DOM OSCAR ROMERO, SANTO DA AMÉRICA

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Nós,
acolhendo o desejo de nosso irmão José Luís Escobar Alas arcebispo de San Salvador, de muitos irmãos no Episcopado, e de muitos fiéis, após ter escutado um parecer da Congregação para as Causas dos santos, com a Nossa Autoridade Apostólica concedemos que o Servo de Deus 

OSCAR ARNULFO ROMERO Y GALDAMEZ
Arcebispo, Mártir,

que sustentado por Cristo, pedra angular, deu a vida pela edificação do Reino, deste momento em diante seja chamado Bem-aventurado e se possa celebrar a sua festa, nos lugares e segundo as regras estabelecidas pelo direito, a cada ano no dia 24 de março, dia do seu nascimento para o Céu.

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Roma, diante de São Pedro, 23 de maio de 2015, terceiro de nosso pontificado.
Francisco

* * *

Era segunda-feira, 24 de março de 1980. Às 18 horas, Dom Oscar Arnulfo Romero y Galdamez iniciou a celebração da Missa na capela do hospital da Divina Providência na colônia Miramonte de San Salvador, para onde se tinha mudado. Ele percebeu que alguém se postou à porta de entrada da igreja, ergueu o fuzil e disparou um tiro certeiro que lhe perfurou o coração. Caiu fulminado, e morreu pouco depois no hospital, aos 62 anos de idade. Somente 31 anos depois, por imposição de organismos internacionais, soube-se quem foi o assassino e quem foram os mandantes: foi Marino Samayor Acosta, sub-sargento da seção II da Guarda Nacional, membro da equipe de segurança do presidente da república, por ordem do major Roberto d’Aubuisson, criador dos esquadrões da morte e do coronel Arturo Armando Molina. Preço do serviço para assassinar Dom Romero: 114 dólares.

Na véspera, domingo, dia 23 de março, preocupado com a violência dos esquadrões da morte e das guerrilhas, lançara um pedido dramático e que foi sua sentença de morte:

“Eu gostaria de fazer um apelo muito especial aos homens do Exército e, concretamente, às bases da Guarda Nacional, da polícia, dos quartéis. Irmãos, vocês são do nosso próprio povo, vocês matam os seus próprios irmãos camponeses, e, diante de uma ordem de matar dada por um homem, deve prevalecer a Lei de Deus, que disse: “Não matar’. Nenhum soldado é obrigado a obedecer a uma ordem contra a Lei de Deus. Uma lei imoral, ninguém precisa cumprir. Já é hora de recuperarem a consciência e obedecerem antes à sua consciência que à ordem do pecado. A Igreja, defensora dos direitos de Deus, da Lei de Deus, da dignidade humana, da pessoa, não pode ficar calada diante de tanta abominação. Queremos que o Governo leve a sério que para nada servem as reformas se forem manchadas com tanto sangue. Em nome de Deus, pois, e em nome deste sofrido povo, cujos lamentos sobem ao céu cada dia mais tumultuosos, lhes suplico, lhes rogo, lhes ordeno, em nome de Deus: cesse a repressão!”

Tinha sido mais um dos esperados sermões dominicais do Arcebispo em sua Catedral. Sermões que duravam de uma a duas horas, seguindo o esquema: leitura da Palavra de Deus e comentário sobre elas, sua aplicação concreta na vida do povo e suas comunidades e, para concluir, Dom Romero lia cartas, notícias e comentava acontecimentos da semana que demonstravam a desobediência à vontade de Deus.

Ele tinha consciência de que seria morto, era questão de tempo. Mas, decidira perseverar em sua missão profética em defesa do povo que sofria tanto a violência da fome e do desemprego como a violência da injustiça alimentada pelo governo que defendia o grande capital e o latifúndio. Decidira alimentar a esperança, por menor que fosse, a esperança do povo em dias melhores.

