SANTA TERESA DE ÁVILA, FONTE INESGOTÁVEL

Santa Teresa de Jesus - Pieter Rubens.

Santa Teresa de Jesus – Pieter Rubens.

Nascida em Ávila, Espanha em 28 de março de 1515, há 500 anos, a vida e a obra de Teresa de Jesus estão longe de esgotar o trabalho de pesquisadores e intelectuais, de místicos e de autores espirituais, de crentes e descrentes. Que mulher é essa que, numa noite, transformou a vida de Edith Stein? Filósofa judia, atéia, numa noite de insônia tomou o livro que lhe estava às mãos o Livro da Vida de Teresa, e não parou enquanto não terminasse a leitura que, completada, a fez exclamar: “Esta é a verdade”. A partir desse momento Edith era crente, católica, ingressou no Carmelo e terminaria seus dias no Campo de Concentração de Auschwitz,, e continua na Igreja como Santa Teresa Benedita da Cruz.

O Livro da Vida de uma monja carmelita tem tanto de sedutor e de profundidade para continuar a atrair a procura espiritual, literária e psicológica do homem moderno, fazendo o psicanalista Jacques Lacan defini-la como a “única psicóloga”, juntamente com São João da Cruz, e consumir anos do tempo da renomada escritora Júlia Kristeva que lhe estuda toda a obra e publica em 2008 o monumental Thérèse mon amour ? Acrescentando que Kristeva é descrente, aumenta o espanto e a admiração.

Mas, nada disso importa. O importante é conhecer essa mulher espanhola, mestra na língua de Castela, patrona dos escritores espanhóis, reformadora do Carmelo, Santa e inspiradora de Santos e Santas.

Quando Teresa ingressou no Carmelo tinha como objetivo uma vida em comunhão com Deus, mas, sua primeira experiência não foi positiva: muita conversa, vaidade, muita distração no parlatório quando, pela tarde, os moços de Ávila vinham passar o tempo a conversar com as monjas. Partindo de sua vocação, Deus inspirou-lhe o início da reforma da vida carmelitana, de modo que cada Carmelo fosse um jardim de amizade entre as irmãs e entre elas e Jesus. Teresa deixa o Carmelo de Ávila e, em 1562, fundou o primeiro Carmelo reformado, fora dos muros da cidade: pequeno, com o número ideal de 12 irmãs, um jardim, simplicidade. E cruzou a Espanha fundando outros, sempre acompanhada pela intercessão e pela “gerência” de São José.

Cinco anos depois,em 1567, teve um encontro decisivo: com o neo-sacerdote João da Cruz, o príncipe da teologia mística. Foram feitos para se entenderem e tem início a amizade profunda entre os dois reformadores. Teresa impressiona: move-se em meio a ardentíssimos arrebatamentos místicos e ocupações práticas do dia-a-dia, que dela fazem a santa do bom senso, uma contemplativa imersa na realidade. Ela possui a chave para entrar no Castelo Interior da alma, “cuja porta de ingresso é a oração”, mas, ao mesmo tempo, sabe tratar de matérias econômicas, porque, para cada Carmelo que funda tem de comprar o terreno e a construção. “Teresa”, diz ela argutamente, “sem a graça de Deus é uma pobre mulher; com a graça de Deus, uma força; com a graça de Deus e muito dinheiro, uma potência”.

Ficou conhecida como “La Andariega”, a freira andarilha. Teresa foi também mulher de sorte: sua obra teria sido impossível com as determinações emanadas após o Concílio de Trento, que reduziu a vida religiosa feminina à clausura fechada. Como poderia percorrer a Espanha fundando Carmelos se deveria ficar na clausura? Evidente que estamos mergulhados num plano divino para a história.

Mulher forte e além de seu tempo

Com sua reforma, Teresa sofreu muito, muita calúnia, incompreensão, perseguição por parte de carmelitas da antiga Ordem e do Tribunal da Inquisição. Esta não via com bons olhos essa mulher andarilha que escrevia muito sobre vida espiritual e, para mais espanto ainda, que falava de vida mística, de união com Deus, êxtases. Para os carcomidos inquisidores, mulher mística era igual a mulher histérica. Teresa tinha de submeter seus livros à censura inquisitorial: para sorte nossa, seu Livro da Vida, o mais belo exemplar literário de autobiografia, foi reescrito de memória, pois o original não foi devolvido pelo escandalizado censor.

Preocupada diante de uma acusação de heresia, recebeu de Nossa Senhora uma palavra forte que, na linguagem popular, seria: “Não te preocupes. Esse caso eu assumo!”. Caso resolvido, pois quando o Senhor dá o carisma oferece também o advogado. Teresa teve muito jogo de cintura, capacidade de enfrentar situações conflitivas, diferente de João da Cruz, que três vezes foi condenado à prisão.

