PADRE FRANCISCO DE PAULA VICTOR

Bem-aventurado Padre Victor

Bem-aventurado Padre Victor

Durante 44 anos viveram relativamente perto um do outro a Bem-aventurada Nhá Chica e o Servo de Deus Pe. Francisco de Paula Victor. Padre Victor foi vigário de Três Pontas durante 53 anos e Nhá Chica foi uma das iluminadas Beatas populares de Minas Gerais, vivendo em Baependi.

Uniu-os a santidade de vida: Francisca de Paula de Jesus – Nhá Chica – foi proclamada Bem-aventurada em 1º de maio de 2013, e Padre Francisco de Paula Victor teve o milagre aprovado pelo Papa Francisco em cinco de junho de 2015, faltando apenas estabelecer a data da beatificação. Uniu-os também o nome: Francisca de Paula e Francisco de Paula.

Mais ainda, uniu-os a cor: ambos eram negros, filhos de escravas negras. A pobreza e a humilhação da origem escrava em nada diminuiram a fé cristã, a esperança feliz e a caridade sem limites. Amaram a Deus e amaram os pobres, hoje gozam da bem-aventurança eterna e nós temos a felicidade de invocá-los como Bem-aventurada Nhá Chica e Bem-aventurado Padre Victor, nomes pelos quais são conhecidos. Já publiquei pequena biografia da Bem-aventurada Francisca de Paula: https://pebesen.wordpress.com/2013/05/06/bem-aventurada-nha-chica-francisca-de-paula-de-jesus/

Francisco de Paula Victor

Nasceu em Campanha, MG, no dia 12 de abril de 1827, filho da escrava Lourença Maria de Jesus. Sua madrinha de batismo foi dona Mariana Bárbara Ferreira.

Inteligente, vivo, esperto e bom: com essas qualidades teve o privilégio de estudar, não se sabe se em casa com a madrinha ou com algum professor, numa escola. Não era comum branco estudar, muito menos negro. Era proibido por lei, para que não se tornassem negros ambiciosos. O fato é que ele estudou: sendo negro, filho de escrava, físico forte, deveria trabalhar em serviços pesados na lavoura, no garimpo ou engenho. Outros negros eram encaminhados para trabalhos especializados como marceneiro, alfaiate ou pedreiro.

Após os estudos, Francisco de Paula Victor exerceu a profissão de alfaiate e teve por mestre Inácio Barbudo, a quem confidenciou o desejo de ser padre e de quem recebeu uma resposta debochada: “Já viu negro ser padre?”.

Com o apoio de sua madrinha de batismo, que lhe deu a metade de uma fazenda, em Campanha, como patrimônio que era exigido na época para ingressar no seminário, e com a permissão de Dom Antônio Ferreira Viçoso, bispo de Mariana, entrou no Seminário de Mariana, MG. Dom Viçoso, hoje Servo de Deus, viu nesse negro de 24 anos uma alma eleita. Os santos se reconhecem.

Dom Viçoso foi grande promotor vocacional, rigoroso na formação dos novos sacerdotes. Diziam que ele, com tanta exigência de seriedade, ficaria sem padres, o que não foi verdade, pois em 32 anos de episcopado ordenou 318 novos sacerdotes. Entre esses estava o Padre Francisco de Paula Victor.

Mas, voltemos um pouco no tempo.

Da alfaiataria ao altar

Dom Viçoso visitou a paróquia de Campanha no ano de 1848. Victor, usemos apenas esse nome, então alfaiate, na

Padre Francico de Paula Victor - jovem sacerdote

Padre Francisco de Paula Victor – jovem sacerdote

ocasião procurou o bispo, manifestando-lhe o desejo de ser padre. Foi recebido com grande alegria e foi aceito no Seminário São José em 5 de junho de 1849. Dom Viçoso era a favor da emancipação dos escravos e quis mostrar que, para ser padre, o que conta é o chamado de Deus e a resposta do homem.

No Seminário, demonstrou zelosa vivência das virtudes cristãs. Passou por muitas humilhações, pois seus colegas “brancos” se recusavam a aceitar a convivência de um negro. Chamavam-no de preto, “nego beiçudo”, deixando-o sempre com os piores trabalhos. Victor aceitava tudo e procurava fazer bem as tarefas, servindo a todos.

Aos poucos, passaram a respeitá-lo. Dom Viçoso o apoiava e o estimava.

Com 24 anos, em 14 de junho de 1851 foi ordenado sacerdote, sendo sua primeira missa celebrada em Campanha, MG. A brevidade dos estudos em dois anos apenas indica o rigor da formação no Seminário: em dois anos os alunos cursavam as disciplinas de filosofia e de teologia, no método rigoroso e competente dos padres lazaristas, os padres da Congregação da Missão, encarregados do Seminário.