El Salvador, país de 14 sobrenomes

A repressão era sempre mais intensa naquele pequeno país de quase 22.000 km2. Entre 1979 e 1992, ano do acordo de paz, foram assassinados 85.000 salvadorenhos, 80% deles civis. Eram jovens, camponeses, 13 sacerdotes, 3 religiosas. De um lado estavam as forças da repressão, financiadas pelos Estados Unidos e pelos proprietários das melhores terras, de outro, os camponeses vítimas da miséria, da exploração de sua mão de obra, seduzidos pelo movimento de guerrilha de inspiração marxista.

Na maior parte, o país estava  loteado entre 14 sobrenomes, conforme se comentava, 14 famílias que dividiam as terras boas de cultivo, as riquezas minerais e a política da nação salvadorenha. Dom Romero sabia que a miséria não tinha nascido na véspera, mas era histórica: após séculos de dominação colonial, seguiu-se a dominação do governo e da riqueza por grupos econômicos controlados e mantidos por norte-americanos. Era o destino das outras nações da América central, transformadas em quintais para a produção de alimentos destinados aos Estados Unidos: as melhores terras estavam reservadas às grandes empresas norte-americanas que as exploravam através de famílias que se perpetuavam no domínio da agricultura e do poder político. Para os índios e os camponeses, isto é, para o povo, sobrava ser mão de obra explorada por baixíssimos salários e a falta de terra.

A miséria do povo tinha de ser suportada em silêncio, porque o preço da revolta era a morte violenta. Dom Romero tinha consciência de que era tempo de aplicar a opção preferencial pelos pobres decidida pelo episcopado latino americano em Medelín e Puebla. Se o pastor calasse, quem falaria pelas ovelhas, pelo povo que chorava a morte e a fome de seus filhos? Não era uma opção fácil, mas a única possível quando o pecado tinha se revestido do poder a serviço do sofrimento dos pequenos.

Sacerdote e bispo à imagem de Cristo

Oscar Arnulfo Romero y Galdamez nasceu em 15 de agosto de 1917 em El Salvador, segundo de sete irmãos. Desde a infância manifestou profunda piedade, cujo centro era a oração noturna diária e a veneração ao Imaculado Coração de Maria. Aos 13 anos, em 1930, ingressou no seminário de San Miguel. Em 1937 dirigiu-se ao Seminário São José de San Salvador e, no mesmo ano, foi enviado a Roma, onde residiu no Pontifício Colégio Pio Latino e estudou na Universidade Gregoriana.

Jovem seminarista em Roma, pouco antes da ordenação escrevia nos seus apontamentos pessoais:

“Neste ano farei minha grande entrega a Deus! Deus meu, socorre-me, prepara-me. Tu és tudo, eu não sou nada e, apesar disso, o teu amor quer que eu seja muito. Coragem! Com o teu tudo e o meu nada faremos esse muito”.

Foi ordenado padre em Roma aos 24 anos, em 4 de abril de 1942. Retornou à pátria em 1943, recebido com entusiasmo pelo seu povo, que muito o estimava. Foi pároco de Anamorós e, depois, de Nossa Senhora da Paz e, ao mesmo tempo, secretário do Bispo diocesano.

Em 1968 foi nomeado secretário da Conferência episcopal, nesse ano acompanhando todo o processo da Conferência de Medellín e sua opção pelos pobres. Em 21 de abril de 1970, foi nomeado bispo auxiliar de San Salvador, sendo ordenado em 21 de junho. O próximo passo foi a nomeação de bispo diocesano de Santiago de Maria em 15 de outubro de 1974, vivendo ali seus mais felizes anos. Finalmente, em três de fevereiro de 1977, o papa Paulo VI o elegeu arcebispo de San Salvador, assumindo em 22 de fevereiro. O clero não recebeu essa nomeação com entusiasmo, pois o tinha como bispo conservador e preferia o auxiliar Dom Artur Rivera y Damas (depois seu sucessor).

Pouco depois, em 12 de março de 1977, um acontecimento mexeu com todos os sentimentos humanos, espirituais e pastorais de Dom Romero: o assassinato de seu íntimo amigo, o jesuíta Pe. Rutílio Grande, pároco de Aguilares, com dois camponeses que o acompanhavam. Pe. Rutílio encarnara em seu ministério a opção pelos pobres de Medellín e se dedicava à formação de Comunidades Eclesiais de Base. Não concordava com seus colegas jesuítas da Universidade Católica, pois via sua teologia muito comprometida ideologicamente. A teologia da libertação de Pe. Rutílio era essencialmente fruto da reflexão do Evangelho junto aos camponeses, que se alegravam por descobrirem sua dignidade e capacidade de organização para fazer frente aos latifundiários que tomavam as melhores terras e exploravam sua força de trabalho.

Dom Romero chora a morte de Padre Rutílio Grande e de dois camponeses.

Dom Romero chora a morte de Padre Rutílio Grande e de dois camponeses.

Durante os funerais do Pe. Rutílio, Dom Romero fez ver o significado de sua morte, expressão de uma vida dedicada aos irmãos no amor ensinado por Cristo:

“Esperamos a voz de uma justiça imparcial, porque na motivação do amor a justiça não pode estar ausente, não há verdadeira paz e verdadeiro amor sobre o fundamento da injustiça, da violência e da intriga”. Muitas vezes repetiu isso: a paz, a verdadeira paz, somente pode ser construída sobre a justiça social”.

O martírio do amigo, cujo processo de canonização foi aberto em 2015, iluminou a vida cristã e episcopal de Dom Oscar Romero: após a noite inteira em vigília junto ao corpo do amigo Pe. Rutílio Grande, entendeu que os camponeses tinham ficado órfãos de pai. Era necessário assumir o lado dos pobres, dos camponeses, dos índios, o trabalho de reconciliação nacional e lhe tocava essa missão: nessa noite aconteceu sua “conversão pastoral”. Tinha consciência dos perigos que lhe estavam reservados, mas não tinha mais nenhum medo, ou então, nenhuma outra opção. Arriscando a vida, procurou as partes no conflito, governo e guerrilha. Conhecendo pessoalmente o presidente Arturo Molina, foi-lhe ao encontro, exigindo que investigasse o assassinato de Pe. Rutílio. Com riso de deboche, Molina apresentou-lhe os pêsames e disse que investigaria. Nada acontecendo, Dom Romero decidiu e comunicou que não participaria mais de nenhuma cerimônia oficial do Estado. E decidiu que, aos domingos, haveria somente uma Missa na catedral, para que ricos e pobres se encontrassem e escutassem sua mensagem em defesa dos camponeses.

Ao se reunir com o presidente Arturo Molina, este ainda lhe apresentou uma lista com os nomes de 30 sacerdotes que deveriam deixar o país, pois eram “subversivos”, ao que o arcebispo respondeu: “Os sacerdotes são intocáveis”.

O Arcebispo em fotografia com alguns diocesanos.

O Arcebispo em fotografia com alguns diocesanos.

Vida oferecida pelo povo

A partir dessa hora de dor pelo martírio do amigo, as homilias do arcebispo são sempre mais claras e proféticas. Num dia, seu irmão Gaspar pediu que ele amaciasse o tom, pois corria perigo e recebeu a reposta:

“Alguém deve falar que essa tragédia não pode continuar. De uma parte, o exército mata e incendeia povoados inteiros, de outra, a guerrilha… Devo intervir e dizer a minha verdade”.

El Salvador estava dividido entre duas violências: a do Governo e dos grandes proprietários e a da esquerda marxista, que reunia camponeses cansados de esperar e que viam no combate violento o único meio de dominar a violência estrutural.

De Roma, através do núncio da Costa Rica, Dom Romero recebeu a comunicação que queriam assassiná-lo. Paulo VI, paternalmente, lhe propõe um caminho: se a situação se tornasse muito perigosa, alegando doença poderia pedir transferência. Dom Romero respondeu: “Escolho viver aqui, porque é aqui que devo concluir meu apostolado. Se me matarem, já os perdoei a todos. Em todo caso, é aqui que devo morrer porque devo ressuscitar junto com meu povo”.

Evidente que a atuação profética do arcebispo mexia com a análise dos outros bispos, que julgavam a violência do governo o único caminho para destruir a guerrilha marxista, essa sim, o verdadeiro inimigo do povo. Roma também se equivocava no julgamento desse processo pois era manipulada por informações tendenciosas e maldosas de políticos, leigos e religiosos que lhe chegavam em quantidade impressionante, por núncios comprometidos com os regimes centro-americanos. No correr do tempo, em outubro de 1978 assumiu a Cátedra de Pedro o polonês Karol Woytilla, João Paulo II. Marcado pelo sofrimento da Igreja na pátria polonesa, imposto pelo regime comunista, foi levado a engano pelas informações que recebia de que a única violência era a marxista e a violência do Estado era para derrotá-la. Deste modo, combater a violência do governo significaria estar do lado do comunismo.

O Arcebispo redobrou seu empenho pessoal pelo povo que o procurava: gente influente pedia sua mediação pela libertação de um filho seqüestrado pela guerrilha, camponeses que pediam que encontrasse os filhos seqüestrados pelo exército, pobres que pediam pão e esmola, e ele procurava um modo de atender a todos.

A perseguição desencadeada pelo governo para calá-lo se intensificava: ameaças a seus familiares, desmoralização através de campanhas que diziam que ele escrevia as homilias sob o efeito do álcool, que tinha sido diagnosticado doente mental. O jornal La Opinion publicou que o arcebispo passaria por um exorcismo. Uma delegação de católicos de direita foi a Roma para denunciá-lo e pedir sua remoção.

Com toda essa campanha de difamação e ameaça, aumentava sempre mais a coragem e o amor de Dom Romero por seu povo. Se transfigurava a cada dia, o que podia ser constatado na simplicidade amorosa com que reunia as famílias, comia de sua feijoada, explicava o Evangelho. Ao mesmo tempo, no mesmo dia participava de reunião no Ministério do Exterior, recebia delegação da ONU e se transformava: falava com firmeza e com capacidade de líder experimentado.

As ameaças fazem sofrer seus familiares e alguns sentiam a necessidade de negar que fossem seus parentes ou amigos. Recebe cartas sempre mais ameaçadoras.

A noite escura do Arcebispo

Dom Romero sofre a noite escura dentro de sua Igreja: os irmãos no episcopado o abandonam, acusando-o de ser o responsável pelo recrudescimento da violência. Dom Lopes Trujillo, arcebispo de Medellín é porta-voz das acusações que chegavam a Roma. Dentro do Vaticano se encontram seus maiores opositores e difamadores, num primeiro momento levando João Paulo II a crer nas acusações. Chegavam a Roma pacotes de cartas contra ele, acusando-o de envolver-se na política, de seguir a teologia da libertação, de desequilíbrios de caráter.

Dom Romero sofreu o mau humor do Núncio e recebeu a visita de três Visitadores apostólicos que, com método inquisitorial, procuravam meios e informações que justificassem sua destituição. Sentiu imperiosa a necessidade de ir a Roma falar com quem sentia como seu pai, e que poderia estar sendo ludibriado, o papa João Paulo II.

