CRIAÇÃO, ECOLOGIA E EUCARISTIA

Criação ofertada na Eucaristia

Criação ofertada na Eucaristia

“Creio em um só Deus, Pai todo poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”: com este ato de fé na origem divina de tudo glorifiquemos nosso Deus, proclamando: Creio!

Decidiu o Senhor Deus que suas criaturas participassem de seu ser, sabedoria e bondade e assim usufruíssem da felicidade plena. Deste modo, toda a obra criadora incluiu a finalidade maior de edificar a casa de Adão e de seus descendentes: com eles estaria sempre em diálogo e lhes apresentaria a doação feita, a cada criatura, para a harmonia universal.

Toda a criação, todo o universo são frutos do excesso/desperdício do amor divino: bastaria uma fonte, uma flor, uma ave, e Deus escolheu o caminho do excesso de criatividade e beleza, pois queria alegrar o ser humano e enriquecê-lo com o dom da admiração, do encantamento dia por dia, toda a vida. E a criatividade divina nos inspira em nossa criatividade. Santo Irineu de Lyon afirma isso: Deus criou todas as maravilhas do universo e somente depois o homem, a quem presenteou com seus dons maravilhosos. Também escreveu que a criação do ser humano foi obra das duas mãos do Pai, a Palavra e o Espírito, é obra da Trindade Santa.

A visão cristã da criação glorifica-a em sua dignidade, em seu fundamento e em seu destino: tudo foi feito pelo Pai por meio de seu Filho e para seu Filho (cf. Cl 1,16) que é o herdeiro de todas as coisas e, por meio dele, todas serão regeneradas para que Deus seja tudo em todos (1Cor 15,28).

Quando tudo estava pronto, Deus enriqueceu sua obra com o homem e a mulher, e criou-os à sua imagem e semelhança para que sua beleza ultrapassasse a de todas as criaturas. Tudo é obra divina, mas o ser humano é mais do que obra, inclui também a imagem divina. Somente ele pode contemplar plenamente toda a criação e, através dela, cantar seu autor, somente ele pode dizer “sou raça divina”.

Dotado de imagem e semelhança divinas, através de sua presença e trabalho o homem e a mulher fazem o divino penetrar na obra de Deus.

Deus foi infinitamente além: no primeiro ato, incluiu na humanidade sua imagem e semelhança divinas e, no segundo ato de seu plano eterno, fez seu Filho assumir a natureza humana de modo a podermos cantar, extasiados, que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

Pão e Vinho - Julian Merrow-Smith

Pão e Vinho – Julian Merrow-Smith

Ecologia e Eucaristia

Tudo Deus nos deu: o mundo e seu Filho. Mas, ao recebermos um dom não o destruímos, dele não nos servimos como de coisa qualquer: nós o protegemos, guardamos e dele nos servimos com reverência a quem nos ofereceu e, mais ainda, a quem o criou. Isso, infelizmente, não aconteceu: durante séculos os animais e vegetais, o meio ambiente foram considerados como mero contexto para a vida do homem, nada mais do que instrumentos a seu livre serviço. Agora colhemos os frutos deteriorados de nossa ação predadora, e seu maior monumento são os lixões que “enfeitam” cidades, vilas e campos.

Seguindo o caminho que Francisco nos traçou com a Laudato si, o Criador nos oferece a oportunidade de um grande ato penitencial, porque a tradição cristã não pode separar justiça e paz, misturar condivisão e expropriação da terra, unir cuidado pela natureza e pela qualidade da vida humana com desperdício. Justiça, paz geram a harmonia pela rejeição da desordem e da prepotência do poder. O desperdício é fruto do pecado, pois leva o outro a sofrer privações e hipoteca o futuro.

Devemos ao teólogo ortodoxo Ioannes  Zizioulas, metropolita de Pérgamo, o caminho tanto desse ato penitencial como da rejeição ao pecado da ingratidão diante da oferta divina: ele propõe a Eucaristia como verdadeiro caminho para a ecologia. Os dons apresentados ao Pai para a consagração eucarística são dons criaturais e, mais ainda, não se restringem àquele pão e àquele vinho, mas levam consigo toda a criação e todo o trabalho humano. Pão e vinho são a totalidade da criação.

Deus aceita a oferenda, sobre ela envia o Espírito Santo e tudo se transfigura, torna-se Corpo e Sangue de Cristo. A cada Eucaristia a criação é santificada para que possa ser oferta agradável a Deus, oferta de ação de graças, pois não podemos oferecer a Deus o fruto de nosso consumismo, desperdício, uma criação devastada, desertificada, fruto da morte que nos habita e gera morte. O pão se torna o Senhor e o Senhor se faz Pão para a vida do mundo. Uma Eucaristia vivida no Deus Criador nos leva ao uso respeitoso e moderado da criação, faz-nos sacerdotes e guardiões da obra divina.

A criação é um dom de comunhão divina: um dom eucarístico. No pão e no vinho depositados no altar também incluímos os pecadores, os leprosos, os doentes, os famintos, os solitários, os estrangeiros, nosso evangelho vivência do Evangelho. Tudo oferecemos para que tudo seja transfigurado pelo Espírito. E não oferecemos solitariamente: toda Igreja oferece conosco, a do céu e a da terra. Cada um de nós representa misticamente a totalidade da obra divina, pois Deus está em tudo e, pela comunhão, estamos em Deus.

O pecado original criou a ruptura do homem com o Pai e também a ruptura com a humanidade e a natureza. Mandando-nos celebrar a Eucaristia, o Senhor da redenção nos liberta da ruptura com Deus e transfigura e regenera a própria matéria pois “a criação espera com impaciência a revelação dos filhos de Deus” (cf. Rm 8, 19-20).

Pe. José Artulino Besen

%d blogueiros gostam disto: