O PADRE CÍCERO ROMÃO BATISTA DO JUAZEIRO

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Padim Ciço, um sertanejo

A situação de miséria do sertão nordestino levou ao surgimento de duas manifestações: uma, religiosa, em que o “fanático” esperava o auxílio divino, como o drama de Antônio Conselheiro em Canudos, na Bahia, ou João Maria, no Contestado catarinense. Antes deles, devemos citar o Padre Ibiapina, que percorreu o Nordeste congregando as comunidades na fé e no trabalho social. Antônio Conselheiro e João Maria foram mortos e sua obra destruída pela guerra e Padre Ibiapina teve a obra desprezada pela Igreja que não podia admitir que os pobres, as mulheres sertanejas fossem capazes de evangelizar.

Outra manifestação incluía a violência, resolvendo os problemas pelas armas: o cangaço, sendo mais conhecidos os bandos de Lampião (Virgulino Ferreira da Silva) que, entre 1922 e 1938, espalhou o medo por sete Estados nordestinos.

O fenômeno religioso de Juazeiro do Norte, CE é situado no âmbito do catolicismo popular: Pe. Cícero entra em conflito com a hierarquia ao se apoiar na força social dos beatos e beatas. São conhecidas, entre as beatas, Ângela Merícia do Nascimento, Antônia Maria da Conceição, Anna Leopoldina Aguiar de Melo, Jahel Wanderley Cabral, Maria das Dores da Conceição de Jesus, Maria Joanna de Jesus, Maria Leopoldina Ferreira da Soledade e Rachel Sisnando de Lima. Padre Cícero e as beatas se enquadram mais no espírito evangelizador e social de Padre Ibiapina (+19-02-1883).

Nascimento, vocação e missão

Nascido no Crato e ordenado padre em 1870, o jovem padre Cícero Romão Batista (* 24-03-1844) chegou ao Juazeiro do Ceará em 1872. Um pequeno povoado, pobre e abandonado. Ali chegando, teve uma visão que assim descreveu aos amigos: ele viu Jesus Cristo e os doze apóstolos sentados à mesa, como na Última Ceia. De repente, adentra ao local uma multidão de pessoas carregando seus parcos pertences em pequenas trouxas, a exemplo dos retirantes nordestinos. Cristo, virando-se para os famintos, falou da sua decepção com a humanidade, mas disse estar disposto ainda a fazer um último sacrifício para salvar o mundo. Porém, se os homens não se arrependessem depressa, Ele acabaria com tudo de uma vez. Naquele momento, Ele apontou para os pobres e, voltando-se inesperadamente ordenou: – E você, Padre Cícero, tome conta deles!

E decidiu que sua missão era cuidar daqueles esfarrapados, pelos quais consagrou 62 anos de sua vida, dia e noite anunciando Evangelho, aconselhando, abençoando, alimentando.

Mas, um fato extraordinário ocorrido em 1889 mudou a história de seu ministério e daquele povo: uma mulher, a beata Maria da Conceição do Espírito Santo de Araújo, ao comungar viu a hóstia tingir-se de sangue. A notícia se espalhou.

Dom Joaquim José Vieira, bispo de Fortaleza, nomeou uma comissão especial para estudar o caso. O resultado atestou a veracidade dos fenômenos, mas o bispo negou-se a reconhecê-los. Constituiu nova comissão, que chamou a Fortaleza a Beata Maria de Araújo para ser interrogada e para repetir o milagre. Pobrezinha dessa mulher: quiseram apanhá-la em contradição e obrigá-la a repetir o milagre, como se isso fosse possível. Resultado dessa inquirição: em Juazeiro tudo é embuste e superstição, palavras sempre usadas quando os pobres têm uma experiência de Deus.

Surgiu um doloroso conflito eclesiástico, que levou à proibição de Padim Ciço (como era chamado) pregar, confessar e orientar os fiéis. Como as multidões sempre mais acorriam a Juazeiro, Dom Joaquim denunciou o fato a Roma. Em 1894, o Santo Ofício condenou os fatos como grave irreverência e ímpio abuso da Santíssima Eucaristia. Padim Ciço foi proibido de ministrar os sacramentos. Foi obediente e permaneceu com seu povo aconselhando, pacificando, obediente à Igreja e ao povo.

Um Padre no meio de seu povo

Sua fama se espalhava mais ainda, e agora por todo o Norte e Nordeste. Padre Cícero consola os sofredores, ensina técnicas de agricultura e, através de conselhos simples, muda a mentalidade dos sertanejos. Levou o cultivo da seringueira às serras do Cariri e fez desenvolver muito a cultura do algodão.

Era pacificador. Seu poder foi também político, sendo eleito prefeito e vice-governador, mas não exercendo o cargo. Respeitado como coronel religioso, reuniu os coronéis sertanejos numa liga de paz. Precisando, Pe. Cícero usava o poder das armas para que os acordos fossem respeitados. Nessas atitudes demonstrava ser um típico santo do sertão nordestino.

Suas bênçãos operavam milagres e devemos entender que, para o povo pobre, o milagre é uma realidade simples, mas vital: curar dor de dente, de barriga, de cabeça, sarar inflamação e feridas, encontrar um remédio, um chá, ajuntar osso fraturado, conseguir um pouco de feijão e farinha.

Buscando um caminho de pacificação, em 1914 o novo bispo Dom Manoel da Silva Gomes permitiu que Padre Cícero voltasse a celebrar por alguns meses mas, quando soube que as multidões iam a Juazeiro carregando medalhas e imagens de Padre Cícero, achou que tudo ultrapassava o “bom senso” e, em seguida, suspendeu-o do Uso de Ordens, de modo que até sua morte em 1934, não mais pode celebrar os Sacramentos. Foram 40 anos de obediência e de privação do ministério que ele viveu na obediência, na oração e na caridade.