Viajou em maio de 1979. Percebeu que a má vontade nos palácios apostólicos tramava contra a esperada audiência com João Paulo II. Ou era falta de horário, ou dificuldade de última hora, e nada do encontro. E soube que se tinha perdido (?) o ofício com que a solicitava. Dom Romero decidiu seguir um caminho pessoal: ao final da audiência pública de quarta-feira, tendo a oportunidade de cumprimentar o Papa, explicou-lhe a situação e teve a esperada data: 7 de maio de 1979. Munido de volumoso e minucioso dossiê sobre a situação de sua pátria, sentiu que o Papa o recebia com frieza, pois não tocou em nenhuma folha do dossiê, apenas o admoestou pela enorme quantidade de papel. Em seguida, Dom Romero mostrou-lhe a foto do Padre Octávio Ortiz, cruelmente assassinado em 20 de janeiro, quatro meses antes. A foto mostrava o sacerdote pouco depois de morto, com uma enorme corte no pescoço, uma machadada e com o rosto destroçado por um tanque que passou por cima. Dom Romero, mostrando-a, disse: “Mataram-no com tanta crueldade e disseram que era um guerrilheiro”. A essas palavras, o Papa respondeu, para espanto do Arcebispo: “E por acaso não era?”.

Seguiu-se um clima frio até o momento em que o Papa lhe disse, deixando-o de coração gelado: “Senhor arcebispo, deve-se esforçar-se para ter uma relação melhor com o governo de seu país. Uma harmonia entre o senhor e governo salvadorenho seria o mais cristão nesse momento de crise. Se o senhor superasse as divergências pessoais com o governo, poderia trabalhar cristãmente pela paz”.

Dom Oscar Romero teve a convicção de que o Papa estava acreditando nas informações que recebera de seus inimigos. Nada mais restava a fazer do que retirar-se. Na Praça de São Pedro derramou lágrimas de dor: seu trabalho e sofrimento para socorrer e defender os pobres não era caminho cristão. Assim suspeitava um Papa mal informado, mas que, depois, de certo modo tinha uma nova visão da realidade.

Em 30 de janeiro de 1980, esteve novamente em Roma e, desta vez, sentiu compreensão e carinho da parte do Papa. Assim escreveu em seu Diário pessoal: “Indo ao encontro com Dom Pironio, passei pela Secretaria de Estado para garantir, antes de tudo, a possibilidade de participar da audiência geral com o Santo Padre. […] Depois pude falar com o cardeal Pironio, numa visita muito breve, mas de muito encorajamento. Disse-me que ele mesmo queria me ver para me comunicar com alegria que a visita do cardeal Lorscheider tinha sido muito positiva e que o próprio Papa tinha recebido um relatório muito bom sobre o meu trabalho. O cardeal Lorscheider tinha dito ao cardeal Pironio que em El Salvador eu tenho razão, que a situação é muito difícil, e que eu via claramente as coisas e o papel da Igreja e que é preciso me ajudar. Suponho que esta seja uma síntese do relatório feito pelo cardeal Lorscheider sobre a sua viagem a El Salvador. Agradeci muito ao cardeal Pironio e até mesmo o encorajei, quando me disse que também ele tinha sofrido muito, por causa do seu esforço em favor dos povos da América Latina, e que me entendia muito bem. Citou-me uma frase do Evangelho à qual ele dá uma particular explicação: “Não temais os que matam o corpo, mas não podem fazer nada ao espírito”. Ele a interpreta no sentido de que, se os que matam o corpo são terríveis, certamente são mais terríveis os que atingem o espírito, caluniando, difamando, destruindo uma pessoa, e pensa que seja exatamente este o meu martírio, até mesmo dentro da Igreja, e que devo ter força”.

Após comentar a Catequese papal, fala das palavras que tinha escutado de João Paulo II: “Tive a alegria de me encontrar diretamente à sua direita e em seguida, enquanto nós bispos cumprimentávamos o Papa, disse-me que depois da audiência queria falar justamente comigo. […] Disse-me que “compreendia perfeitamente o quanto era difícil a situação política da minha pátria e que o preocupava o papel da Igreja; devíamos levar em conta não apenas a defesa da justiça social e do amor aos pobres, mas também do possível resultado de um esforço reivindicatório popular de esquerda, um resultado que pode se tornar, também esse, negativo para a Igreja”. Eu respondi-lhe: “Santo Padre, este é justamente o equilíbrio que procuro conservar, porque por um lado defendo a justiça social, os direitos humanos, o amor ao pobre, e por outro me preocupo sempre com o papel da Igreja, e em evitar que, para defender estes direitos humanos, caiamos depois nos braços de ideologias que destroem os sentimentos e os valores humanos”. […] Senti que o Papa concordava com o que digo e, no final, abraçou-me muito fraternamente e disse-me que reza todos os dias para El Salvador”.

