AS INDULGÊNCIAS – TERNURA MISERICORDIOSA DO PAI

imigrantesA primeira semana deste mês de setembro deu ocasião para Francisco revelar em plenitude o rosto e o coração de seu ministério: rosto de misericórdia, coração de misericórdia, que se revelam no sair de si para ir ao encontro do outro. Rosto e coração de misericórdia como essência do cristianismo e da Igreja aberta para todos, com frase lapidar: “as igrejas com as portas fechadas não devem ser chamadas de igrejas, mas de museus”. É vital sair de si, da auto-referencialidade, para se encontrar com as periferias da vida, entrar em comunhão com todos e com tudo aquilo que é do Pai e nos foi confiado: evangelho da criação, evangelho de redenção, unido de modo inseparável o Evangelii Gaudium com a Laudato si. E para que a missão seja alcançada e vivenciada, a Misericordiae Vultus. “Sermos todos misericordiosos como o Pai”, é o chamado que Francisco apresenta a toda a Igreja e ao mundo.

Foram três as palavras de Francisco nesse setembro: no dia 1º, a Carta sobre a concessão da Indulgência por ocasião do Jubileu extraordinário da Misericórdia; no dia 6, a convocação da Igreja e de todo o mundo para gestos concretos com vista aos milhares, dezenas de milhares de migrantes fugindo pelo mundo em busca de vida, muitos morrendo nesse caminhar sem fim: “não basta dizer coragem, paciência, rezaremos”. É preciso agir e propõe, concretamente, que cada paróquia, santuário ou mosteiro na Europa receba uma família de migrantes, começando por ele, o Papa, que já fez o dever de casa acolhendo migrantes nas duas paróquias do Vaticano. Devemos receber os “hóspedes de Deus”.

E, no dia 8 de setembro, Natividade de Maria, a Mãe da Misericórdia, as duas Cartas Apostólicas (Mitis et misericors Iesus e Mitis Iudex Dominus Iesus) sobre a reforma do processo canônico para as causas de declaração de nulidade do matrimônio. Nessas Cartas, com as quais quer superar o legalismo, a morosidade e os custos processuais, estabelece os bispos como juízes ordinários e competentes para julgar os casos, num tempo rápido, e gratuitamente. Aqui o Papa se antecipa ao Sínodo de outubro, já estabelecendo juridicamente o modo de proceder e que tinha sido sugerido no Sínodo extraordinário: uma justiça episcopal, verdadeira, rápida e sem necessidade de apelação.

Os três gestos estão mergulhados na misericórdia do Pai que Francisco quer para toda a Igreja.

Com as Indulgências, sentir a ternura misericordiosa do Pai – o Jubileu

Os Jubileus do Ano Santo foram conhecidos pela concessão da Indulgência plenária aos que passassem por uma das 4 portas santas de Roma, ou seja, das basílicas maiores. São conhecidos pelos atos de piedade e generosidade neles praticados, e conhecidos, alguns deles, pelo drama da venda de indulgências, uma das causas da Reforma de 1517.

O Jubileu extraordinário convocado pelo papa Francisco (8-12-2015 a 20-10-2016) será lembrado como o grande Jubileu da Misericórdia: “Espero que a indulgência jubilar chegue a cada um como uma experiência genuína da misericórdia de Deus, a qual vai ao encontro de todos com o rosto do Pai que acolhe e perdoa, esquecendo completamente o pecado cometido”, escreve na Carta tornada pública no dia 8. Em seguida, refere-se às Portas Santas, salientando a unidade entre o gesto devocional e a participação frutuosa na Confissão e na Eucaristia, e a recitação das orações costumeiras nas intenções do Papa pela Igreja.

Ninguém se sinta excluído do coração do Pai, pois seu Filho é nossa Indulgência, é nossa Porta santa, a doença, a prisão, até a provação do pecado do aborto, tudo é Porta de remissão plena dos pecados.

