O CORDEIRO REJEITADO E A LAGARTIXA TEÓLOGA

2015-06 - Francisco segura um cordeiroPequenas histórias são apenas pequenas histórias, mas podem nos oferecer ricas lições de vida. Em nossa vida não passamos por grandes acontecimentos, mas, estando atentos perceberemos que os pequenos fatos quotidianos nos revelam lições inesperadas. Em outras épocas a coleção desses acontecimentos era chamada de Tesouro de Exemplos.

Com esse sentido, ofereço aqui três histórias verdadeiras, uma, do início da América espanhola e, duas, do século XX.

Hatuey escolheu ir para o inferno

Hatuey, unindo os índios taínos da República Dominicana e do Haiti atuais declarou guerra aos invasores espanhóis. Derrotado, passou para Cuba, sempre com o impulso de lutar. Aos indígenas, dava o conselho: jogassem no rio todo o ouro que tinham, porque o ouro era o deus dos espanhóis e seria bom privá-los de seu deus.

Preso, foi condenado à fogueira com outros indígenas. Um padre espanhol, antes que ele fosse queimado, ofereceu-lhe um conforto espiritual: Se ele quisesse que sua alma fosse para o céu, bastaria que se convertesse ao cristianismo.  Hatuey perguntou-lhe: “As pessoas que estão no céu são iguais a vocês?”. O padre respondeu que sim, as almas celestes eram como os espanhóis. Hatuey não teve mais dúvidas e decidiu: “Prefiro ir para o inferno”.

E assim, em 2 de fevereiro de 1512, Hatuey foi enforcado e queimado na ilha de Cuba.

O doutor descrente e a lagartixa teóloga

Há gente que conjuga ciência com descrença, ser doutor com ser ateu e que ver milagres traz crença. Para eles, talvez sirva esse exemplo.

A história é verdadeira e passou-se no Monte Athos, república de monges na península grega de Tessalônica, em inícios do século XX.

Numa tarde de verão, um professor grego foi visitar os monges e, aproximando-se de um, vincado pelos anos de oração e de vida, lhe falou: “Sou descrente. Se o senhor fizer um milagre agora, passarei a acreditar em Deus”.

Nisso, passava por ali uma pequena lagartixa, o monge mandou que ela parasse e lhe disse: “Faz um milagre para que esse doutor acredite em Deus”. Toda reboladinha, a lagartixa simplesmente falou: “Deus existe, de verdade”. E mais não explicou e seguiu o caminho.

Padre Jorge Bergoglio e o cordeiro rejeitado

Francisco falou aos bispos e padres para serem pastores, ter o cheiro das ovelhas, e não serem príncipes e administradores. Um amigo que o conhece de perto já são 40 anos, pois é jesuíta, narra ter presenciado um pequeno fato da vida do Papa quando era superior e provincial no Colégio Máximo, na Argentina. Para a manutenção dos seminaristas, ali havia uma chácara e pequeno sítio onde conviviam com porcos, vacas e ovelhas.

Conta que, num dia, Pe. Jorge Bergoglio estava ajudando uma ovelha a parir e o amigo ofereceu-lhe ajuda. A ovelha tinha rejeitado um cordeirinho dos três que nasceram. Bergoglio refletiu um pouco, e improvisamente pegou o cordeirinho e o entregou ao seminarista dizendo: “Cuida dele!”. O seminarista perguntou, assustado: “E como se faz isso?”. “Vá à enfermaria, esquenta um pouco de leite e dá-lhe com a mamadeira”.

Por cinco meses esse estudante manteve o cordeirinho em seu quarto, e acabou impregnado do cheiro do bichinho. A ovelhinha o seguia por toda a casa, inclusive na igreja e nas salas de aula. Num dia, notando o atrapalho do seminarista, Pe. Bergoglio lhe disse: “Fiz com que passasses por uma prova. Tu aprendeste isso: se tu cuidas dela, a ovelha te segue. Faz sempre assim”.

Muitos anos depois, Bergoglio é Papa Francisco e ensina aos bispos e padres que tenham o cheiro das ovelhas.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Maria Besen em 7 de junho de 2015 - 15:07

    A história do Cordeiro rejeitado, já era uma profecia. Abraço

    Date: Sun, 7 Jun 2015 16:50:50 +0000 To: maria-besen@outlook.com

  2. #2 por Gilson Pereira de Melo em 8 de junho de 2015 - 04:43

    A história do índio Hatuey ensina o bom senso rejeitado e tem algo de cômico, ou estou com meu bom humor muito exacerbado. Nosso papa fez uma analogia perfeita.

    • #3 por Pe. José Artulino Besen em 10 de junho de 2015 - 10:00

      Gilson, a história de Hatuey revela a tragédia da evangelização unida à conquista violenta. A vida do cristão é o evangelho do pagão: a violência e sede de ouro dos cristãos espanhóis não testemunhavam de modo algum a mansidão do amor cristão. Hatuey não queria ficar eternamente sendo oprimido por cristãos, donde sua decisão. Certamente Deus o acolheu.

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