A ENCARNAÇÃO CRISTÃ E A PERVERSÃO DO FACEBOOK

Katrina 2005

Katrina 2005

Na proximidade da Semana Santa faz bem recordar o realismo do Tríduo Pascal, da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor: há dois milênios não se desenrolaram acontecimentos poéticos, emotivos e estéticos no Getsêmani e no Calvário. O que houve naqueles três dias envolveu ceia de amor, traição de amigos, prisão, chicotadas, humilhação, tortura, sangue ressequido, poeira e suor mal cheirosos, um Homem deformado, derrotado, solitário na dor, crucificado, morto, sepultado e tudo isso transfigurado na glória da Ressurreição. Foram gestos de amor retribuídos com gestos de abandono, foi o gesto da doação total por amor.

Na Semana Santa é revelada a lógica da encarnação: a Palavra de Deus se fez Carne para habitar entre nós. Nos primeiros séculos, cristãos sentiram dificuldade de aceitá-la e tiveram duas tentações: a gnóstica, querer reduzir a salvação ao conhecimento dos mistérios celestes, e a tentação docetista, afirmando que o sofrimento de Cristo foi aparente, para dar o exemplo mas, na verdade, o Filho de Deus foi crucificado só de brincadeira. Os gnósticos elaboravam uma teologia intelectual, os docetistas, uma teologia higiênica. Isso aconteceu, e acontece, porque é extremamente difícil aceitar a humanização de Deus e o sofrimento humilhante do Filho.

Os pobres não têm essa dificuldade: eles entendem perfeitamente o amor de Deus Pai que sofre por nós, veneram com carinho e empatia as imagens dolorosas de Jesus e de sua Mãe, derramam lágrimas contemplando o Calvário e ouvindo o relato da Paixão. Os gnósticos logo dirão que é porque são ignorantes, sentimentais, não estudaram; os docetistas afirmarão que os pobres confundem Deus com suas misérias, que não sabem que ele é perfeitíssimo, cheirosíssimo, todo-poderoso para salvar sem apanhar de criminosos. Apenas esquecem que, se a Igreja é desprezada pelos pobres, não é mais a Igreja de Deus.

Levar a sério a encarnação do Verbo supõe a humildade de escutar o Evangelho revelado aos pobres e humildes, sem querer fazer prevalecer a mentalidade dos sábios e entendidos. Jesus percebeu que os doutores e mestres não o seguiam, por achá-lo um simplório arrogante, percebeu que estava rodeado pela escória social, física e moral da sociedade. Por onde andava, vinham a seu encontro os rejeitados de Israel e aqueles que aprendiam a percorrer o mesmo caminho. Jesus não lamentou: ele prorrompeu num grito de alegria e de louvor porque assim o Pai estabelecera e era conhecido na verdade do amor.

A Liturgia da Igreja expressa a essência da Igreja: ela é gnóstica quando é transformada em linguagem rebuscada, explicações complexas, endoutrinamento; ela é docetista quando esconde o mistério da fé e da encarnação atrás de máscaras luxuosas, troca o ministro de um Cristo nu por um ministro enfeitado.

Exílio e fuga na Europa do século XX.

Exílio e fuga na Europa do século XX.

A perversão gnóstica facebukana

O papa Francisco, cujos dois anos de pontificado celebramos com gratidão, insiste que a essência da identidade cristã significa confiar no Cristo e ser chamado a tornar-se amigo de toda pessoa de boa vontade independentemente de sexo, etnia, nação e religião, procurar amigos fora do grupo de gênero, nação, classe e religião. É contemplar em todos a face do mesmo Senhor que vê em cada face a própria face: tudo o que fizerdes a um dos pequeninos é a mim que o fazeis. Os gnósticos e docetistas não gostam de Francisco, porque ele é muito humano para o gosto deles, não tem o esprit de role, a cara do ofício: fala o que todos entendem e se apresenta como um conhecido da família.

A identidade cristã está sendo atacada pela mentalidade do Facebook, onde também a identidade humana está sendo pervertida, no sentido que não estabelece relacionamentos verdadeiros, carnais, mas apenas virtuais: amizades virtuais, pregação virtual, sexo virtual, namoro virtual, ódio virtual, humor virtual. O Facebook é uma busca de se afirmar e vencer a solidão e, ao mesmo tempo, aprofunda a solidão. A publicação de fotos que são retribuídas por kkk, legal, bjs, ops,esconde outra realidade, não virtual: poucos querem ver minha foto, poucos me vêm visitar, eu visito quase ninguém. E assim criam-se ilusões de solidariedade e amizade, e perversões de relacionamentos: desenho lágrimas sem nenhum sentimento, expresso ternura sem enternecimento, faço sexo mais simples e rápido, pois não necessita de envolvimento, esforço, encerro namoro e noivado com um Face ingrato, covarde.

A mentalidade facebukana corre o risco de perverter também a identidade cristã – o mesmo valendo para a Internet e a TV: quero levar o Evangelho sem sair de casa, converter o pecador sem passar o bálsamo da compreensão em seu pecado, confortar e consolar o que sofre sem envolvimento, unir um casal sem sentir o cheiro de seus dramas. Tudo fica fácil e ainda fico famoso e recebo um bom dinheiro. Mas tudo é virtual, não é cristão.

Os anjos podiam ter anunciado aos pastores o nascimento do Menino apenas com sua força espiritual, mas não, os pastores deveriam ir no estábulo e lá ver o Menino. Deus podia salvar-nos pela Lei que ameaça, mas não, escolheu a via da encarnação, do amor  humilhado até a morte de cruz.

Claro, os mídia são excelentes apoios para auxiliar a comunicação, denunciar a violência, fazer campanhas de solidariedade, conversar com amigos, porém, não podem suprimir aquilo que define o relacionamento humano: procurar um rosto, contemplar e tocar um rosto e, para os cristãos, ver o rosto real de Deus em cada rosto real do próximo.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 23 de março de 2015 - 11:55

    Padre José Artulino Besen, obrigado pelas excelentes matérias.

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