“LAUDATO SI’, mi’ Signore  – A TERRA, CASA COMUM

IRMÃ DOROTHY STANG - mártir em defesa da floresta amazônica em 12 de fevereiro de 2005  (Anapu - PA)

IRMÃ DOROTHY STANG – mártir em defesa da floresta amazônica em 12 de fevereiro de 2005 (Anapu – PA)

“LAUDATO SI’, mi’ Signore – Louvado sejas, meu Senhor”, cantava São Francisco de Assis. Neste gracioso cântico, recordava-nos que a nossa casa comum se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços: “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras”. Essa é a abertura da Carta encíclica de Francisco, publicada no dia 18 de junho de 2015, tão aguardada e tão bem acolhida por todos aqueles que se interessam pelo destino humano na terra. A encíclica é uma verdadeira revolução porque, pela primeira vez, um papa fala do ambiente e exorta àquela “sobriedade necessária” que faz bem tanto aos cristãos como ao planeta.

Francisco consagra a encíclica à “dívida ecológica” contraída com nosso planeta. Entusiasmado, Juan Arías, jornalista tantas vezes crítico à Igreja, no jornal EL PAÍS, afirma que “a Igreja tem um Papa que foge de todos os esquemas do passado. Achamo-nos diante do bispo de Roma mais original desde os tempos do apóstolo Pedro”. Afirmação que coloca Francisco como fruto maduro de dois mil anos do pontificado romano. Sua originalidade une num mesmo abraço a fé e a ciência, Deus e a Terra, e cria um novo pecado, o pecado ecológico e assustará a muitos católicos tradicionais. Dirige-se a cristãos e não cristãos, crentes e não crentes.

Mas, a encíclica “Laudato si – louvado sejas” é conseqüência natural de seu pontificado que, desde os primeiros dias, optou pela periferia pobre e saqueada da terra, pela escória humana, com lúcida e corajosa visão evangélica. Francisco tem consciência de que a Igreja aposta seu presente e seu futuro, sua credibilidade e sua mensagem original não nas tradicionais teologias e direito canônico, mas na defesa do que é tão nosso: o planeta. Uma riqueza que é social, que não tem donos definitivos, mas que pertence a todos, de modo particular aos que mais sofrem as conseqüências de sua exploração por aqueles que se crêem os deuses intocáveis do poder.

Estamos diante de mudanças climáticas que andam paralelas com um mundo dividido entre pobres sempre mais pobres e ricos sempre mais ricos. Com um agravante: são esses ricos sempre mais ricos que produzem a crise com seu desaforado e cínico abuso de riqueza e recursos comuns. Francisco une de modo inseparável a questão econômica com a questão ecológica, e mostra que não se pode enfrentar uma sem enfrentar a outra. Indo mais adiante, são inseparáveis as questões econômicas, ecológicas, humanas, espirituais.

Suas palavras encontram forte ressonância na profecia de tantos bispos brasileiros e latino-americanos que conhecem a terra e seus habitantes, defendem o meio-ambiente contra a exploração do agronegócio e da mineração, defendem o chão da vida do pobre. Ele conhece os pobres de ver e de ouvir dizer, conhece os mártires da ecologia, como Chico Mendes e Irmã Stang. Ecoa a Conferência de Aparecida de 2007, a voz dos cristãos e, também, a voz dos cientistas e das organizações que defendem a Mãe Terra. Ele é, nesta hora, a voz forte, legítima e crível que denuncia a exploração e anuncia a esperança para a vida humana.  Suas palavras foram recebidas com grande alegria.

Palavras que nos questionam

A tradição cristã nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à propriedade privada. Não pode ser separada de seu fim social e seu conjunto significa a terra que produz água, alimento, vida sadia. Ninguém tem o direito de sequestrá-la para sua acumulação de riqueza.

Se a atual tendência de maltratos continuar, nosso século pode ser testemunha de mudanças inauditas e de uma destruição sem precedentes dos ecosistemas, com graves conseqüências para todos nós. Francisco cita a Amazônia e o delta do Congo, que atiçam a cobiça internacional.

Chama atenção a debilidade da política internacional, e a submissão da política diante da tecnologia e das finanças é comprovada pelo fracasso das cúpulas mundiais sobre o meio ambiente. Há demasiados interesses particulares e com facilidade o interesse econômico chega a prevalecer sobre o bem comum e a manipular a informação para que seus lucros não sejam afetados. Criam argumentos para continuar o assim chamado progresso, mas não querem ver outro argumento, revelado na face da terra torturada. Não por acaso, os maiores poluidores, Estados Unidos e China, ainda não assinaram o Protocolo de Kyoto. Para esses países, tudo se pode fazer desde que não se mexa com seu progresso. Estão, países ricos, até dispostos a negociar quotas de carbono: países pobres ganham bom dinheiro e os ricos ficam satisfeitos gerando mais poluição.

A terra, nossa casa, está ferida - não é depósito de imundície.

A terra, nossa casa, está ferida – não é depósito de imundície.

O gemido da Irmã Terra se une ao gemido dos abandonados do mundo, vivendo em condições sempre mais desumanas, com fontes de água e rios transformados em canais de esgoto. É previsível que, diante do esgotamento de alguns recursos, se vá criando um cenário favorável para novas guerras, disfarçadas ou escondidas com nobres reivindicações. Francisco denuncia a hipocrisia dos que da boca para fora pedem justiça e paz, e por trás incentivam o comércio da guerra.

É necessário eliminar os desequilíbrios da economia mundial e corrigir os modelos de crescimento que se revelam incapazes de garantir o respeito do meio ambiente.  O enorme consumo dos países ricos tem repercussões nos lugares mais pobres, sobretudo a África, onde o aumento da temperatura unido à seca provoca estragos no rendimento das plantações. O agronegócio promove sementes transgênicas que produzirão mais em áreas sempre maiores, e a preço sempre mais alto para alimentar os que podem adquiri-los, ao preço da carência alimentar. Nessa lógica de conforto e de consumismo está implícita outra lógica, cruel: para que continuemos a comer bem e em excesso é necessária a fome de centenas de milhões de chineses, indianos, asiáticos, africanos.

A terra, nossa casa, parece cada vez mais converter-se num imenso depósito de lixo. Grande problema de governos é a solução do lixo e, podemos exemplificar com o Brasil, municípios gastam mais com transporte de lixo e os lixões do que com educação e saúde. Países ricos vendem seu lixo para mafiosos que os despejam em regiões pobres. Os mares transformam-se em lixões, com a morte de muitas espécies vivas.

Convém evitar uma concepção mágica do mercado, que costuma pensar que os problemas se resolvem somente com o crescimento dos benefícios das empresas ou dos indivíduos, e submete a política à economia. É realista esperar que os escravos do máximo lucro pararão para pensar nos efeitos ambientais que deixarão para as próximas gerações?

Sabemos que a tecnologia baseada em combustíveis fósseis muito poluentes – sobretudo o carvão, mas também o petróleo e, em medida menor, o gás – necessita ser substituída progressivamente e sem demora. Enquanto não há um amplo desenvolvimento de energias renováveis, que já deveria estar em marcha, é legítimo optar pelo mal menor ou servir-se de soluções transitórias. A produção industrial não pode ignorar o meio ambiente, a qualidade de vida dos povos.

As finanças afogam a economia real. Não se aprenderam as lições da crise financeira mundial (quando o povo pagou pela salvação dos bancos) e com muita lentidão se aprendem as lições da deterioração ambiental. Em alguns círculos se afirma que a economia atual e a tecnologia resolverão todos os problemas ambientais, mas, por enquanto estão a criar novos e maiores problemas.

Laudato si - Pão e Vinho - Julian Merrow-Smith

Laudato si – Pão e Vinho – Julian Merrow-Smith

Para além do sol

Francisco é homem de fé, é homem de esperança. Encerra a “Laudato si – louvado sejas” com um hino ao Criador, à capacidade humana de se regenerar, de converter sua ação num hino de gratidão à Mãe Terra, nossa casa comum.

Os três últimos números (243-245) levam-nos para além da criação, a eternidade: “No fim, encontrar-nos-emos face a face com a beleza infinita de Deus (cf.1 Cor13, 12) e poderemos ler, com jubilosa admiração, o mistério do universo, o qual terá parte conosco na plenitude sem fim. Estamos a caminhar para o sábado da eternidade, para a nova Jerusalém, para a casa comum do Céu. Diz-nos Jesus: «Eu renovo todas as coisas» (Ap 21, 5). A vida eterna será uma maravilha compartilhada, onde cada criatura, esplendorosamente transformada, ocupará o seu lugar e terá algo para oferecer aos pobres definitivamente libertados.

Na expectativa da vida eterna, unimo-nos para tomar a nosso cargo esta casa que nos foi confiada, sabendo que aquilo de bom que há nela será assumido na festa do Céu. Juntamente com todas as criaturas, caminhamos nesta terra à procura de Deus, porque, “se o mundo tem um princípio e foi criado, procura quem o criou, procura quem lhe deu início, aquele que é o seu Criador”.

Caminhemos cantando; que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança. Deus, que nos chama a uma generosa entrega e a oferecer-Lhe tudo, também nos dá as forças e a luz de que necessitamos para prosseguir. No coração deste mundo, permanece presente o Senhor da vida que tanto nos ama. Não nos abandona, não nos deixa sozinhos, porque Se uniu definitivamente à nossa terra e o seu amor sempre nos leva a encontrar novos caminhos. Que Ele seja louvado!”

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Ivone Maria Koerich Coelho em 19 de junho de 2015 - 22:22

    Parabéns Pe. José. Hoje até pensei que logo o senhor escreveria sobre a encíclica, mas não imaginei que fosse tão rápido e muito bonito. Ontem li um trecho da encíclica é muito bonita.
    Peço que Deus de muita luz para os grandes do mundo para cuidarem mais e melhor do Planeta. E cada um de nós fazemos tudo o que podermos para tornar a nossa casa comum agradável onde TODOS possam viver com alegria e esperança.

  2. #2 por Augusto Cesar Zeferino em 21 de junho de 2015 - 10:38

    Caro Besen:

    Favor alterar meu endereço de e-mail para: rasecac@gmail.com, pois que este será definitivamente encerrado nos próximos dias.

    Cordialmente,

    Augusto César Zeferino

  3. #3 por Pe. Vitor Galdino Feller em 22 de junho de 2015 - 08:11

    Obrigado, Pe. José. Você conseguiu fazer ao mesmo tempo uma síntese e um comentário da encíclica LS, ressaltando as grandezas e as novidades do ensinamento franciscano (do santo e do papa!). Tomara que ele seja ouvido pelos grandes da terra e por todos nós!

    • #4 por José Artulino Besen em 23 de junho de 2015 - 11:10

      Pe. Vitor,obrigado pela gentileza da leitura e do estímulo. Escrever é um ato de humildade. pois revela nossa pequenez. Um abraço, Pe. José

  4. #5 por Maria Besen em 25 de junho de 2015 - 09:19

    Caro irmão: Somente hoje pude ler o teu artigo. Captaste o pensamento do Papa. É isto: todos nós somos responsáveis pela renovação do planete terra. Cada um deve assumir o que na sua própria vida está consumindo demais eo que pode fazer para renovar a nossa linda mãe terra. Parabéns!

    • #6 por José Artulino Besen em 25 de junho de 2015 - 16:41

      Irmã Maria, nós temos a possibilidade de conservar e recuperar o planeta, tão bem denominado de casa comum. Sei que seu trabalho missionário no sertão baiano está também consagrado a esse ministério. Deus nos abençoe.

  5. #7 por Nesir Madalena Besen Schmitz em 30 de junho de 2015 - 18:44

    Caro Irmão!
    Li e reli teu comentário sobre a Encíclica “Laudato si”.

    Oxalá que a humanidade se conscientize sempre mais da grande responsabilidade para com o Planeta Terra. Está na hora. Nós tivemos o privilégio de vivenciar nossa casa, a mãe natureza. Os que virão após nós, se não forem tomadas as medidas reparadoras, não poderão contemplar essa beleza imensurável ! Agradeço a Deus por esse nosso santo Papa que tanto nos dá o sinal de alerta para o Meio Ambiente.
    Parabéns, irmão, pelo artigo!

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