PAPA FRANCISCO, HUMILDE PEREGRINO DA PAZ

Cuba - 20-9-2015 - Jovens cubanos a espera de Francisco

Cuba – 20-9-2015 – Jovens cubanos a espera de Francisco

É rica em simbolismo a peregrinação apostólica de Francisco a Cuba e aos Estados Unidos, a relativamente pequena ilha do Caribe e o gigante norte-americano. Nos últimos 55 anos Cuba simboliza a luta de um povo e de um regime pela liberdade econômica ao custo das liberdades individuais, e os Estados Unidos simbolizam o poder em seu estado puro e incontrastado a partir do fim da guerra fria e da queda do Muro de Berlim, em 1989. Cuba, o símbolo da revolução socialista, a América, símbolo da liberdade e do liberalismo econômico.

No espaço de nove dias (19 a 28 de setembro) o papa Francisco movimentou-se dentro desse espaço simbólico e contrastante e tornou-se, ele também, um símbolo da liberdade em seu estado mais puro, a liberdade de falar amando a todos, de anunciar que um mundo livre é também um mundo com casa, terra e trabalho, que um mundo não é feliz se a riqueza governa e sujeita as relações nacionais e internacionais. O Papa não foi o temido sul americano anticapitalista, anti-progresso, brandindo o verbo contra o desmazelo que é ser controlado pela riqueza, verdadeira máquina de moer povos e terras, alimentando-os com o descarte para que se tornem descartáveis.

Cuba – a caminho de abertura ao mundo

Cuba - 19-9-2015 - Francisco com Fidel Castro e sua esposa

Cuba – 19-9-2015 – Francisco com Fidel Castro e sua esposa

Cuba o acolheu como povo da esperança, até cansado de esperar, talvez. Encontrou-se com multidões de cubanos, pobres de bens, mas ricos de dignidade, sem pão com fartura, mas pão para todos. Francisco visitou uma Igreja perseverante, missionária, “cuja grande riqueza é a pobreza de meios”. Passou pela grande provação de um regime que por décadas maltratou os cristãos tornando-os cidadãos de segunda categoria, mas não os derrotou. Havana, Santiago de Cuba e Hoguin deram testemunho de sua fé popular, das santerias, da alegria brotada da devoção à Nossa Senhora do Cobre, em cujo altar Francisco ajoelhou-se devotamente, invocando-a como mais um filho de Cuba. Após tantos anos desde 1959, o mesmo Comandante revolucionário, Fidel Castro, recebeu Francisco em sua casa. E, pela primeira vez, um humano Papa é recebido por um humano Fidel que, simbolizando sua dedicação total à Revolução, nunca se deixava acompanhar pela esposa e filhos. Pois nesse dia, Francisco é recebido pelo Comandante, a esposa e os filhos. As artificialidades já tinham sido vencidas no aeroporto, onde o Presidente Raul Castro recebeu o Papa, e ambos sentiram-se amigos. Raul não perdeu ocasião de seguir os passos de Francisco, tocado que foi por sua simplicidade, humildade e capacidade de falar sem querer ser mestre.

Cuba, no sentido político e religioso, a duras penas aprende que a paz é filha do encontro de pessoas, não de ideologias. A Igreja e o governo cubanos levaram mais de 20 anos para entender essa realidade e agora, o humilde Cardeal Alamino e os Castro são capazes de se darem as mãos. Graças à diplomacia do Vaticano e aos passos de encontro de Francisco nesses mesmos dias, Cuba e Estados Unidos se reencontram política e economicamente e, quase um milagre, nesses mesmos dias a Colômbia e as FARC selaram o primeiro acordo de paz após décadas de guerra e centenas de milhares de mortos, agora com data: 26 de março de 2016.

EUA - 21-9-2015 - Barack Obama e família recebem Francisco em Washington

EUA – 21-9-2015 – Barack Obama e família recebem Francisco em Washington

Nos Estados Unidos – terra da liberdade e potência mundial

Deixando a humilde e perseverante Cuba, Francisco ingressa nos Estados Unidos, no grande império. Contrariando as regras do protocolo que faz do Presidente um monarca republicano com os rituais da monarquia britânica, o casal Obama e Michelle esperavam Francisco ao descer do avião em Washington. Dava-se ali um encontro não de potentados,  mas de amigos. As salvas de tiros de canhão nem combinaram com a alegria e simplicidade de Obama e Francisco, um necessitando do outro na luta pela paz, pelo fim da pobreza, pela solução do drama dos migrantes deste mundo que expele pessoas.

