NOSSA SENHORA DE GUADALUPE, Padroeira da América latina

 

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Nossa Senhora de Guadalupe – cópia do manto

Entre os dias 12 e 18 de fevereiro de 2016, Francisco visitará o México. Centro espiritual e afetivo de sua peregrinação é o Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, La Virgen de Guadalupe. Todos os momentos decisivos da história mexicana foram acompanhados pelo estandarte da Virgen. A imagem dela, impressa em 1531 no manto do índio Juan Diego, milagrosamente conservado, desafia toda explicação científica, mas não é desafio algum para o povo latino-americano: é o retrato da Mãe, o retrato da Virgem Mãe de Deus.

Na ocasião dessa visita apostólica de Francisco à nação mexicana, nação marcada pela fé, provações, o drama das migrações, e também pela violência dos cartéis, pensei em oferecer essa humilde narração dos fatos vividos pelo índio asteca São Juan Diego Cuauhtlatoatzin (falecido em 1548 e canonizado em 2002), e sigo a narração Nican Mopohua (O grande acontecimento), do sábio indígena Antônio Valeriano (1520-1605), que teria escutado a história da boca de Juan Diego. Conservamos a simplicidade e a “cumplicidade” afetuosa entre a Virgem e o índio a quem apareceu em Topeyac, Guadalupe.

Entre 1519 e 1521 travou-se a guerra na qual o exército de Hernán Cortés derrotou o império asteca com a tomada da Cidade do México. Impôs-se a paz militar e o domínio espanhol. Em seguida, teve início o trabalho de evangelização cristã, com o resultado da aceitação do Evangelho pelo povo asteca. Mesmo em meio ao sofrimento pela destruição de sua cultura, muitos aceitaram a fé cristã. Ali, na cidade do México, em dezembro de 1531, Nossa Senhora apareceu a um pobre índio, chamado Juan Diego, do povo Tlatelolco.

Primeira Aparição – sábado de manhã cedo

Sábado de madrugada, Juan Diego estava a caminho para o México, pois ia participar da missa e da catequese. Ao chegar ao topo do monte ouviu músicas muito belas, assemelhando-se a cantos de diversos pássaros. Juan Diego parou, olhou e se perguntou se não estaria dormindo em pé e até imaginou que estava no céu descrito pelos missionários. Olhava acima da montanha, de onde vinha o canto celestial, quando ouviu uma voz que vinha lá de cima e que falava: “Juanito, Juan Dieguito”. Com coragem foi onde o estavam chamando, sem medo algum. Alcançando o topo, viu uma Senhora, que lhe disse para se aproximar. Ficou maravilhado com toda a beleza dela: seu vestido era radiante como o sol, o penhasco onde estavam seus pés assemelhava-se a um colar de pedras preciosas, e a terra cintilava como o arco-íris. Inclinou-se e ouviu sua voz suave e cativante lhe dizer: “Juanito, meu humilde filho, onde você está indo?”. Ele respondeu: “Minha Senhora e Menina, eu tenho que chegar a Tlatelolco, para seguir as coisas divinas que nos dão e ensinam nossos sacerdotes”. Ela, disse-lhe: “Saiba e entenda, você que é o mais humilde dos meus filhos, que eu, a sempre Virgem Maria, Mãe do Deus Vivo, desejo que um templo seja construído aqui, rapidamente; então eu poderei mostrar todo o meu amor, compaixão, socorro e proteção, porque eu sou vossa piedosa Mãe e de todos os habitantes desta terra e de todos os outros que me amam, invocam e confiam em mim. Ouço todos os seus lamentos, vejo todas as suas misérias, aflições e dores. E para que eu possa socorrer o povo, vá ao palácio do Bispo do México e lhe diga que eu manifesto meu grande desejo: que aqui neste lugar seja construído um templo para mim. Você dirá exatamente tudo que viu, admirou e ouviu. Eu farei você muito feliz e digno da minha recompensa, por causa do que sofrerá para realizar o que pedi”. Neste ponto, Juan Diego inclinou-se diante dela e disse: “Minha Senhora, eu estou indo cumprir sua ordem, agora me despeço de você”.

Juan Diego logo desceu para cumprir a tarefa e foi em linha reta pela estrada, até a cidade do México.

Segunda Aparição – sábado pela manhã

Chegando à cidade, foi direto ao palácio do Bispo, o franciscano Frei Juan de Zumárraga. Pediu ao criado para anunciá-lo. Esperou muito tempo. Quando entrou, se ajoelhou e contou ao Bispo tudo o que tinha visto e a mensagem da Nossa Senhora do Céu. Após ouvir toda a conversa, o Bispo disse-lhe: “Volte depois, meu filho, e eu lhe ouvirei com muito prazer. Pensarei no que você disse”. Juan Diego saiu triste, porque Frei Juan não acreditou nele.

Retornou no mesmo dia, foi diretamente ao topo da montanha, encontrou-se com a Senhora do Céu, que o esperava no mesmo lugar. Prostrou-se diante dela e disse: “Senhora, minha filha Caçulinha, minha Menina, eu fui onde você mandou para levar sua mensagem. Frei Juan ouviu, mas quando respondeu, senti que não acreditou. Ele disse: “Volte depois, meu filho e eu o ouvirei com muito prazer. Examinarei o desejo que você trouxe, da parte da Senhora”. Entendi pelo seu modo de falar que não acreditava em mim e que era invenção da minha parte o desejo da construção de um templo para você. Por isso eu lhe peço, Senhora e minha Criança, que instrua a alguém mais importante, para que acredite. Porque eu não sou ninguém, não sou nada e você logo me envia a um lugar onde nunca estive! Por favor, perdoe o grande pesar e aborrecimento causado, minha Senhora”.

A Virgem respondeu: “Escuta, meu filho caçula, tenho vários servos e mensageiros, mas eu quero que você mesmo o faça. Eu imploro, meu caçula, e ordeno que amanhã volte novamente ao Bispo. Você vai em meu Nome e faça saber meu desejo: que ele inicie a construção do templo como eu pedi”. Juan Diego respondeu: “Senhora, minha Criança, não deixe que eu lhe cause aflição. De bom grado irei cumprir sua ordem, mas acho que não serei ouvido, e se fôr, não acreditarão. Amanhã, ao entardecer, lhe trago a resposta do Bispo. Descanse neste meio tempo”. Então, foi para sua casa.

Terceira Aparição – domingo de manhã

No dia seguinte, domingo, antes do amanhecer, Juan Diego foi direto ao Tlatelolco, para participar das orações e em seguida estar presente a tempo para ver o Bispo. Por volta das 10 horas, após participar da missa, Juan Diego foi ao palácio dele. Mal chegou, já estava ansioso para vê-lo. Após muita dificuldade, o Bispo estava à sua frente. Ajoelhou-se diante de seus pés, triste e chorando, e expôs a ordem de Nossa Senhora do Céu e que, por Deus, acreditasse em sua mensagem de erguer um templo onde ela queria. O Bispo fez várias perguntas sobre a Senhora e ele descreveu perfeitamente em detalhes. Apesar da precisa descrição de sua imagem, o Bispo não deu crédito e disse que um sinal era necessário; só então acreditaria ser ele enviado pela verdadeira Senhora do Céu. Após ouvir o Bispo, disse Juan Diego: “Meu senhor, escuta! Qual deve ser o sinal que o senhor quer para eu pedir à Senhora do Céu?”. O Bispo o despediu. Imediatamente, ordenou algumas pessoas de inteira confiança para olhá-lo E assim foi feito. Juan Diego foi direto pela estrada mas eles perderam-no de vista. Procuraram por tudo, mas não puderam mais vê-lo. Retornaram com muita raiva, não somente porque estavam aborrecidos, mas também pelo fracasso. O que eles informaram ao Bispo, o influenciou a não acreditar em Juan Diego: que ele foi enganado, inventou o que disse. E decidiram: se ele voltasse, eles o prenderiam e puniriam com severidade tal que nunca mais mentiria.

Nesse tempo, Juan Diego estava com a Virgem Santíssima, contando-lhe a resposta que trazia do senhor Bispo. A Senhora, após ouvir, disse-lhe: ”Muito bem, meu queridinho, você retornará aqui amanhã, e então levará ao Bispo o sinal por ele pedido. Com isso ele acreditará em você, meu queridinho e eu o recompensarei pelo seu cuidado, esforço e fadiga gastos em meu favor. Vá agora. Amanhã espero você aqui”.

Quarta Aparição – terça-feira ao amanhecer

No outro dia, segunda-feira, Juan Diego não pode ir porque, ao chegar em casa seu tio, Juan Bernardino, estava doente e em estado grave. Primeiro foi chamar um médico e seu tio pediu que, ao amanhecer, fosse ao Tlatelolco e chamasse um sacerdote, pois não mais se levantaria ou melhoraria de sua enfermidade.

Na terça-feira, antes do amanhecer, Juan Diego ia de sua casa ao Tlatelolco para chamar o sacerdote e, ao aproximar-se da estrada que liga a ladeira ao topo do Tepeyacac, pensou: “Se eu seguir adiante, a Senhora estará me esperando, e eu terei que parar. A primeira coisa que devo fazer é logo chamar o sacerdote”. Então, contornou a montanha, deu várias voltas para não ser visto por ela. Não conseguiu, pois ela aproximou-se dele pelo outro lado da montanha e disse: “O que há, meu caçula? Onde você esta indo?”. Ele inclinou-se diante dela e disse: “Minha Criança, Senhora, Deus permita que você esteja contente. Como você está nesta manhã? Está bem de saúde? Senhora, vou lhe causar um pesar: um de seus servos,  meu tio, está muito doente. Contraiu uma peste, e está perto de morrer. Eu estou indo depressa para chamar um de seus sacerdotes para ouvir sua confissão. De forma que, se eu for, retornarei aqui brevemente, então levarei sua mensagem. Minha Criança, perdoe-me, seja paciente comigo. Eu não a enganarei, minha Caçula. Amanhã eu voltarei o mais rápido possível”.

A Santíssima Virgem respondeu: “Escuta-me e entenda bem, meu caçula, nada deve amedrontar ou afligir você. Não tema esta ou qualquer outra enfermidade, ou angústia. Eu não estou aqui? Quem é sua Mãe? Você não está feliz com o meu abraço? O que mais pode querer? Não se aflija por esta enfermidade de seu tio: por causa disso, ele não morrerá agora. Tenha certeza de que ele já está curado.” (E então, seu tio foi curado, como mais tarde se soube.)

Juan Diego ficou enormemente consolado. Estava feliz. A Senhora do Céu ordenou que subisse ao topo da montanha, onde anteriormente haviam se encontrado e disse-lhe: “Suba, meu caçula, lá onde você me viu e lhe dei a ordem e encontrará diferentes flores. Corte-as, junte-as, então volte aqui e traga-as em minha presença”. Imediatamente Juan Diego subiu a montanha e quando atingiu o topo, espantou-se pela variedade de delicadas rosas que haviam brotado bem antes do tempo, porque, estando fora da época, deveriam estar congeladas. O topo da montanha era um lugar onde era impossível nascer qualquer tipo de flor. Começou a cortá-las, recolheu todas e colocou-as em seu manto. Logo retornou e entregou para a Senhora do Céu as rosas que havia cortado. Ao vê-las, ela tocou-as com suas mãos e colocou-as de volta no manto, dizendo: “Meu caçula, esta variedade de rosas é a prova e o sinal que você levará ao Bispo. Você irá dizer em meu nome que nelas ele verá o meu desejo e que deverá realizá-lo. Eu ordeno que apenas diante do Bispo você desenrole o manto e descubra o que está carregando. Você contará tudo direito. Você convencerá o Bispo a dar sua ajuda para que um templo seja construído do modo como eu pedi”.

Depois que a Senhora do Céu deu o recado, ele se pôs a caminho pela estrada que dava diretamente ao México. Estava feliz e seguro de seu sucesso, carregando com grande carinho e cuidado o que continha dentro de seu manto, de forma que nada poderia escapar de suas mãos, a não ser o maravilhoso perfume da variadas e belas flores.

