MÚSICA – DIVINA MÚSICA

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Em 1965 foi estreado o filme “A Noviça Rebelde”, no original “The sound of Music”, iniciando um caminho de sucesso nunca interrompido. Lembro, com gratidão, na infância ter cantado o canto de abertura, título do filme, numa versão do Pe. Ney Brasil Pereira, que o traduziu como “Montanhas encerram a divina Música” e que, lá pelo fim, fala da cotovia que passa a noite aprendendo a rezar.

Hoje, passados 50 anos, com muita frequência recordo o mistério das montanhas que encerram divina música, há milhares de anos jorrando melodias reproduzidas e recriadas por toda a criação. As montanhas embelezam o horizonte, quebram a monotonia da planície, convidam para serem escaladas, sempre com o verbo subir, subir as montanhas. Nosso Deus tem preferência pelas montanhas, sua residência preferida porque, quando subimos as montanhas, ele desce das montanhas e colinas para vir ao nosso encontro. Nelas encontrou-se com Abraão, Moisés, Elias, os profetas, nela Jesus proclamou as Bem-aventuranças, nela transfigurou-se. Os Salmos convidam a subir a Jerusalém, a ver o Monte Sião e, como esquecer o Sinai, o Tabor, o Hermon, o Carmelo?

As montanhas foram o lugar predileto para residência dos eremitas, para a edificação dos mosteiros. Não é por acaso: nas montanhas está escondida a divina música, com enorme fascínio aos que procuram o encontro com o Divino, o Belo e o Bom.

O papa emérito Bento XVI, interrompendo seu silêncio monástico para receber um Doutorado (4/7/2015), citou três lugares donde nasce a música: primeiro, da experiência do amor, que abre nos homens outra dimensão do ser, uma nova grandeza e amplitude da realidade; segundo, da experiência da dor, da tristeza e da morte, que suscitam perguntas que não podem ser respondidas somente com discursos; terceiro, a música nasce do encontro com o divino, que desde o início participa do que define o humano. E conclui: “é o ser tocado por Deus que constitui a origem da música”. E mais: pode-se dizer que a qualidade da música depende da pureza e da grandeza desse encontro.

A música e a fé cristã

Bento XVI emite um conceito que pode causar estranheza em mentes politicamente corretas: em nenhum outro âmbito cultural existe uma música de tanta grandeza como a nascida no âmbito da fé cristã. Claro, em todas as culturas e religiões existem grandes literaturas, grande pintura e arquitetura mas, a grande música nasce na fé cristã, a música ocidental é única porque brota do mistério cristão que nos leva a ver o Criador na beleza das criaturas, que inclui o amor divino no amor humano, que oferece resposta para a dor e a morte, oferece a redenção.

Antes de invadir praças e salas de concerto, a música ocidental foi gerada nas igrejas, no culto, na liturgia. Cada melodia gregoriana, na sua pureza perfeita sem ritmo, sem acompanhamento, necessariamente leva à transcendência, à transfiguração da rotina daria para nos inserir no silêncio do infinito. Na origem da música ocidental nos deparamos com Missas, Motetes, Antífonas, Salmos, Hinos processionais gregorianos que depois geraram a música “profana” que, na realidade, sempre desperta sentimento religioso. É revelador o fato de que, ao esvaziamento espiritual de nossa época, correspondeu a quase incapacidade de ouvir/cantar o canto gregoriano, e que gravações dele por obra dos monges foram massivamente escutados como autoajuda, terapia, pois conseguem reconstituir o interior humano. Com o homem e a vida fragmentados, com as desordens humanas e sociais, verdadeira música sacra moderna expressa também essa realidade, rompendo as harmonias e ritmos, trocados até por gritos e ruídos.

Johann Sebastian Bach

Johann Sebastian Bach

Johann Sebastian Bach

Quem busca a beleza da música vai se encontrar com Palestrina, Victoria, vai de Händel a Mozart, Beethoven, Bruckner, mas ….

Johann Sebastião Bach (1685-1750) é a expressão máxima da música, é o compositor que compunha copiando a beleza divina. Para Bach, a música era religião, compô-la sua profissão de fé, tocá-la, uma função religiosa. Sua obra é inseparável da fé, afirmou L. Bernstein. Alguns críticos musicais afirmam que Bach não tem ouvintes, pois compõe diretamente para Deus.

A música começa e termina em Bach. Na história da humanidade, foi o maior compositor, o grande cantor, cravista, maestro, organista, professor de música, violinista, violista e construtor de órgãos.

Órfão aos 9 anos, viúvo aos 35 e com 7 filhos, mais 13 do segundo casamento, lutou muito para criá-los e educá-los, tendo de chorar a morte de quase metade deles ainda na infância. E vem a pergunta: como foi possível ser maestro e professor, organista de igreja e cravista de salão e compor uma obra tão vasta e tão perfeita? Tão perfeita que sempre é moderna, pois ainda falta muitíssimo para usufruir de sua beleza, tão simples e tão complexa. O catálogo de sua produção ultrapassa mil obras, sem contar o alto número que foi perdido.

Para o filósofo e literato romeno Emil Cioran (+1995), Bach é a prova de existência de Deus. Não tendo encontrado Deus, Cioran sugeriu a prova da Beleza aos teólogos que procuram provas da existência de Deus. Para ele, a obra do músico alemão Johann Sebastian Bach é a prova possível de que Deus existe. Escreve na obra “De lágrimas e santos” (1988): “Quando ouvimos Bach, vemos Deus nascer… Depois de um Oratório, de uma Cantata, de uma Paixão, Deus tem que existir. E pensar que tantos teólogos e filósofos desperdiçaram noites e dias procurando provas da existência de Deus, esquecendo-se da única!”. Em outra ocasião: “Sem Bach, Deus seria apenas um mero coadjuvante” e que “a música de Bach é o único argumento que prova que a criação do universo não pode ser vista como um grande erro”.

Até pelo sobrenome, Bach (riacho, regato, ribeirão) bebeu das montanhas a música, a divina música. No dia 22 de novembro, festa de Santa Cecília, padroeira da música e dos músicos, agradecemos a todos os que nos fazem também beber das fontes da beleza.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Dom João Francisco Salm em 23 de novembro de 2015 - 13:00

    Obrigado por recordar!

    Também eu cantei no Coral quando cheguei em Azambuja (1967).

    Tempos que não voltam.

    Meu abraço,

    +jfs.

    • #2 por José Artulino Besen em 23 de novembro de 2015 - 15:36

      Dom João, fiquei muito contente por ter visto meu texto. Lembro que na história da música no Seminário de Azambuja até constituímos uma série de regentes: Pe. Ney Brasil até 1970, eu (até 1972) e o senhor (em seguida). Aprendemos a valorizar o canto coral e, como seminaristas, o divino canto gregoriano. Boa entrada no Advento para o senhor e sua diocese de Tubarão. Gostaria muito de convidá-lo para o lançamento de um livro meu sobre padres, no ITESC, em 10 de dezembro, às 19:30.

  2. #3 por Ivone Maria Koerich Coelho em 23 de novembro de 2015 - 20:59

    Padre José, eu diria divina inspiração, em compartilhar uma belíssima e divina mensagem.
    E também saber que o grande Musico Bach Compunha diretamente pra Deus. Isso é lindo.

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