SANTOS LUÍS E ZÉLIA MARTIN, PAIS DE SANTA TERESINHA

LUDOVICO MARTIN e MARIA AZELIA GUÉRIN (1823-1894; 1831-1877)

São Luís Martin e Santa Zélia Guérin – tapeçaria colocada na fachada da Basílica do Vaticano na cerimônia de canonização, em 18-10-2015.

No dia 27 de junho de 2015, Francisco presidiu o Consistório Ordinário Público para a canonização do casal Luís Martin e Maria Zélia Guérin. Pela primeira vez a Igreja celebra a canonização de dois santos enquanto casal de esposos.

O dia da canonização foi estabelecido o 18 de outubro, numa data rica em significado: Dia Mundial das Missões, em plena Assembléia do Sínodo sobre a Família. Muito simbólica a canonização dos pais de Santa Teresinha, padroeira mundial das Missões no Dia Mundial das Missões, e a canonização de um casal no Sínodo da Família.

Ambos eram filhos de militares e foram educados num ambiente disciplinado, severo, muito rigoroso e ainda devedor do jansenismo, escola de vida cristã marcada pela crença de que se “merece” a salvação pelo rigor das obras, e não pela graça. Os dois receberam educação de forte cunho religioso: Luís, nos Irmãos das Escolas Cristãs; Zélia, nas Irmãs da Adoração Perpétua.

Ao terminar os estudos, no momento de escolher o próprio futuro, Luís Martin orientou-se para a aprendizagem do ofício de relojoeiro, não obstante o exemplo do pai, conhecido oficial do exército napoleônico. Durante três anos Luís viveu em Paris, hóspede de parentes, para aperfeiçoar a sua formação profissional. Naquele período foi submetido a muitas solicitações por parte do ambiente parisiense impregnado de impulsos revolucionários. Aproximou-se até de uma associação secreta, mas afastou-se imediatamente. Insatisfeito com o clima que se respirava na capital, transferiu-se para Alençon, onde iniciou a sua atividade profissional, conduzindo até a idade de 32 anos um estilo de vida quase ascético.

Zélia Guérin, inicialmente, ajudava a mãe na família. Depois, especializou-se no ainda hoje tradicional “ponto de Alençon”, escola de bordados e rendas. Em poucos anos os seus esforços foram premiados: abriu uma modesta fábrica para a produção de rendas e obteve um discreto sucesso. Com a receita da empresa, manteve toda a família, vendendo rendas para a alta sociedade.

Luis Martin nasceu em 1823. Zélia Guérin nasceu em 1831. Um irmão de Zélia, Isidoro, nasceu dez anos mais tarde e será o filho mimado da família. Em uma carta a esse irmão da infância, ela mesma define sua juventude como: “triste como um lençol, porque se a minha mãe te mimava, comigo, tu sabes, ela era muito severa; no entanto, era tão boa e não sabia como prender-me, assim eu sofri muito no coração”. E foi esse irmão que ajudou Luís cuidar das filhas na viuvez.

«Eu amo loucamente as crianças e nasci para ter filhos», dizia Zélia mais tarde. Mas, contraditoriamente, esse lar não era para existir. Luís estava na a aprender o ofício de relojoeiro e de lá dirigiu-se ao Eremitério de São Bernardo, dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho, querendo ser monge. O Prior foi direto: «Não conhece latim, nada de postulantado no Mosteiro». Luís retorna a Alençon e se dedica à oficina de conserto de relógios.

Zélia tentou ser freira, mas, após conversar com a Superiora das Filhas da Caridade, ela entendeu que não era a vontade de Deus. Frente a essa recusa, ela orientou-se em direção a uma formação profissional e, ao final de 1853, instalou-se como “fabricante de rendas e bordados.

A qualidade do seu trabalho trouxe fama a seu atelier. Chegou a ser recompensada com uma medalha de prata em ocasião da exposição de 1858 em Alençon. As relações que mantém com suas operárias eram notáveis: afirmava que era necessário amá-las como os membros da sua própria família; com seus vizinhos e conhecidos mostra-se sempre pronta para combater as injustiças, apoiando os que tinham necessidade. O Evangelho deixava marca todos os seus atos.

Luís participa do “Círculo Vital Romet”, que reunia uma dúzia de jovens adultos cristãos em torno de Padre Hurel e descobriu uma forma de compromisso social nas “Conferências de São Vicente de Paulo”. Ali viveu ardente espiritualidade e aprendeu a se inserir no trabalho social e cristão.