O Milagre da Imagem

Ao chegar ao palácio do Bispo, Juan Diego encontrou-se com o secretário e outros criados. Ele suplicou para dizer que desejava ver Frei Juan, mas ninguém consentia. Ele esperou por muito tempo. Quando viram que esperava tanto tempo, em pé, cabisbaixo, sem nada fazer, somente esperando ser chamado, e aparentando trazer algo em seu manto, eles chegaram perto na tentativa de matar a curiosidade. Juan Diego, vendo que não poderia esconder o que trazia, descobriu um pouco seu manto e eles, ao verem que eram flores e que não era época de brotarem, ficaram completamente atônitos. Tentaram pegar algumas, mas não conseguiram: elas não pareciam flores reais, em vez disso, pareciam estar pintadas, estampadas, ou costuradas na roupa. Então eles foram dizer ao Bispo o que havia acontecido, e que aquele índio que tantas vezes lá estivera, novamente tentava vê-lo e por muito tempo já o aguardava.

milagre-do-manto-em-guadalupe1O Bispo se deu conta de que aquilo seria a prova para confirmar e concordar com o pedido do índio. Imediatamente ordenou a sua entrada. Juan Diego entrou, ajoelhou-se diante dele, como estava acostumado a fazer, e de novo disse o que tinha visto e admirado, bem como a mensagem. Ele disse: “O senhor pediu para que fosse dizer a minha Ama, a Senhora do Céu, Santa Mãe preciosa de Deus, que desejava um sinal, e só assim acreditaria em mim, que deveria ser construído um templo onde ela pediu para ser erguido. Também dei-lhe a minha palavra que lhe traria algum sinal ou prova de sua vontade. Ela acolheu o seu pedido: hoje, bem cedo, enviou-me ao topo da montanha, onde eu costumo vê-la, para cortar uma variedade de rosas. Depois de cortá-las e de trazê-las para baixo, ela segurou-as em suas mãos e colocou-as em meu manto para então trazê-las e entrega-las à sua pessoa. Ela me disse que deveria trazê-las a você, e assim eu faço para que, nelas, creia no sinal por você pedido e cumpra com seu desejo e fique clara a verdade de minhas palavras e minha mensagem. Aqui estão elas. Recebe-as”.

Desenrolou o manto, onde estavam as flores, e quando elas se espalharam no chão, de repente apareceu desenhada na roupa a preciosa Imagem da Sempre Virgem Santa Maria, Mãe de Deus, da mesma maneira como hoje ela é guardada no templo do Tepeyac, chamado Guadalupe.

Quando o Bispo viu a Imagem, ele e todos que estavam presentes caíram de joelhos e ficaram impressionados. Eles levantaram-se para vê-la e tremendo, com grande arrependimento, contemplaram-na em seus corações e pensamentos. O Bispo, em profundo arrependimento, chorava, rezando e pedindo perdão por não ter atendido ao seu desejo. Ao se por de pé, desamarrou do pescoço de Juan Diego o manto em que aparecia a Imagem da Senhora do Céu. Levou-o para ser colocado em sua capela. Juan Diego permaneceu por mais um dia na casa do Bispo, a seu pedido.

No dia seguinte disse-lhe: “Bem! Mostre-nos onde a Senhora do Céu deseja ser erguido o seu templo”. Imediatamente, convidou a todos para irem lá.

O senhor Bispo transferiu a sagrada Imagem da amada Senhora do Céu para a Igreja principal, retirando-a da capela em seu palácio para que todos pudessem ver e admirar sua bendita Imagem. Toda a cidade se comoveu: vinham ver e admirar sua devota Imagem e fazer suas orações. Muitos se maravilharam por ter acontecido tal milagre divino, porque nenhuma pessoa deste mundo pintou sua preciosa imagem.


Pe. José Artulino Besen

 

  1. #1 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 11 de fevereiro de 2016 - 04:10

    Padre José, mais uma vez, obrigado por nos oferecer essa bela história da Padroeira da América Latina. Estivemos no México e pudemos sentir a grande devoção à Nossa Senhora de Guadalupe.

  2. #2 por Anônimo em 11 de fevereiro de 2016 - 09:46

    Que a Virgem de Guadalupe abençoe o nosso Santo Papa Francisco.

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