Dom Oscar Romero e duas Missas interrompidas

Dom Oscar Romero continuou no caminho da justiça e na defesa de seu rebanho. Um caminho difícil, cheio de tensões, mas o único caminho que pode dar alegria ao pastor vendo a esperança brotar no coração dos pobres. Ele não era um político, muito menos um cristão subversivo ou um intelectual: “não me conhecem: eu sou um pastor”, escreveu em seu Diário. A fonte de sua inspiração no trabalho transformador eram os Evangelhos, a Gaudium et Spes e a Populorum Progressio.

Sua perseverança em meio a tantos conflitos preparou o tapete que lhe foi estendido naquela tarde de segunda-feira, 24 de março de 1980, pelas 18 horas, quando a tirania apresentou a conta: uma bala de fuzil furou-lhe o coração. Não mataram Dom Oscar Romero na rua, num atentado: quiseram assassiná-lo dentro da Igreja, quiseram calar a Igreja. Não foi um pagão que o matou, foi um cristão.

Últimos momentos de Dom Romero, ainda paramentado.

Últimos momentos de Dom Romero, ainda paramentado.

O povo sofreu dolorosamente a morte de seu pastor. Seu corpo ficou exposto na catedral durante quatro dias, visitado por mais de 250 mil pessoas. O mundo chorou o ato violento contra um homem frágil, cuja única força era o amor a Cristo e aos pobres. O Vaticano fez-se representar pelo Cardeal arcebispo do México, Ernesto Corrípio y Arrumada. Mal tinha ele iniciado a homilia, quando o exército mostrou sua face cruel: fez explodir uma bomba em meio à multidão, propagou-se o pânico pelo tiroteio e 42 pessoas morreram.

Com exceção do bispo auxiliar Dom Arturo Rivera y Damas, nenhum bispo de El Salvador estava presente.

Dom Oscar Arnulfo Romero não teve a graça de uma encomendação ritual. Em meio à confusão, bispos, padres e fiéis às pressas conduziram seu esquife à catedral e ali sepultaram rapidamente o arcebispo mártir.

Teve duas Missas interrompidas ao final da Liturgia da Palavra: foi martirizado no início da Apresentação das oferendas, e sua Missa exequial foi interrompida no início da homilia. Ele, que desde pequeno aspirava à santidade, que passava noites em vigília, concluiu sua existência terrena com a oferta de sua vida, unindo-a com a do Cristo ressuscitado, Pão de eternidade.

A verdade liberta e triunfa

A maioria do episcopado salvadorenho negou-lhe qualquer sinal de gratidão pelo trabalho heróico de Dom Romero. Quando, em 6 de março de 1983, João Paulo II visitou o país, não estava prevista nenhum visita a seu túmulo, mas o Papa fez questão de ir lá para rezar. Teve que esperar bons minutos até que se encontrasse a chave da Catedral. Era São João Paulo II em reparação.

Na preparação da celebração das Testemunhas da Fé, no Pentecostes do ano 2000, os bispos de El Salvador fizeram chegar o pedido para que se evitasse citar o nome de Dom Romero. João Paulo II, num de seus grandes gestos, acrescentou de próprio punho o nome de Romero no Oremus final.

Nesses anos operava em Roma um influente grupo de prelados que faziam o possível para resistir à canonização do arcebispo. No mesmo ano 2000, o Cardeal vietnamita Van Thuan orientou os exercícios espirituais ao Papa e à Cúria romana, e foi severamente criticado por ter incluído Dom Romero entre as grandes testemunhas da fé de nosso tempo e citado esse nome diante do Papa. Meses depois, quando as meditações foram publicadas em livro de grande repercussão, o nome de Dom Romero não apareceu em nenhuma citação.