Ali, na capital americana, Francisco foi recebido na Casa Branca, visitou a casa, acarinhou os dois cachorros de Michelle e depois, pela primeira vez na história do Papado, foi recebido e falou no Capitólio diante do Congresso de Senadores e Deputados. Falou como amigo, como sul americano, como filho de migrantes, numa linguagem clara e direta.

Mergulhou nos corações daqueles homens que tomam decisões de paz e de guerra, ao afirmar: “Sou muito grato pelo convite que me fizeram de falar a essa Assembléia Plenária do Congresso na ‘terra dos livres e casa dos valentes’”. E eliminou os temores de um discurso anticapitalista ao definir atividade empresarial como “uma nobre vocação dirigida a produzir riqueza e a melhorar o mundo para todos”, “que pode ser um meio muito fecundo para promover a região onde situa suas atividades”.

Após esse amolecimento, lembrou aos políticos a nobreza de sua atividade: “Se a política deve verdadeiramente estar ao serviço da pessoa humana, significa que não pode ser submetida ao serviço da economia e das finanças”. Exalta sua disponibilidade para desamarrar os nós de antigos conflitos, e repetiu que “um bom líder opta mais por iniciar processos do que possuir espaços”. Sem querer ferir, com delicadeza toca numa outra ferida aberta da sociedade americana quando repete que “as guerras são alimentadas pelo dinheiro manchado de sangue inocente produzido pelo tráfico de armas”, e pede a abolição da penas de morte.

Com relação ao dramático problema dos migrantes, Francisco fala: “Nos últimos séculos, milhões de pessoas vieram para esta terra em busca do sonho de construir um futuro em liberdade. Nós, as pessoas deste continente, não temos medo de estrangeiros, porque a maioria de nós um dia foi estrangeiro. Eu digo isso como filho de imigrantes, sabendo que tantos de vocês também são descendentes de imigrantes”. Houve sisudos deputados que choraram ao pedido de respeito à vida em todas as suas etapas, lembrando as crianças, nosso maior tesouro.

Partindo da história da Igreja americana, propôs uma teologia da história a partir de quatro nomes propostos como símbolos da nação: o patriarca da liberdade Abraham Lincoln, o combatente negro e batista dos direitos civis Martin Luther King, a promotora mundial do voluntariado cristão Dorothy Day, e o ativo e contemplativo monge cisterciense Thomas Merton.

Terminada a pompa e a circunstância, Francisco deixou o Capitólio e foi almoçar numa igreja, junto com sem-teto, muitos deles negros. Recordou-lhes que José não tinha nada para oferecer a Maria na hora do parto, mas nunca desanimou. Coragem! E com eles rezou o Pai Nosso.

Nações Unidas – casa, trabalho e terra

No dia 25, sexta-feira, proferiu seu discurso na sede da ONU, em New York. Se Washington é o símbolo de uma nação, a Organização das Nações Unidas é o retrato de todas as nações, com suas lutas, conflitos, acordos, corrupção, guerras fratricidas, nacionalismos, progresso e miséria. Ali, o tema de sua palavra foi quase o mesmo de Washington, mas ampliado para o mundo. Lá como aqui, a palavra foi inspirada na Laudato Si, defendendo a casa comum ofertada por Deus ao homem como um jardim e não como um lixeiro.

Aqui, como no Capitólio, insistiu: “Os governantes devem fazer todo o possível para que todos possam dispor da base mínima material e espiritual para tornar efetiva sua dignidade e para formar e manter uma família, que é a célula primária de qualquer desenvolvimento social. Este mínimo absoluto, no nível material, tem três nomes: casa, trabalho e terra; e um nome no nível espiritual: liberdade de espírito, que inclui a liberdade religiosa, o direito à educação e a outros direitos civis”. Essas palavras ressoaram nos jornais mais importantes do mundo. O que é esse “mínimo absoluto?” O Santo Padre usa essa expressão matemática para transmitir uma idéia muito clara: é o ponto abaixo do qual não se pode descer, existem condições da existência humana abaixo das quais não se pode descer, porque é o limite que, ultrapassado, degrada o homem a uma condição não-humana.

Francisco, um homem profundamente espiritual, move seu pontificado sobre dois programas: internamente, tornar a Igreja discípula missionária, em saída, não auto-referencial, que vai ao encontro do ser humano em todas as periferias da vida. Externamente, levar a humanidade a salvaguardar o meio ambiente, a não destruir o habitat humano, a salvar a vida do Planeta que Deus confiou ao homem. O primeiro programa é orientado pela Evangelii Gaudium, o segundo, pela Laudato si. Para um cristão, é evidente, os dois programas são inseparáveis.

Francisco sabe amar, por isso sabe falar e agir, unindo sempre palavra e gesto, tudo impregnado de profunda mansidão e humildade. Tudo isso calou fundo na sociedade cubana e americana.