Francisco alarga generosamente a realidade da Porta Santa: além de Roma, os bispos podem indicar outras igrejas em suas dioceses. E mais, para que ninguém se sinta excluído da graça do perdão, pensa “também em quantos, por diversos motivos, estiverem impossibilitados de ir até a Porta Santa, sobretudo os doentes e as pessoas idosas e sós, que muitas vezes se encontram em condições de não poder sair de casa. Para eles será de grande ajuda viver a enfermidade e o sofrimento como experiência de proximidade ao Senhor que no mistério da sua paixão, morte e ressurreição indica a via mestra para dar sentido à dor e à solidão. Viver com fé e esperança jubilosa este momento de provação, recebendo a comunhão ou participando na santa Missa e na oração comunitária, inclusive através dos vários meios de comunicação, será para eles o modo de obter a indulgência jubilar”.

Francisco que hoje (dia 11) telefonou a jovens encarcerados de La Plata, afirmando que “a vida tem necessidade de vocês, um jovem deve sempre olhar para a frente com esperança, alegria, com o rosto sempre feliz, nunca triste”, também faz de cada prisão uma basílica, da porta da cela uma Porta santa: “Nas capelas dos cárceres poderão obter a indulgência, e todas as vezes que passarem pela porta da sua cela, dirigindo o pensamento e a oração ao Pai, que este gesto signifique para eles a passagem pela Porta Santa, porque a misericórdia de Deus, capaz de mudar os corações, consegue também  transformar as grades em experiência de liberdade”.

Sendo mais generoso ainda, Francisco continua: “Eu pedi que a Igreja redescubra neste tempo jubilar a riqueza contida nas obras de misericórdia corporais e espirituais. De fato, a experiência da misericórdia torna-se visível no testemunho de sinais concretos como o próprio Jesus nos ensinou. Todas as vezes que um fiel viver uma ou mais destas obras pessoalmente obterá sem dúvida a indulgência jubilar”. Ressoa aqui “a caridade apaga multidão de pecados” (1Pd 4, 8).

E, antes era o principal, por último Francisco se refere aos nossos parentes e conhecidos já falecidos: “a indulgência jubilar pode ser obtida também para quantos faleceram; rezar por eles, para que o rosto misericordioso do Pai os liberte de qualquer resíduo de culpa e possa abraçá-los na beatitude sem fim”.

Deus não exclui ninguém, Deus Pai oferece seu coração como abrigo para todos. Francisco nos concede também o Jubileu que nos liberta de legalismos, de visões mágicas, de viagens desnecessárias, ele liberta Deus para nós, proclama o ano da graça que é Jesus (cf. Lc 4, 19). Somente a misericórdia dá sentido à nossa vida eclesial.

Pe. José Artulino Besen 

  1. #1 por Ivone Maria Koerich Coelho em 14 de setembro de 2015 - 21:46

    Que lindo tudo isto Padre José! Com a ternura Misericordiosa do Pai, um coração transbordando de ternura do Papa Francisco.

  2. #2 por Marcos santos em 16 de setembro de 2015 - 08:39

    É maravilhoso como o papa Francisco consegue captar a ação do espirito santo, que olha simploriamente a estes cristãos irmãos que não foram correspondidos em seus matrimônios mas insistem na fé e mendigam da burocracia o acesso a cristo. outro dia um canal de TV mostrou uma paroquia onde o Padre oferecia a comunhão, aos casais unidos a Deus mas separados por questões pessoais e regras engessadas da nossa igreja, mas logo questionaram um desses entendidos dos canais católicos e ele disse que o bispo deveria ter lhe uma conversa(com o padre), muito fácil legislar cumprir uma regra, uma lei, coloca o legislados em um patamar seguro ,imune, estamos cercados de regras, condutas e normativos da vida civil comum, e ainda ansiosos pela PAZ do cordeiro, temos que nos enquadrar, é demais. Bendito seja Deus com seu Padre do ” fim do mundo” dos engessados e legalistas.

    • #3 por José Artulino Besen em 17 de setembro de 2015 - 08:20

      Marcos Santos, você escreveu com sentimento, escreveu uma experiência de vida. Isso sempre tem muito valor. O caminho da misericórdia é um longo caminho para nós pessoas e instituições. Francisco nos recorda isso com força e perseverança. Num dia teremos mais claro o abraço paterno do Pai de Jesus e nosso. E nossos sentimentos humanos serão transformados. Confiemos sempre no Espírito que queima a dureza do coração, que aquece a vida sem amor. Seremos filhos e irmãos.

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