MARIA, MÃE DA MISERICÓRDIA

Bendita sejais, ó Virgem Maria, trouxestes no ventre Quem criou o universo; Vós destes a vida a Quem vos criou e virgem sereis para sempre, ó Maria! (Responsório do Comum de Nossa Senhora). Maria gerou quem a criou, deu a vida a quem lhe deu a vida, foi mãe e sempre virgem. São expressões verdadeiras de nossa fé, cuja profundidade nunca atingimos, porque têm a ver com o divino, com o mistério da fé. Crer, nos engrandece, descrer, nos reduz à insignificância. No tempo natalino e pascal a verdade da redenção é ainda mais misteriosa: o grande Deus é Deus Menino, o Deus altíssimo é o Senhor derrotado e crucificado, com sua morte o Senhor matou a morte. Ter fé significa a força de aceitar o que ainda pouco compreendemos sem nos julgarmos fracos, é a coragem de reconhecer a verdade no que antevemos na contemplação e na adoração, atitudes inseparáveis do mistério da fé.

O verdadeiro culto a Maria é contemplar e seguir seus passos nos passos da vida de seu Filho, de modo que o modelo “mariano” da vida eclesial está na participação real de Maria nos mistérios da vida de Cristo (cfr. Marialis Cultus, de Paulo VI, n.17-20). Por obra do Espírito Santo gerou o Filho que a gerou, acompanhou como Mãe quem a acompanhou. A mulher humilde de Nazaré viveu a bem-aventurança de crer, não duvidou da condição divina daquele a quem deu à luz numa manjedoura em Belém, ficou de pé ao pé da cruz e, contemplando o túmulo, chorou sem duvidar das antigas promessas do Anjo da Anunciação. Na glória trinitária contempla aquele a quem amamentou.

A dimensão mariana dos sacramentos

A ação divina na Igreja se manifesta nos sacramentos, sinais visíveis da graça da redenção. É importante lembrar que são fruto de uma ordem do Senhor, “fazei isso em memória de mim” e não são representações piedosas, mas sim, sinais eficazes, realizam o que simbolizam. Cristo se faz presente nos sacramentos como Cristo encarnado, gerado no seio de Maria, carne e sangue de Maria. A Igreja é convidada a realizá-los em atitude mariana, vivê-los e deles participar com os mesmos sentimentos de Maria na Encarnação, no Natal, na Epifania, na vida pública, na Paixão e Ressurreição, no Pentecostes. A liturgia da Igreja torna presentes, de modo real e eficaz, os mistérios da vida de Jesus e não pode dissociá-los daquela que os viveu com Ele e é sua Mãe. A maternidade divina de Maria é maternidade sacramental e eclesial: Mãe da Igreja.

Maria está em cada sacramento através do Corpo ressuscitado do Senhor: está presente em cada fonte batismal, onde nascem os novos membros do Corpo místico, porque concebeu seu Senhor divino, Cristo. Está presente em cada Eucaristia, pois o Filho que se faz carne e sangue para a vida do mundo é carne e sangue de seu seio virginal. Está presente em cada cenáculo, em cada imposição das mãos, porque esteve junto com os discípulos na Igreja nascente, recebendo a efusão do Espírito, está presente no óleo que unge o enfermo, que unge o cristão, nas mãos impostas, na humanidade do casal que se doa na força vital do amor. Está presente nos sacramentos da vida cristã como esteve presente ativamente na vida de Jesus (cfr. João Paulo II, “Angelus” de 12/02/1984).

O que a Igreja hoje celebra na liturgia Maria viveu ao lado de Jesus pelos caminhos da Galileia, Judéia e Samaria. A liturgia celebra a pessoa e a vida de Cristo no mistério trinitário, não podendo estar separada de Maria, esposa do Espírito, mãe do Filho, filha do Pai, serva da Trindade e irmã de todos. Por isso, toda a devoção cristã é mariana, ser mariano é ser cristão, afirmou São João Paulo II. Desta convicção nasce uma devoção a Maria com características bíblicas e sacramentais, uma devoção adulta, de compromisso, uma devoção vivida nas virtudes teologais da fé, esperança e caridade, longe, portanto, das devoções adocicadas nascidas em sentimentalismo barato ou em supostas revelações privadas. Maria é grande tesouro da espiritualidade cristã e católica: se o abrirmos, contemplaremos, maravilhados, toda a sua riqueza, o Cristo.

Salve Rainha, Mãe da Misericórdia

Na festa da Imaculada Conceição deste ano de 2015 inauguramos o Jubileu da Misericórdia e agradeceremos ao Senhor os 50 anos do Concílio do Vaticano II. Francisco pede a cada cristão que com ele confie este Ano Santo à “Mãe da Misericórdia, para que dirija para nós o seu olhar e vele sobre o nosso caminho: o nosso caminho penitencial, o nosso caminho com o coração aberto, durante um ano, para receber a indulgência de Deus, para receber a misericórdia de Deus” (Francisco, 13/3/2015). E mais, “a Mãe da Misericórdia Divina abra os nossos olhos, para compreendermos o compromisso a que somos chamados, e nos obtenha a graça de vivermos, com um testemunho fiel e fecundo, este Jubileu da Misericórdia” (Francisco, 11/4/2015).

Como o Papa, acostumemo-nos a saudar a Rainha, Mãe da Misericórdia, o Redentor. E tenhamos os mesmos sentimentos filiais que durantes tantos séculos levam a Igreja a nela contemplar a “vida, doçura, esperança nossa, a clemente, a piedosa, a doce sempre Virgem Maria.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 7 de dezembro de 2015 - 07:08

    Obrigado, Padre Besen. Estou compartilhando com meus amigos.

%d blogueiros gostam disto: