NO MUNDO NÃO HÁ LUGAR PARA O MENINO AYLAN

Polícia turca encontra o corpo do menino Aylan - 02-09-2015

Polícia turca encontra o corpo do menino Aylan – 02-09-2015

No dia 2 de setembro, o mar Egeu foi pequeno para um bote com 13 pessoas e para Aylan Kurdi, seu irmão Galip de 5 anos e sua mãe Rehan, de 35. Sob o olhar indiferente do mundo civilizado, tiveram de fugir da Síria em guerra civil, abrigar-se na Turquia para, enfim, poder chegar à Grécia e dali para o Canadá, onde já residem parentes de seu pai. O bote não viajou mais de 3 minutos. Atingida a embarcação por uma onda mais forte, o piloto saltou e se mandou. Nova onda, o bote despejou os viajantes.

Aylan Kurdi, o amoroso menino de 3 anos, com corpinho e jeito de criança de brinquedo, foi descartado na praia de Ali Hoca, em Bodrum. Rostinho voltado para a areia, de quando em vez acariciado por alguma onda. Camisa vermelha, calça azul, sapatinhos gastos, o menino Aylan está voltado para a Europa. Ficou só, sozinho e morto à beira do mar Egeu. Quem não sente vontade de cobri-lo para evitar um resfriado? O corpo do irmão Galip, de 5 anos, estava a cem metros dele e sua mãe, um pouco mais distante.

A foto correu mundo, o mundo onde não há lugar para uma criança que denuncia com sua imensa solidão a solidão humana do mundo. No imenso mundo não cabe o pequenino Aylan, que aos três anos já sofreu bombardeios na síria Kobane, foi embalado por explosões, aprendeu a chorar por causa da fome, a correr fugindo para a Turquia, e viveu a alegria da mãe que o confortou: meu filho, estamos quase no fim. Chegaram, de verdade.

Aylan é uma parábola da modernidade: seu retrato deitado na praia é um esboço de ser humano, lembra os 351 mil migrantes que buscaram a vida e a morte, muitos no mar Mediterrâneo, neste 2015. Mar de comunicação entre povos e impérios, hoje parece mais ser imensa sepultura para pobres que não podem pagar um túmulo em sua terra.

Aylan Kurdi e seu irmão mais velho, Galip

Aylan Kurdi e seu irmão mais velho, Galip

Na sua solidão, o pequeno menino sozinho e morto denuncia o engano que nos fizeram dançar de alegria por tudo o que prometia, mas que nos enganou, e a esse engano deu-se o nome de globalização. O mundo seria uma grande aldeia, sem fronteiras comerciais nem humanas, sem alfândegas nem passaportes, tudo seria de todos no mundo global. E também sem divisões religiosas, pois o homem globalizado prefere religião global. Aprendemos, após muitas perdas, que a palavra globalização foi apenas uma invenção dos americanos e dos ricos europeus para consumirem as riquezas dos pobres, produzirem a baixo custo, empurrarem goela abaixo seus produtos, mas reservado-se a tecnologia.

O mundo da globalização agora se especializa em fabricar cercas e muros: esse grande produto moderno já tem concluídos 19.600 quilômetros, com mais 20.200 em obras; Israel leva adiante seu muro para isolar palestinos, americanos criam cercas para proteger-se dos mexicanos, a Hungria completou a cerca de 170 quilômetros para ficar isolada da Sérvia, países africanos também se protegem dos fugidos de outros países falidos cujas riquezas foram consumidas por ditadores corruptos engordados pela América e pela Europa em troca de armamentos e de recursos naturais. Além dos muros existem os túneis, os caminhões, os carros. Na semana passada, foi encontrado à beira da estrada um caminhão que fazia o caminho Budapest-Viena. Ao ser aberto, dentro dele, apodrecendo, 71 corpos de refugiados.

Os pobres do mundo não arriscam a vida por conforto, apenas querem viver. Retornar significa morrer, pois tudo venderam para pagar a passagem nos navios tumbeiros, arrendados por traficantes de pessoas transformadas em mercadoria. São frutos de duas violências, a da fome pela miséria, a da fome pela guerra, que deixam para trás centenas de milhares de crianças sem família, sem escola, sem brinquedos, definitivamente sem infância.

Os países europeus se esquecem de que há pouco mais de cem anos repartiram a África entre si para explorá-la e fizeram das nações árabes seus protetorados. Na Conferência de Berlim (1884-1885) Inglaterra, França, Espanha, Alemanha, Portugal, Holanda, Bélgica determinaram a ocupação de África pelas potências coloniais, com régua e lápis dividindo o continente negro entre si, numa divisão territorial que não respeitou, nem a história, nem as relações étnicas e mesmo familiares dos povos. Acenderam o fogo do caldeirão de guerras, violência e miséria, mas foram bem sucedidos no sugar as riquezas e o suor.

Agora, os países ricos estão de mau humor: os pobres não entendem que a globalização não vale para eles. Devem deixar o mundo em paz, cada dentro de sua fronteira, pois alguma ONG levará socorro. Não será mais possível, pois os pobres descobrem a cada dia com mais clareza a face cruel dos ricos que os rejeitam, declaram indesejáveis, desnecessários, descartáveis. Sua mão-de-obra não interessa por ser desclassificada, sua língua e cultura poluem as belas e limpas culturas da civilização ocidental. O Brasil, que durante 370 anos aprisionou africanos para servirem de escravos, também não aprecia receber africanos livres.

Aylan, pequenino migrante encontrado morto

Aylan, pequenino migrante encontrado morto

Enquanto isso, o menino Aylan jaz numa praia turca. Nessa praia, jaz o mundo inteiro. Onde uma criança morre, morremos todos nós. Aylan é uma criança como milhões de crianças, foi uma criança cujo grande brinquedo era correr atrás da própria sombra, e agora é uma criança a descobrir que o mundo não o deseja. Aylan descansa para sempre, e olhando para cada um de nós.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Carlos Martendal em 8 de setembro de 2015 - 14:33

    Muito obrigado, caríssimo Pe. José!

    Com sua bênção, fraterno abraço.

    Carlos Martendal

    • #2 por José Artulino Besen em 8 de setembro de 2015 - 17:07

      Prof. Carlos Martendal, muito obrigado por sua leitura de meus textos, o que me incentiva a continuar. Deus continue a servir-se de nós.

%d blogueiros gostam disto: