FRANCISCO VISITA A SINAGOGA DE ROMA

Sinagoga de Roma - Francisco fala aos irmãos e irmãs judeus

Sinagoga de Roma – Francisco fala aos irmãos e irmãs judeus

Na tarde de 17 de janeiro de 2016, domingo, Francisco visitou o Templo Maior, a Sinagoga de Roma. Mais de 300 jornalistas credenciados, fortíssimo esquema de segurança. Chegou sem comitiva, no já tradicional Ford Focus e não teve pressa em cumprimentar as pessoas ao longo do caminho. Estava visivelmente emocionado. Como bispo de Roma, incluiu-se na lista de todos os papas que, de modo diverso, encararam a existência do povo judeu, o povo da Aliança. Seu passado foi de acolhida e amizade como arcebispo de Buenos Aires, participando das principais celebrações judias.

Pela terceira vez um Papa visitou o Templo Maior, a Sinagoga de Roma.

O primeiro foi São João Paulo II, em 13 de abril de 1986, com a histórica visita à Sinagoga. À época, afirmou-se que foi essa a mais longa viagem do Papa: a pouco mais de mil metros de distância do Vaticano e que esperou dois mil anos para acontecer. Tão perto, e tão estranhos: em 325, o Concílio de Nicéia decretou que “não queremos nada em comum com esse povo”, e alterou a data da Páscoa para não ter coincidência com a Páscoa judaica. Então, tinha início o sentido de incompatibilidade com o povo cujo sangue é o mesmo de Jesus, de Maria, dos Apóstolos. O estranhamento tornou-se ódio e levou ao antissemitismo, primeiro teológico e depois histórico. Há 800 anos, o IV Concílio de Latrão decretava que os judeus romanos deveriam viver no Gueto, um bairro sem contato com os cristãos. Mais 400 anos, e o povo judeu romano somente podia sair do gueto à noite e as chaves ficavam aos cuidados de um cristão, pago pelos judeus.

A consequência trágica de tudo isso foi o Holocausto nazista, a morte de seis milhões de judeus nos campos de concentração alemães por obra da política racista de Hitler de 1937 a 1945.   Uma tragédia que envergonha a humanidade e que João Paulo II denominou de “pecado metafísico” pois Hitler, banindo os judeus da face da terra, estaria vencendo e negando Deus que lhes prometera fidelidade.

A visita tão desejada por Wojtyla preparou o caminho para o reconhecimento do Estado de Israel. Em 17 de janeiro de 2010, Bento XVI renovou a visita à Sinagoga como sinal de empatia da Igreja com o Israel de Deus.

João XXIII inicia a aproximação entre judeus e cristãos

E em 17 de janeiro de 2017, Francisco foi visitar a Sinagoga. O Rabino chefe afirmou que na tradição rabínica um gesto repetido três vezes torna-se costume, lei.

Do ponto de vista histórico pode-se dizer que a primeira visita foi feita por São João XXIII num sábado da primavera de 1962, como recorda o então Rabino Elia Toaff: o Papa estava passando na rua defronte à Sinagoga e percebeu que judeus dela saíam após as orações de sábado. Pediu que a comitiva parasse e benzeu os judeus que se aproximaram. Foi a primeira bênção de um papa aos judeus, que ficaram primeiro assustados e depois emocionados, aplaudindo-o alegremente. Os judeus recordam sempre o empenho de João XXIII durante a Guerra, quando era núncio na Turquia, para salvar judeus da deportação: falsificava certidões de Batismo e outros documentos, para que recebessem um salvo-conduto e entrassem na Turquia.

Como Papa, suprimiu da Liturgia da Sexta-feira santa a expressão “Oremos pelos pérfidos judeus”, que tanto prejudicou esse povo acusado de deicídio. Ao mesmo tempo, encarregou o Cardeal Bea de redigir o documento sobre o diálogo entre cristãos e não cristãos e que foi aprovado em 1965 no Concílio do Vaticano II, mudando para sempre a relação entre judeus e cristãos. Após 50 anos, o documento Nostra Aetate revela os frutos positivos desse diálogo e o enriquecimento que trouxe aos cristãos em conhecerem com profundidade e respeito a unidade inseparável entre a Antiga e a Nova Aliança. Antes, o Papa Pio XI, durante a intensificação da perseguição aos judeus na Alemanha, tinha afirmado que o antissemitismo não fazia sentido porque, “espiritualmente, somos todos semitas”. Na Eucaristia comungamos a Carne e o Sangue de um judeu, Jesus Cristo.

Sinagoga - Francisco escuta o Rabino chefe Di Segni

Sinagoga – Francisco escuta o Rabino chefe Di Segni

A visita de Francisco à Sinagoga de Roma

Ao tomar assento na Sinagoga, Francisco foi saudado pela Presidente da Comunidade judaica de Roma, Ruth Dureghello, que recordou dois momentos da amizade do Papa: o primeiro, em 11 de outubro de 2013, quando a delegação judaica o visitou no Vaticano e ouviu de Francisco que “um cristão não pode ser antissemita. O antissemitismo deve ser banido do coração e da vida de todo homem e mulher”; o segundo, há poucas semanas, recebendo o Congresso Mundial Judaico: “atacar os judeus é antissemitismo, mas também um ataque deliberado a Israel é antissemitismo”.

Iniciando a Celebração, falou o Presidente da União das Comunidades hebraicas italianas, Renzo Gattegna. Expressando sua alegria pela visita papal, lembrou o aprofundamento das relações entre judeus e cristãos e citou a Evangelii Gaudium: “Em novembro de 2013 foi publicada sua primeira exortação apostólica denominada Evangelii Gaudium, na qual se encontram afirmações que tantas gerações de judeus esperaram ouvir pronunciar e cuja importância nem todos perceberam: ‘A conversão que a Igreja pede aos idólatras não é aplicável aos judeus’. …  ‘Um olhar especial se dirige ao Povo judeu, cuja Aliança com Deus jamais foi cancelada, porque os dons e a chamada de Deus são irrevogáveis’. E a mais recente, em dezembro de 2015, através da Pontifícia Comissão para o Diálogo religioso com o Judaísmo: ‘O fato de que os judeus fazem parte da salvação de Deus é teologicamente fora de discussão”. Não se admite querer convertê-los ao Cristianismo.

O Cantor entoou o Salmo 15: “Ó Senhor, sois minha herança e minha taça, meu destino está seguro em vossas mãos!”.

Seguiu a palavra do Rabino chefe de Roma, Ricardo di Segni. Lembrou que a visita de Francisco acontecia no início de um ano especial para os cristãos, o Jubileu da Misericórdia, instituído pela Bíblia: “Nesses dias em que os cristãos celebram com antigas referências e novos significados um ano especial centrado no tema da misericórdia, não nos passou despercebido o momento inicial quando na abertura da Porta foi recitada a fórmula litúrgica “abri as portas da justiça”. Para um judeu que a escuta é algo conhecido e familiar, é a citação do verso dos Salmos (118,119) que nós citamos em nossa liturgia festiva. É um sinal de como as estradas divididas e muito diferentes dos dois mundos religiosos ainda condividem uma parte de patrimônio comum que ambas consideram sagrado”.

E recorda que “não acolhemos o Papa para discutir teologia. Cada sistema é autônomo, a fé não é objeto de troca e de tratativa política. Acolhemos o Papa para afirmar que as diferenças religiosas, que devem ser mantidas e respeitadas, não podem servir de justificação ao ódio e à violência, mas devem servir para fortalecer a amizade e a colaboração”.

Francisco foi convidado a falar e suas palavras foram interrompidas por 18 aplausos, sinal do afeto conquistado. Recordou que judeus e cristãos são irmãos e irmãs, afirmou a unidade indissolúvel entre as Escrituras do Antigo Testamento e do Novo, precisando que o Antigo é interpretado pela palavra e a vida de Jesus Cristo. Lembrou a Shoah, a morte dos seis milhões de judeus no nazismo, prestando homenagem a alguns sobreviventes que se faziam presentes; recordou também a deportação de judeus romanos em 16 de outubro de 1943, que foram mortos em Auschwitz. Estava visivelmente emocionado diante de judeus sefarditas, asquenazes e iídiches presentes, guardando no coração e sofrendo tantos séculos de ódio e desprezo pelo Povo da Aliança. Um novo tempo deve ser alimentado, sempre alerta, pois a violência sempre pode surgir.

Sinagoga - Francisco recebe um cálice como presente

Sinagoga – Francisco recebe um cálice como presente

Ao final, houve a troca de presentes: o Papa recebeu uma tela com a pintura da Menorah, cujas raízes penetram a terra, e um cálice, sinal de comunhão. De sua parte, ofereceu um exemplar do Códice Vaticano ebr. 700, um exemplar que restou de 5 folhas, originário do Iêmen, datável do IV século.

Ao final do momento histórico e religioso, Francisco se despede com o Shalom Alechen, a paz esteja convosco.  A reconciliação sempre é possível e necessária e o caminho da justiça e da paz estão diante de cada um.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Carlos Martendal em 18 de janeiro de 2016 - 12:53

    Muito obrigado, Pe. José!

    Fraterno abraço,

    Carlos Martendal

  2. #2 por Ivone Maria Koerich Coelho em 18 de janeiro de 2016 - 14:04

    Pe. José, Sempre gosto de ver o seu especial carinho e admiração para com nosso Papa Francisco. Foi um tempo muito bom ter o senhor como nosso Pároco, agradeço por todo carinho e atenção para toda a nossa comunidade.Que a Nossa Senhora Aparecida continue transbordando suas bençãos sobre o Senhor e sobre todos nós.Saudoso abraço.

  3. #3 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 18 de janeiro de 2016 - 15:29

    Pe. José, obrigado por mais essa importante contribuição para nossa Igreja da reconciliação.

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