OS 28 MÁRTIRES DA IGREJA ETÍOPE – JAMAAL RAHMAN

Procissão de Sexta-feira Santa na Igreja etíope (04/2015)

Procissão de Sexta-feira Santa na Igreja etíope.

No dia 19 de abril de 2015, terroristas islâmicos executaram, nas costas da Líbia,  28 cristãos da Etiópia por um motivo: crerem em Jesus Cristo, e preferirem a morte à traição da fé.

Pouco nos recorda essa antiqüíssima Igreja, a Ortodoxa etíope. Foi fruto da missão de dois irmãos,  leigos, Frumêncio e Edésio. Devido a um naufrágio, aportaram no território do Império de Axum, hoje Etiópia. Sua inteligência tornou-os merecedores do respeito da casa real e da população. Aproveitaram e anunciaram o Evangelho que professavam. Anos depois, Frumêncio sentiu a necessidade de bispos e sacerdotes para constituir a Igreja. Dirigiu-se a Alexandria e foi recebido pelo Patriarca Atanásio, a quem pediu o envio de um bispo para os etíopes. Santo Atanásio respondeu-lhe que não teria pessoa mais indicada do que ele para constituir a hierarquia, e assim ordenou Frumêncio primeiro bispo da Igreja da Etiópia.

Estamos no século IV, período em que a catolicidade não sofria ainda divisões dogmáticas. No século V, porém, após o Concílio de Calcedônia (451) o Patriarcado de Alexandria não aceitou a definição de uma pessoa e duas naturezas em Cristo, mas insistiu em uma natureza e uma pessoa, razão pela qual se separaram de Roma e de Constantinopla, recebendo o nome de “Monofisitas”, ou unitaristas. Concretamente, era uma divergência de palavras, pois para Alexandria pessoa e natureza eram a mesma realidade e não podiam aceitar duas pessoas em Cristo, o que é bem claro. Como a Igreja da Etiópia estava ligada à de Alexandria, também passou a ser monofisita, até hoje. Houve outras divisões na Igreja devido a problemas lingüísticos e culturais e essa, que envolveu Alexandria, Antioquia e Jerusalém foi uma: professavam a mesma fé, mas com linguagem diferente.

A Igreja ortodoxa etíope representa o único caso de uma Igreja apostólica sem influência européia e constituiu uma síntese original entre a antiga tradição cristã do Oriente e a realidade africana. Desde o ano de 2013 seu Patriarca é Abbuna Mathias, que reúne numa só fé 50 milhões de católicos etíopes, diversas vezes provados pela perseguição violenta, pela fome e pela pobreza, mas na fidelidade ininterrupta.

A Igreja etiópe acompanhou seu povo em todos esses séculos de história, em todas as perseguições. Seu enraizamento na cultura etíope é uma das razões. Levar uma cruz nas mãos é um sinal característico. É uma Igreja e um povo únicos: têm alfabeto e calendário próprios, o ano com 13 meses, a contagem do dia tem início ao amanhecer. A liturgia é celebrada desde o século V na língua ge’ez, com as homilias proferidas em amárico ou tigrino, línguas oficiais.

Há forte acentuação no Antigo Testamento, cujos livros são mais usados, incluindo como canônico o Livro de Henoq. Uma nova igreja somente será aberta para os ofícios divinos quando nela se colocar uma réplica da Arca da Aliança com as duas Tábuas da Lei, guardadas num local sagrado onde somente os sacerdotes entram.

Na alimentação, seguem preceitos mosaicos com relação aos alimentos puros e impuros, e ao modo de matar os animais para consumo. Os dias de jejum são os mesmos do Antigo Testamento. O batismo é celebrado com água trazida do rio Jordão e a Menorá ocupa lugar de honra.

Por que essa ligação com o judaísmo? Uma causa vem lá do Antigo Testamento (1Re 10, 1-13), quando a Rainha de Sabá foi visitar Salomão em Jerusalém, e dele trouxe um filho na barriga. Esse, para os etíopes,foi a origem da dinastia etíope (até 1974, quando a monarquia foi abolida). O filho nascido dessa visita quis conhecer o pai Salomão, e teria furtado a Arca da Aliança, escondendo-a em Axum. No Novo Testamento, lemos que Filipe evangelizou e batizou o eunuco da Rainha de Candace (At 8, 26-40), assim unindo a história etíope à tradição mosaica e à cristã.

Poderíamos perguntar: é uma Igreja cristã? Evidente, uma grande Igreja apostólica, mas numa tradição própria no campo disciplinar e litúrgico, com o sentido penitencial forte unido às muitas cores nas vestes e ícones ao gosto africano.

A Etiópia, no corno da África, perto do Mar Vermelho, é testemunha viva de mais de três mil anos de história ininterrupta. Já teve os nomes de Sabá, Axum e Abissínia, mas o mesmo povo, negro, corajoso, fiel, sofrido. Ela tem orgulho de ser o berço da raça humana, pois nela foi encontrado o mais antigo fóssil do Homo Sapiens que depois se espalhou pelo mundo. Os bispos etíopes falam com justo orgulho: “Os judeus se tornaram uma nação após sua migração para a África”. “Nosso Senhor Jesus Cristo veio para a África como um refugiado e voltou ao seu lugar de nascimento depois de receber boas-vindas dos africanos. Foram africanos os primeiros cristãos perseguidos espalhados por países vizinhos por causa de sua fé, e espalhar a sua fé em Jesus Cristo. Os primeiros muçulmanos vieram à Etiópia em torno de 615 p.C e pregaram a religião muçulmana na Etiópia”.

Cristão etíopes levados para o martírio (05/2015)

Cristão etíopes levados para o martírio.

Os pobres sofrem o martírio por serem cristãos

No dia 21 de abril, terroristas islâmicos divulgaram um vídeo com a execução de 28 cristãos etíopes. Eram homens e jovens pobres, atraídos pelo sonho de embarcar clandestinamente nas costas líbicas e aportar na Itália. A mesma peregrinação dos pobres africanos, muitos deles sepultados no Mediterrâneo. Como todos os migrantes, tinham vendido seus bens para pagarem os traficantes, sonhavam com um futuro e, após extenuante e sofrida viagem estavam perto de embarcar na costa líbica. Mais um pouco e iniciaria o êxodo marítimo, mas a violência jihadista os aprisionou e conduziu à beira-mar em meio a humilhações para o local da execução.

Por que esses 28 etíopes e não outros? Porque eram cristãos e, afirmaram os assassinos, devemos destruir o politeísmo na terra e os cristãos etíopes são hostis ao islamismo. Não é verdade, pois a convivência na Etiópia é exemplar.

Num comunicado, assim se expressaram os bispos: “Esses mártires etíopes que foram massacrados na costa e no deserto da Líbia não eram políticos, nem soldados, eles não eram pessoas armadas, consideradas perigosas para a segurança, mas eles eram jovens migrantes inocentes, esperançosos de um futuro melhor no outra extremidade do local de destino, capaz de transformar suas vidas, as vidas de seus familiares e até mesmo contribuir para a melhoria do país de seu destino”. Morreram porque eram cristãos.

Mas, foram 29 os mortos, e por que escrevo 28? É uma história comovente a de Jamaal Rahman: tinha subido da Etiópia para a Líbia com um amigo cristão. Ele era muçulmano. No momento da prisão do amigo, não quis abandoná-lo e se ofereceu como refém em seu lugar. Com isso, pensava, talvez os dois seriam libertados. Não foi o que aconteceu: os jihadistas se enfureceram, pois somente um apóstata se ofereceria para libertar um cristão, afirmaram. E assim, Jamaal Rahman foi morto com seu amigo, unindo sangue cristão com sangue muçulmano. Duas testemunhas da fé que deve unir, 29 mártires.

Jamaal Rahman, deu a vida por seu amigo (2015/04)

Jamaal Rahman, deu a vida por seu amigo.

Jamaal recorda São Maximiliano Kolbe, que se ofereceu para morrer no lugar de um chefe de família condenado à morte no campo de concentração de Auschwiz. Como Maximiliano, Jamaal Rahman deu testemunho de que “ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13).

Com tantas mulheres e homens sendo mortos por causa de sua fé em Cristo, a igreja hoje é uma Igreja de mártires, disse o Papa na Missa em 21 de abril. “O sangue de nossos irmãos e irmãs cristãos é um testemunho que grita para ser ouvido por todos os que ainda sabem distinguir entre o bem e o mal. E muito mais, esse grito deve ser ouvido por aqueles que têm o destino dos povos em suas mãos”, escreveu Francisco em mensagem de 20 de abril  dirigida ao Patriarca Abbuna Mathias, da Igreja Ortodoxa etíope.

Dizendo que com grande angústia e tristeza foi informado da violência chocante perpetrada contra cristãos inocentes na Líbia, assegurou ao Patriarca sua “proximidade na oração, no martírio que continua sendo tão cruelmente infligido aos cristãos na África, no Oriente Médio e algumas partes da Ásia. Não faz diferença se as vítimas são católicas, coptas, ortodoxas ou protestantes. O seu sangue é uma e a mesma coisa em sua confissão de Cristo”.

Com sua mensagem, Francisco fala do ecumenismo do sangue, que une os que professam Cristo como Senhor e, em outro tom, Jamaal Rahman testemunha o diálogo religioso de sangue, fruto da coragem de crer em Deus. Numa altura em que os cristãos em todo o mundo ainda estavam celebrando a alegria da Páscoa, ele disse: “Nós sabemos que a vida que vivemos no amor misericordioso de Deus é mais forte do que a dor que todos os cristãos sentem, uma dor compartilhada por homens e mulheres de boa vontade, em todas tradições religiosas”.

O sangue dos mártires é semente de novos cristãos (Tertuliano) e faz brotar cristãos sempre mais convictos e verdadeiros.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Alexandre Borges em 26 de abril de 2015 - 19:32

    Caro pe. José, obrigado pelo artigo. O mal vem se tornando cada vez mais banal. Entrando em nossas casas como notícias corriqueiras. A teologia também deve abraçar o problema da teodicéia. A cada evento que fere a dignidade da pessoa humana nos perguntamos, como fizeram os algozes de Jesus, “onde está Deus? Se és o Filho de Deus, desce da cruz…”. E embora sua pergunta tenha sido de escárnio, revelava a angústia humana diante da dor. Onde está Deus quando há o mal? Guerras, 11 de setembro, assassinatos, mortes, estupros, acidentes… e a pergunta segue: “onde está Deus”? Victor Frankl relata um acontecido no campo de concentração. Depois que algumas pessoas foram mortas, inclusive crianças, enforcadas em uma cerca, como represália a uma tentativa de fuga, um judeu teria perguntado a outro: “onde está Deus?”. Ao que o outro respondeu: “Ali, pendurado na cerca”. Essa resposta pode ser a confirmação que os niilistas esperavam, mas também a confirmação da verdade Cristã de que na cruz estava morto o Filho de Deus (para são João, o crucificado é já o ressuscitado), e doravante todos os que morrem em Cristo é Cristo que neles morre para ressuscitar todo aquele que nele crê. Que a força do ressuscitado, que é força de Vida, nos mova a todos para a vida interior e que dali lancemos redes ao profundo da dor humana e com Cristo ajudemos a salvar vidas que perecem.

  2. #2 por José Artulino Besen em 4 de maio de 2015 - 09:50

    Caro Alexandre: você enviou a mim e aos leitores do blog uma belíssima e tocante meditação sobre o mistério da Cruz, sofrimento e redenção. Sempre será um mistério a cruz que tem origem no pecado e a cruz que lava o pecado. Os mártires nos oferecem um gesto de gratuidade: dar a vida por um grande amor. Muito obrigado

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