Quando Bento XVI viajava para o Brasil, em maio de 2007, durante o vôo alguém lhe perguntou sobre Romero e o papa respondeu com uma pequena apologia do arcebispo assassinado, descrevendo-o como “uma grande testemunha da fé”, recordando sua morte incrível diante do altar e que era digno de ser beatificado. Novamente aconteceu o inusitado: mesmo tendo falado diante de telecâmeras, dezenas de gravadores, essas palavras foram apagadas nas versões oficiais da entrevista publicada na mídia do Vaticano.

Menos mal, em 2012 Bento XVI desbloqueou o processo de canonização, trancado em Roma havia 17 anos. Dom Romero não foi assassinado por questões políticas, como quiseram impor seus acusadores dentro e fora da Igreja. Foi martirizado in odium fidei, por ódio à fé cristã, e disso dá testemunho o tiro disparado dentro de uma igreja, com mensagem clara: atingir um cristão. A acusação de comunismo era uma “acusação fácil” que se fazia contra quem estava perto dos pobres, mas ele foi morto durante a Missa e não em casa ou na rua. “Queriam matá-lo no altar”, em ódio à fé. Podiam assassiná-lo com facilidade em qualquer noite, mas o fizeram numa igreja, durante um Missa.

009Dom Oscar Romero, o Santo da América

Dom Oscar Arnulfo Romero repousa em sua Catedral, vizinho à cátedra donde anunciou a justiça e denunciou a injustiça, e ali aguarda o dia da ressurreição final com seu querido povo. Seu túmulo é meta de peregrinação de ricos e pobres, dos fortes e dos fracos do mundo, desde a mais pobre viúva até o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que lhe acendeu uma vela e enviou mensagem para o dia da beatificação. Quatro anjos ladeiam seu túmulo, simbolizando os quatro Evangelhos que anunciou ao povo. A catedral anglicana de Westminster, em Londres, ergueu uma estátua sua como homenagem aos que deram a vida em defesa dos direitos humanos. A Assembléia Geral das Nações Unidas – ONU, proclamou o dia 24 de março – data da sua morte – como o “Dia Internacional pelo Direito à Verdade, em relação a graves violações e a dignidade das vítimas”, em honra ao mártir salvadorenho.

E chegou a vez da Igreja: reconhecendo-lhe o martírio em três de fevereiro de 2015, Francisco, o primeiro Papa latino-americano, marcou sua beatificação para o dia 23 de maio de 2015, véspera de Pentecostes. Diante de quase meio milhão de devotos, de centenas de cardeais e bispos, de chefes de Estado, foi proclamado bem-aventurado, e o povo cristão continuará a invocá-lo como São Romero da América. O arcebispo salvadorenho foi declarado bem-aventurado pelo primeiro papa sul-americano da história, que pede “uma Igreja pobre para os pobres”, o que foi o centro da ação de Dom Oscar Romero e causa de seu martírio.

Francisco assim sintetizou a identidade sacerdotal e pastoral de Romero quando o chama de “bispo e mártir, pastor segundo o coração de Cristo, evangelizador e pai dos pobres, testemunha heróica do Reino de Deus, Reino de justiça, de fraternidade e de paz”.

Seu quarto e escritório por diversos anos é agora visitado e dá testemunho de um Arcebispo pobre: a máquina de escrever, a cama, o rádio, o carro. Um peregrino mexicano, ao ver tamanha modéstia, perguntou: ¿Todo esto está intacto y era lo que ocupaba Monseñor? E recebe a resposta de uma religiosa carmelita: “Todito”.

Anos atrás, uma jornalista foi visitar seu túmulo e viu um homem devotamente limpando a tumba do arcebispo. Perguntou-lhe por que fazia aquilo, e o homem respondeu: “Porque ele era meu pai”.

Pe. José Artulino Besen


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  1. #1 por Pe. João Manoel em 23 de maio de 2015 - 16:59

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