O Patriarca de Juazeiro vivia de oração, da devoção filial a Nossa Senhora das Dores e ensinava o povo a rezar e a ser cristão. Sua pregação era expressa numa linguagem popular que o povo memorizava e até hoje transmite no lar. Alguns exemplos de Conselhos:

Todos podem ser santos, assim queiram, e obedeçam ao chamado de nosso bom Deus, que ainda mais que nós, nos quer fazer santos como ele no céu.

Oremos e celebremos a Mãe das Dores, por essa pobre humanidade que nem sabe o que faz e nem vê para onde marcha.

Deus nunca deixou trabalho sem recompensa, nem lágrimas sem consolação.

A prudência dos velhos, o respeito e o temor a Deus, é que devem governar a todos.

Estamos nas mãos de Nosso Senhor, ele se compadece de nós.

Dê o primeiro passo, e o resto o nosso bom Deus fará.

Trabalhe como se nunca fosse morrer, reze como se fosse morrer hoje.

A gratidão, com certeza, é uma virtude do céu.

 Os populares e consoladores Mandamentos de Padim Ciço:

Quem bebeu não beba mais,

Quem matou não mate mais,

Quem desonrou não desonre mais,

Quem mentiu não minta mais,

Quem levantou falso não levante mais,

Quem roubou não roube mais.

Quem preguiçou não preguice mais.

 E o Convite ao trabalho, narrado por uma afilhada, Maria da Conceição Lopes Campina:

Você, meu amiguinho, vá plantar mandioca na Serra do Araripe para dar de comer a sua família, que aqui adiante vem fome, que só come quem tiver legume guardado em casa”. E o homem era rico e achou ruim e respondeu: “Está doido, Padre Cícero, eu tenho dinheiro que dá muito bem para mim e minha família!”. E meu Padrinho disse: “E você come papel? Nesse tempo só come quem tem. Quem mais rico do que foi Pedro Álvares Cabral e morreu com uma nota de cem mil-réis na mão dizendo – ‘Quem me vende uma garrafa de farinha?’ – E não achou quem vendesse. Ele agarrou-se com uma raiz de pau e morreu de fome, roendo a raiz de pau. Assim me contaram”.

Tudo muito vital e simples e que transformou a mentalidade sertaneja. Se dizemos que com o Santo Cura d’Ars Ars não era mais Ars, com o mesmo direito podemos dizer que com o Padim Ciço Juazeiro não é mais Juazeiro.

O final e a reabilitação

Em 20 de julho de 1934, Deus chamou a si o Padim Ciço. O povo continuou a ir a Juazeiro, ano por ano, dia por dia, especialmente na festa de Nossa Senhora das Dores (15 de setembro) e Todos os Santos (1º de novembro).

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Padre Cícero, patriarca de Juazeiro

Por longos anos o povo esperou que a Igreja se reconciliasse com Pe. Cícero Romão Batista. Dom Fernando Panico, atual bispo do Crato, assumiu essa obra de reabilitação em 2006 e, para a alegria de todos, no dia 13 de dezembro de 2015, anunciou a reconciliação: Roma suspendeu todas as punições. Papa Francisco, iluminado pela graça e conhecedor da fé dos pobres, reconheceu que “é inegável que o padre Cícero Romão Batista, no arco de sua existência, viveu uma fé simples, em sintonia com o seu povo e, por isso mesmo, desde o início, foi compreendido e amado por este mesmo povo”. Assim se expressou Francisco em carta assinada pelo Secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin. O texto recorda a incansável missão do padre Cícero no território nordestino e o serviço em prol dos pobres. A Igreja universal reconhece a fé simples e a devoção de padre Cícero a Nossa Senhora. O papa ainda caracterizou como atual o modo de evangelização, vivido pelo sacerdote no final do século XIX e início do XX: atitude de saída ao encontro das periferias existenciais; a atitude do padre Cícero em acolher a todos, especialmente os pobres e sofredores, aconselhando-os e abençoando-os, constitui sem dúvida, um sinal importante e atual”.

A decisão da Santa Sé reconhece a legitimidade das romarias e da devoção ao padre Cícero, possibilitando maior aproximação dos romeiros com a Igreja Católica, e da Igreja católica com os romeiros. Mais de 100 anos para perceber o quanto de fé heroica e pura se encontra no coração e nas comunidades dos pobres. Mais de um centenário para sentir como seu e verdadeiro o catolicismo popular. Abre-se o caminho para aquilo que o povo já fez há muito tempo: chamá-lo de Santo.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Marcos santos em 21 de dezembro de 2015 - 09:10

    Obrigado! belíssimo texto.

  2. #2 por Antônio L. Medeiros F. em 21 de dezembro de 2015 - 09:26

    Da vida do Pe. Cícero, eu conhecia, apenas, fragmentos de notícias. O Pe. José tem uma facilidade em sintetizar uma biografia, destacando os dados mais relevantes. Sincero, não defende atitudes equivocadas da Igreja, mas apresenta os fatos com justiça cristã. Obrigado, Pe. José Artulino Besen.

  3. #3 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 21 de dezembro de 2015 - 16:46

    Ao residir no Brasil Central, vivenciamos a grande devoção do Nordestino ao Padre Cícero. Com este artigo, o Padre José nos enriquece com a bibiografia desse Santo de Crato . Obrigado!

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