A mãe, preocupada com sua condição de celibatário, lhe comenta a respeito da jovem Zélia Guérin, jovem de face diáfana e de sorriso doce e misterioso. Passou a interessar-se por ela. O encontro entre os dois aconteceu em 1858, na ponte de São Leonardo em Alençon. Ao ver Luís, Zélia percebeu distintamente que ele seria o homem da sua vida.

Três meses após terem se conhecido, casaram-se à meia-noite no dia 12 de julho de 1858, um horário comum na época entre aqueles que entendiam a importância religiosa do casamento, ou seja, um sacramento que se recebia do sábado para o domingo. Zélia está com 27 anos e inicia com Luís um amor sólido e durável, e que venceu a doença e a morte. Revela o amor que tem por seu marido em suas cartas: “Tua mulher que te ama mais do que a vida”, “Eu te abraço como eu te amo”. Não são apenas palavras: sua alegria era estarem juntos e compartilhar tudo o que faziam na vida diária sob o olhar de Deus.

Mas, novamente era uma família que não deveria existir. O vigário de Alençon estranhou que o casal não tivesse filhos, e eles explicaram que viviam um matrimônio como Maria e José, como dois irmãos. O padre repreendeu-os, dizendo que deveriam viver como casal e ter filhos. Fiéis ao conselho, entre 1860 e 1873 nasceram nove filhos, dos quais quatro morreram pouco depois do nascimento: Helena, José, João Batista e Melânia Teresa. Zélia experimentou alegrias e sofrimentos ao ritmo destes nascimentos e destas mortes.
O grande desejo de Zélia era ter um filho homem, e muitas novenas fez nessa intenção. Nasceram José e João Batista, mortos antes de completarem um ano. Perseverando no desejo, Zélia fazia suas filhas mais velhas rezarem todas as noites para pedir a São José um irmãozinho que, um dia, como padre ofereceria a comunhão e partiria para terras distantes. Com o desejo de oferecer a Deus um sacerdote que seria missionário, Luis e Zélia Martin se empenhavam no apoio às obras missionárias. Eles estavam entre os primeiros inscritos na Obra da Propagação da Fé, fundada por Paulina Jaricot.

Anos depois, Teresinha escreveu ao Pe. Roulland: “Eles desejaram tanto ter um filho missionário! Se eles tivessem sido capazes de penetrar no véu do futuro, veriam que era através de mim mesma que seria realizado o desejo deles”. Teresinha queria ser missionária na Indochina, mesma doente como estava.

Sobreviveram cinco filhas, que ingressaram no convento: Maria, Paulina, Leônia, Celina e Teresa. Talvez o casal não seria lembrado se não fosse a caçulinha, a grande Santa Teresa do Menino Jesus da Sagrada Face, morta aos 24 anos no Carmelo de Lisieux. Mas, formaram uma família de santas.

Luís e Zélia foram declarados bem-aventurados em 19 de outubro de 2008. Não foram beatificados por serem os pais de Santa Teresinha, mas porque se empenharam totalmente em fazer a vontade de Deus em qualquer situação de suas vidas. Luís e Zélia, com sua vida nos ensinaram que a santidade é caminho para a esposa, o marido, os filhos, os colegas de trabalho e para a sexualidade. Os santos não são super-homens, mas pessoas verdadeiras.

Se tanto amamos Teresinha de Lisieux, se tanto nos encanta sua santidade, devemos dizer que ela é fruto de seus pais, um casal que vivia o amor de Deus tanto na alegria como nas tristezas. As muitas cartas deixadas por Zélia dão testemunho deste colocar-se inteiramente nas mãos de Deus. Luís Martin, de modo todo especial formou e deu vida à santidade de sua princesa, Teresinha, a que mais sofreu a perda da mãe.

Um lar feliz e santo

Família Martin, incluindo os falecidos na infância.

Família Martin, incluindo os falecidos na infância.

Os Martin constituíam um casal típico da pequena burguesia francesa do século XIX. Levavam uma vida ordinária, é verdade, mas Deus ocupava um lugar especial em sua vida pessoal e comunitária. Diariamente freqüentavam a Missa das 5:30h: Deus antes de tudo. A filha Celina escreveu, mais tarde: “Quando papai comungava, ele permanecia em silêncio na volta para casa porque, dizia, “continuo a conversar com Nosso Senhor”.

No meio das tristezas pela perda dos filhos, dizia que “tudo aceitamos na serenidade e no abandono à vontade de Deus”. Oração em família duas vezes ao dia, ao toque do Ângelus ao meio-dia e às 18h. Natal, Quaresma, Páscoa, os meses marianos de maio e outubro, o 15 de agosto ocupavam um lugar central em sua vida, tocando profundamente suas filhas. Essa espiritualidade conjugal e familiar não os isolou dos outros, pelo contrário, reforçou sua atenção a todos, domésticas, conhecidos, vizinhos.

Com as filhas Maria, Paulina, Leônia, Celina e Teresa, viveram apenas 19 anos de vida em comum, cujos frutos ultrapassaram a existência terrena. Uma palavra-chave expressa esse amor: a unidade, unidade que edificou sua vida espiritual, familiar e social. Num tempo em que nós fragmentamos a vida, vivemos divididos, eles cimentaram sua existência numa unidade invencível e contagiante.

A casa dos Martin era a casa da caridade. Luís recolheu na rua um epiléptico e procura assisti-lo. Não hesita em convidar à mesa os mendigos encontrados na rua. Visita os anciãos. Ensina às filhas a honrar o pobre e a tratá-lo como um igual. Teresa será a mais sensibilizada por esse exemplo. Podemos afirmar que a doutrina do “pequeno caminho” que fez de Teresinha Doutora da Igreja nasceu da santidade e do exemplo da vida de Luís e Zélia. Em seus escritos Santa Teresinha dirá: “O bom Deus deu-me um pai e uma mãe mais dignos do Céu que da terra”.

Não era uma família triste, o “pequeno convento” não era uma prisão austera, mas um lar feliz. Um lar cristão com o amor entre os esposos, deles pelas filhas, entre as irmãs, uma unidade sensível. Ambiente sadio, brincadeiras, jogos, festas, passeios em família. O amor era verdadeiro. Um amor, como definiu Teresinha “onde se dá tudo e se dá a si mesmo”.

Pouco depois da entrada de Teresa no Carmelo de Lisieux, apesar da dor de deixar sua princesinha, disse Luís a uma de suas filhas: “Meu Deus, eu estou muito feliz. Não é possível ir para o céu assim. Eu quero sofrer algo por vocês.”

Uma família onde Deus chama

Luís e Zélia não desejavam que suas filhas fossem religiosas, mas santas. O desejo de santidade que ali se vivia impregnava toda a vida familiar. A santidade se manifestava nas etapas vividas pelo casal, etapas tão semelhantes às de um casal atual: casamento tardio, trabalho, dupla jornada de Zélia entre a casa e a loja, ambos assumindo a educação das filhas. Foram consumidos por doenças contemporâneas: o câncer de Zélia e a doença neuropsiquiátrica de Luís. Atravessam as conseqüências da guerra de 1870 entre França e Alemanha, as crises econômicas, o drama da morte de Zélia em 1877: sozinho, Luís deve criar e educar suas cinco filhas Maria, Paulina, Leônia, Celina e Teresa. Não fosse a fé, teria entrado em pânico.

A casa de Luis e Zélia era, para suas filhas, o lugar privilegiado da experiência de amor e de transmissão da fé. Em casa, na intimidade do calor familiar e de vida doméstica, cada um recebeu e doou. No meio de várias preocupações profissionais, os pais souberam, um e outro, comunicar os primeiros ensinamentos da fé para suas filhas, desde a primeira infância. Foram os primeiros mestres a iniciarem suas filhas na oração, no amor e conhecimento de Deus, mostrando que eles rezavam a sós e juntos, fazendo-as acompanharem à missa e visitas ao Santíssimo Sacramento.

Eles ensinaram a oração, não somente dizendo que precisavam rezar, mas, transformando sua casa em “uma escola de oração”. Ensinaram como era importante ficar com Jesus, ouvir os Evangelhos que falam dele. Zélia pediu a Deus muitas crianças “para que todas fossem santas”. Luís aceita na fé a vocação de suas filhas.

Santos Luís e Zélia Martin, com a filha Santa Teresinha - Lindinalva Deólla

Santos Luís e Zélia Martin, com a filha Santa Teresinha – Lindinalva Deólla

A Paixão de Zélia e de Luís

Luís e Zélia viveram a Paixão, cada um a seu modo. Em dezembro de 1864, Zélia descobriu um câncer impossível de ser operado, que não lhe oferecia nenhuma chance de cura. Zélia aceitou a morte com coragem heróica, trabalhando até a véspera, a cada manhã participando da Missa. Sua força era a existência das cinco filhas.

A glândula no seio direito degenerou em câncer e fez Zélia sofrer muito. “Se o Bom Deus quer curar-me, eu ficarei muito contente porque, no fundo, eu desejo viver; custa-me deixar meu marido e minhas filhas. Mas, por outro lado, digo a mim mesma: se eu não for curada, pode ser que seja mais útil que eu parta”.

Preocupa-se sobretudo por Leônia, meio doentinha. Carregou a cruz por 12 anos. Em agosto de 1877 seus seios são amputados. Aos 46 anos, em 28 de agosto de 1877, à meia-noite e meia, Zélia morreu acompanhada de seu marido e seu irmão.

Deixemos as últimas palavras para Teresa: “De mamãe, eu amava o sorriso, seus olhar profundo parecia dizer: “a eternidade me encanta e atrai-me, eu quero ir ao céu azul ver Deus!”.

A Paixão de Luís é de outra ordem, começou para ele com a viuvez, quando decidiu viver em Lisieux, acompanhado de suas cinco filhas. Ali, seu cunhado Isidoro era farmacêutico. Algumas cartas desse tempo nos revelam um pai atento a cada uma de suas filhas e pronto para dar o consentimento aos seus projetos de vida religiosa.

Sucessivamente entregou três filhas a Deus: Paulina (1882), Maria (1886), e, enfim, sua “pequena rainha” Teresa (1888). Depois seguiram Celina (1894) e Leônia (1899).

Em 1888, após a entrada de Teresa no Carmelo, começou para ele a provação. No fim de 1888 e início de 1889, sua saúde vai sendo comprometida. Tinha sofrido dois pequenos derrames cerebrais e começou a ficar desorientado, às vezes não sabendo mais onde estava. Num dia, para susto da família, foi caminhando e acabou em Le Havre, aproximadamente 65 km. distante. Dias depois comunicou-se com a família, que foi buscá-lo. A família ficou preocupada que isso pudesse se repetir.

A situação comprometeu suas faculdades mentais e, em 12 de fevereiro de 1889, a família tomou a decisão de interná-lo no hospital psiquiátrico Bom Salvador, das Irmãs Vicentinas, em Caen.

Hoje diríamos num Hospital Psiquiátrico, mas em 1889 se dizia “asilo de loucos”. O venerando pai está agora misturado a 500 doentes. O homem estimado e respeitado é apenas um ser decadente. Os médicos diagnosticaram arteriosclerose cerebral, com insuficiência renal. Durante os períodos de consciência se ocupava dos doentes que o rodeavam. Ficou internado por três anos.

O lar dos Martin está disperso: a mãe morreu, três filhas são carmelitas, Leônia mora com uma parente. Sem perspectiva de cura, Luís é devolvido ao lar e assistido noite e dia pela filha Celina. É como uma criança, continuamente necessitado de assistência. Por vezes ficou violento.

Em 1888, Luís tinha oferecido um altar à igreja de São Pedro, matriz de sua paróquia. Teresinha comenta: “Papai ofereceu a Deus um Altar. Ele foi a vítima escolhida para ali ser imolado com o Cordeiro sem mácula”. Deus o chamou à eternidade em 29 de julho de 1894, aos 70 anos.

Relendo sua vida familiar à luz do Amor Misericordioso, em 1896, Teresinha relembra a entrada no Carmelo nos braços de “seu Rei”, e nunca imaginaria que poucos dias após a tomada do hábito seu querido pai “deveria beber a mais amarga, a mais humilhante de todas as taças”. “Os três anos de martírio de Papai me parecem os mais amáveis, os mais frutuosos de toda a nossa vida. Eu não os trocaria por nada, por nenhum êxtase ou revelação, este tesouro que deve provocar uma santa inveja nos Anjos da Corte Celeste”.

Pouco antes da doença, Luís escreveu às três filhas carmelitas: “Devo dizer-vos, minhas queridas filhas, que sou obrigado a agradecer e fazer-vos agradecer ao bom Deus, porque eu sinto que nossa família, apesar de tão humilde, tem a honra de ser privilegiada por nosso adorável Criador”.

É verdade que Deus cumulou de bênçãos e graças o lar de Luís e Zélia. É verdade que a cruz visitou esse lar. É mais verdade, porém, que ambos abriram suas vidas ao dom de Deus, dele fazendo participar intensamente suas filhas. Luís e Zélia queriam filhas santas e hoje, acolhendo suas preces temos Santa Teresinha de Jesus, Santos Luís e Zélia e já abertos o processo de canonização de Paulina, Maria, Celina e Leônia.


Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Carlos Martendal em 29 de junho de 2015 - 13:51

    Muito obrigado, caríssimo Pe. José!

    Com sua bênção,

    Carlos Martendal

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