No mesmo dia 25, o tablóide diário New York Post mudou a capa para New York Pope, coisa nunca acontecida. E, na manchete: Divino! Francisco arrasta New York.

EUA - 25-9-2015 - Desembarcando do avião em Filadélfia, Francisco dirigiu-se a saudar um grupo de jovens com deficiências

EUA – 25-9-2015 – Desembarcando do avião em Filadélfia, Francisco dirigiu-se a saudar um grupo de jovens com deficiências

Filadélfia – família e Igreja em diálogo

Encerrado o ciclo no centro do poder, Francisco dirigiu-a a Filadéfia, para o Encontro Mundial das Famílias.

Lembro aqui sujeitos que expressaram a alma pastoral de Francisco: os bispos, as religiosas e Obama. Aos bispos, Francisco pediu que não usassem uma linguagem guerreira como se fossem novos cruzados. Propor o valor da vida é mais frutuoso do que o combate ao aborto. Aqui podemos recordar dois fatos: na década de 80,  no auge da AIDs, de dia os bispos atacavam os homossexuais transmissores da síndrome e, à noite, os padres deviam ir aos hospitais consolar os doentes aidéticos; a mesma Igreja americana cujos bispos centraram fogo na ética sexual viu-se envolvida nos danosos e escandalosos casos de pedofilia no meio clerical; na campanha de Obama pela reeleição, bispos pediam que os católicos não votassem nele por ser abortista, e agora o mesmo Obama, reeleito, se une ao Papa na luta pela vida, pela paz, pela superação da pobreza.

E foi tocante a palavra do Papa às religiosas norte-americanas, durante os anos ratzingerianos submetidas a inquéritos e desconfianças: “Mulheres fortes, combativas, armadas deste espírito de coragem que vos coloca em primeira linha no anúncio do Evangelho”; “a vós, religiosas, irmãs e mães deste povo, eu quero vos dizer “obrigado”, um muito obrigado bem grande .., e vos dizer que eu vos aprecio muito”.

Na primeira homilia em Filadélfia afirmou aos bispos que “um dos grandes desafios para a Igreja nesse momento é fazer crescer em todos os fiéis o sentido da responsabilidade pessoal na missão da Igreja, e torná-los capazes de desempenhar tal responsabilidade como discípulos missionários, como fermento do Evangelho em nosso mundo”.

Francisco advertiu contra as “formas de tirania moderna que tratam de utilizar a religião como pretexto para o ódio e a brutalidade”, e também contra os que “procuram suprimir a liberdade religiosa, ou reduzi-la a uma subcultura sem direito à voz e a voto na praça pública”.

A Igreja viveu nesses dias um grande encontro: de um lado, o Papa do Novo Mundo, líder espiritual, também político e profeta, impulsionador de uma diplomacia global, e do outro, o primeiro presidente negro na Casa Branca, ambos filhos de imigrantes e que, crendo no  poder da palavra, procuram sarar as feridas abertas do planeta: as migrações, a desigualdade, a pobreza, a mudança climática; em terceiro lugar, Fidel e Raul Castro, combatentes revolucionários e que aprendem a força do diálogo na liberdade.

Francisco foi elevado pelo povo e pelos meios de comunicação às alturas da glória, do prestígio, do afeto popular. Mas, em nenhum momento se esqueceu de sua missão: estar no meio do povo, dos pobres, das crianças e jovens, dos doentes. Antes e depois de cada encontro solene retornava ao Jesus pobre de Nazaré mergulhando nas realidades da periferia da dor: abençoar uma criança, acarinhar órfãos, idosos, reunir-se com padres, visitar doentes e pobres, visitar um presídio, a um menino doente ofereceu passagem para que o acompanhasse no avião até Santiago de Cuba, encontrou-se com vítimas de abusos sexuais. Sua presença constituiu-se num Jubileu de misericórdia, vivendo pessoalmente as obras da misericórdia corporal e espiritual. E, para concluir, o Encontro Mundial das Famílias se insere no próximo Sínodo que se inaugura no Vaticano, no dia 4 de outubro.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Ivone Maria Koerich Coelho em 29 de setembro de 2015 - 11:41

    Padre José muito bonito seu testemunho de amor para com o nosso Papa Francisco, e muito bem transmitido a nós.

  2. #2 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 29 de setembro de 2015 - 18:04

    Obrigado, Pe. José A. Besen por mais essa excelente matéria. Pedimos sua bênção.

  3. #3 por Carlos Martendal em 30 de setembro de 2015 - 11:31

    Muito obrigado, Pe. José!

    Fraterno abraço,

    Carlos Martendal

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