O sacerdócio vivido em Três Pontas

Em 1852, veio para a paróquia de Três Pontas, onde permaneceu até a morte, 53 anos depois. A população achou estranho, quase ofensivo, o bispo enviar um sacerdote “negro”, mas, aos poucos foi conhecendo as virtudes de Padre Victor, que pregava pelo exemplo e passaram a dizer que ele era um Evangelho vivo. Visitava os doentes, amparava os inválidos, alimentava os pobres, atendia prontamente confissões, casamentos, encomendações.

Para melhor instruir e catequizar o povo, criou em Três Pontas o colégio “Sagrada Família”, com uma organização exemplar, atendendo não só a cidade, mas toda a região.

Era presença marcante nas comemorações escolares. Procurava transmitir aos seus alunos o respeito não só às leis da Igreja, mas também aos deveres de cidadãos. Era excelente professor de latim e francês.

Padre Victor fez de muitos filhos de famílias humildes homens de cultura e que passaram a viver da inteligência, nas mais variadas profissões, um sendo elevado ao episcopado. Era bom, porém, enérgico.

Viveu de esmolas e dando esmolas. Para ajudar seu povo chegou a contrair dívidas além do “bom senso”, mas foram que todas pagas. O vigário emprestava sua escola para as festas, para que a população pudesse se divertir, dentro da mais completa ordem, pois ele estava presente em todos os momentos, quer alegres, quer tristes. Sua vida não lhe pertencia, era da pobreza; a sua casa era de todos e os seus bens, de quem deles carecesse.

A morte de um santo

Padre Francisco de Paula Victor - velho sacerdote

Padre Francisco de Paula Victor – velho sacerdote

Paroquiou Três Pontas por cinqüenta e três anos. Faleceu no dia 23 de setembro de 1905, aos 78 anos de idade. A notícia abalou a cidade e toda a região que já o venerava, afinal, eram 53 anos de vida e exemplo de virtude em Três Pontas.

A população chorou a morte de seu padre, de seu protetor, do mensageiro de Deus. Ficou insepulto três dias, tal a multidão que fazia questão de venerá-lo. Em vista do grande número de pessoas que compareceram ao sepultamento, foi necessário fazer uma procissão pelas ruas da cidade, depois retornando com o esquife à igreja matriz, onde foi enterrado.
Padre Francisco de Paula Victor é considerado pelos trespontanos como o seu “Anjo Tutelar” e é chamado de Pe. Victor de Três Pontas.

Em 1993, instalou-se o Tribunal diocesano em Campanha, para o conhecimento da vida, virtudes e fatos miraculosos atribuídos ao Padre Victor. Em 2002 a “Positio” foi examinado pela Comissão dos Historiadores da Congregação da Causa dos Santos, e aprovada. E, felizmente, em 4 de junho de 2015 foi aprovado o milagre e sua beatificação.

Conta a tradição que um dos primeiros milagres de Padre Victor aconteceu quando um casal de lavradores foi à igreja levar o filho para ser batizado, mas o padre da época cobrava uma taxa de que a família não dispunha. Então o casal entrou na igreja para pedir uma luz a Deus. Em seguida deles se aproximou uma pessoa se apresentando como padre e fez o batismo sem custas. O casal comentou sobre o padre com populares e o reconheceu através de uma fotografia: era o Padre Victor que já havia falecido anos antes.

Muitos historiadores dizem que o maior milagre de Padre Victor foi ter conseguido, sendo negro e pobre, entrar para o Seminário, ser padre e ser vigário. Certamente o milagre foi outro: ser homem, padre e cristão sem reservas.

Obs.: não confundir com o Pe. Vitor Coelho de Almeida, redentorista de Aparecida, servo de Deus.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 12 de junho de 2015 - 17:33

    Belíssima história de vida! Obrigado, Padre José Artulino Besen, por mais essa contribuição.

    • #2 por José Artulino Besen em 25 de junho de 2015 - 17:59

      Carlos, todos nós conhecemos muito pouco dos imensos tesouros de vida cristã ocultos na história humana. Quando os conhecemos, cresce nossa esperança de uma vida com mais sentido.

  2. #3 por Carlos Martendal em 15 de junho de 2015 - 13:54

    Muito obrigado, Pe. José! Não conhecia a história do Padre Francisco de Paula Victor.

    Peço-lhe a bênção e envio fraterno abraço,

    Carlos Martendal

  3. #4 por José Salomão Koerich em 19 de junho de 2015 - 23:13

    Em cada novo Jornal da Arquidiocese procuro suas narrativas sobre a Vida dos Padres da Igreja Católica em Santa Catarina. Não mais as encontrei. Hoje tive a graça de encontrar o seu Site e ler mais algumas belíssimas histórias.

    • #5 por José Artulino Besen em 25 de junho de 2015 - 18:02

      José Salomão, de fato, deixei de publicar as biografias no Jornal da Arquidiocese, iniciando a divulgação pelo blog pebesen.wordpress.com
      Fico contente que o senhor aprecia os textos.

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