filho de Deus, o Messias, o Salvador do mundo. E também foi um oficial do exército romano, pagão que, ao ver o que acontecera,  glorificou a Deus dizendo: “De fato! Este homem era justo!”.

Os Pais da Igreja, de Agostinho a João Crisóstomo, os mestres espirituais como São Bernardo, não se cansaram de admirar o bom ladrão, o primeiro teólogo por que, por primeiro, reconheceu a realeza e o senhorio de Jesus. Esse homem foi um milagre da graça, pois tinha diante de si a realidade totalmente infame de um derrotado e, apesar disso, nele reconheceu um Rei a quem pedir salvação. Contra toda evidência, acreditou no letreiro: “Este é o Rei dos Judeus”. Enquanto seu companheiro de malfeitorias blasfemava, ele confessa sua condição de pecador. Um pede socorro para esta vida, o outro, para a eternidade; um ridiculariza a situação de infortúnio daquele que é o Cristo, e o outro vê no infortúnio um momento da graça.

São Dimas pode ser chamado “patrono dos teólogos”: enquanto muitos estudiosos das coisas sagradas se complicam com os textos bíblicos, o bom ladrão viu e sentiu no homem das dores um Rei, e nos estertores do humilhado e fracassado, o Rei iniciando seu Reinado: lembra-te de mim quando iniciares a reinar. E Jesus começou a reinar perdoando-o.

Tão belo em sua face desfigurada por amor

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O Crucificado – M. Grünewald

O bom ladrão pede socorro a um crucificado, o verdadeiro necessitado de socorro, e não tem dúvida de alcançá-lo.

Na vida espiritual chamamos de sublimação a transformação de uma fraqueza em força, de um vício em uma virtude, e foi isso o que fez o bom ladrão. São João Crisóstomo elogia o bom ladrão que, “mesmo na cruz não se esqueceu de sua antiga profissão de ladrão porque, em poucos instantes, conseguiu roubar o reino eterno do céu”. Sabia roubar com a esperteza que usou no último momento para mais um roubo: a vida eterna.

E continua João Crisóstomo: o Bom Ladrão foi uma daquelas almas eleitas de quem o Senhor disse: “Bem-aventurado aquele que não se escandalizar de mim”. Ele contempla Jesus pregado na cruz e o invoca como se o contemplasse sentado em seu trono celeste; o vê condenado a um suplício infame e o invoca como rei e soberano do universo; vê Jesus totalmente humilhado como se o contemplasse no trono de sua glória (cf. De cruce et latrone).

Foi iluminado e colheu os frutos da cruz antes de nós, e mesmo antes dos apóstolos: “Dimas não tinha visto os milagres operados pelo Senhor durante sua vida, nem pode ver aqueles que realizaria depois da morte e, apesar disso, num companheiro de suplício reconhece seu Senhor, num réu que morre com ele invoca seu Salvador” (Leão Magno – Sermo II De Passione). O papa São Leão vê em Dimas o primeiro mártir, o primeiro confessor da fé, o primeiro evangelista, pois, sem respeito humano, do alto da cruz anuncia a todo o povo a inocência, a potência, o império e a divindade do Salvador divino. Réu até a cruz, logo se tornou confessor. São Cipriano chama o bom ladrão de “mártir e batizado em seu sangue, enquanto confessa a divindade de Cristo”.

Para Agostinho, São Dimas ainda não foi chamado e já é um eleito; ainda não é um servo, e já é amigo; ainda não é um discípulo, e já é um mestre. São João Crisóstomo ensina que “enquanto os sacerdotes e o povo, a uma só voz dizem que Cristo é réu, Dimas o proclama inocente e santo; enquanto todos o maltratam como um escravo, ele o anuncia como Senhor; enquanto todos o insultam como o pior dos homens, se dirige a ele como a seu Deus. Todos blasfemam contra Jesus, somente Dimas o defende. Todos o desprezam, somente ele o louva. Todos o acusam, ele sozinho o declara inocente”. Enquanto isso, com exceção de João, os outros apóstolos estavam covardemente escondidos, tomados pelo medo e pela dúvida.

Com o rito da canonização a Igreja declara que um bem-aventurado está na glória dos céus, e bom ladrão foi canonizado pelo próprio autor da santidade, Jesus Cristo, ao declarar-lhe que “hoje estarás comigo no paraíso”.

Até a conclusão da história, os dois ladrões simbolizarão a humanidade enquanto contempla o Homem crucificado: muitos verão o fracasso de um profeta bem intencionado, muitos verão o Rosto de um homem que se interpôs entre nós e Deus, para que o Pai não pudesse nos olhar sem antes ver seu Filho pedindo por nós: “perdoai,  eles não sabem o que fazem”. E a cruz se torna consolação.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Telma Helena em 24 de março de 2016 - 06:56

    Bendito seja Deus que pregado na cruz transformou pela humildade daquele um coração de pedra em coração de carne. Glorioso São Dimas intercedei por nós. Telma

  2. #2 por LUIZ HELENO CASTRO DOS SANTOS em 25 de março de 2016 - 17:50

    OTIMO padre

  3. #3 por Ivone Maria Koerich Coelho em 29 de março de 2016 - 09:53

    Muito lindo o seu pensamento sobre o Bom Ladão, Padre José. E achei lindo como São João Crisóstomo diz: Ele contempla jesus pregado na Cruz e o invoca como se o contemplasse sentado em seu trono.

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