Teresa teve a graça de encontrar a língua espanhola num estágio bastante evoluído – a língua de Castela, caso contrário, não teria o vocabulário próprio para expressar suas visões, êxtases, sua pedagogia da oração no Caminho da Perfeição, o Castelo Interior, nos quais as figuras de linguagem ocupam lugar de relevo. Muito das incompreensões pelas quais passaram e passam os místicos provém da linguagem com que expressam sua experiência religiosa e de nossa incapacidade de entender-lhe o significado: a mística se expressa em linguagem própria. Cito dois casos recentes: Padre Pio foi considerado neurótico e desequilibrado mental, os escritos de Faustina Kowalska frutos de mente perturbada e neurótica. E hoje, temos São Pio e Santa Faustina. Teresa teve às mãos o nascente barroco que ela enriqueceu com contribuição pessoal, e expressa os êxtases com poderosas figuras de imaginação.

Após sua morte, em 4 de outubro de 1582, teve início um trabalho metódico de purgação de seus escritos, para que fossem o mais “católico” possível. Por católico se entende a doutrina da Contrarreforma, e era conveniente fazer da grande Teresa d’Ávila um modelo da Igreja da Contrarreforma. A partir dos escritos purgados, emerge uma monja obediente, absolutamente aderente à cultura contrarreformística fechada e agressiva para o exterior: assim, era reapresentada como inimiga acérrima dos luteranos, dos quais não sabia quase nada, e de qualquer comportamento que não fosse o estabelecido e aceito pela Igreja.

 E, desse modo, foi canonizada em 1622, numa cerimônia apoteótica em que se lhe juntou Santo Inácio de Loyola e São Filipe Neri, o trio da Contrarreforma. Mas, Teresa teve canonização exemplar porque, pela primeira vez, a santidade era medida pelo exercício heróico das virtudes, e não somente pelas provas de capacidade miraculosa. Nisso foi pioneira: a primeira mulher canonizada pelas suas virtudes. E também, como mulher, foi a primeira a ser declarada Doutora da Igreja, em 1970, por Paulo VI.

A imagem verdadeira de Teresa passou a ser mais bem conhecida em 1946, quando a tradição histórica recebeu uma sacudida pelo trabalho do erudito Narciso Alonso Cortés, que encontrou no arquivo de Valladolid os documentos que provavam, acima de qualquer dúvida, a origem judia da família de Teresa. Aparecem o processo do avô de Teresa, acusado de ser um marrano (judeu), sua condenação a desfilar com um sanbenito (ponche amarelo com cruz pintada, sinal de infâmia) pela cidade de Toledo e a sucessiva transferência a Ávila, cidade menos importante, mas onde era menos conhecida essa desonra, à que segue a compra de um certificado de limpeza de sangue para fazer esquecer as origens e resgatar a honra da família. Com isso, a “nobre” Teresa de Cepeda y Ahumada é descoberta como uma simpática “Teresa Sánchez”, sobrenome judeu tão corriqueiro como Silveira. Ironia da história: pelas leis da Igreja Teresa não poderia ingressar na vida religiosa, pois tinha sangue infectado.

Santa Teresa e São João da Cruz

Santa Teresa e São João da Cruz

Teresa, mulher de liberdade interior

 A partir dessa descoberta, e com meticuloso trabalho de restauração de seus verdadeiros escritos, sem as censuras, Teresa é olhada de modo diferente, ganha luz própria e se começa a ler com outros olhos a resposta dada ao superior dos Carmelitas que a interrogava sobre seus nobres antepassados. Teresa teria respondido que “lhe era mais duro ter cometido um pecado venial do que se fosse descendente dos mais vis e mais baixos vilões e conversos do mundo”.

Deixa de ser apenas a devota e doce Santa Teresa para se revelar um dos primeiros exemplos de “palavra de mulher”. Não só enfrentou com ironia e sabedoria sua condição feminina, mas antecipou também uma das bandeiras das feministas: a presença de mulheres no Novo Testamento. É realista, porém: “A experiência me ensinou o que é uma casa cheia de mulheres. Deus nos livre deste mal”.  Diante de mais uma réplica da única frase de condenação, a de São Paulo proibindo as mulheres de falarem na Igreja e as reduzia à clausura, replica escrevendo: “Significa dizer que não se agarrem a somente uma parte da Escritura, mas olhem as outras, para ver se podem por acaso prender-me as mãos”. De outro modo: leiam a Bíblia inteira, não apenas um versículo.

Teresa não tem o dualismo da contra-reforma, que despreza o corpo, o mundo: “Não somos anjos, mas temos um corpo”, e “ama o Senhor como homem”. O corpo ocupa seus êxtases, suas emoções espirituais. Seu comentário bem humorado olhando o retrato que dela fizera Fray Juan de la Miséria: “Deus te perdoe, Frei Juan, pois me pintaste feia e acabada”.

Há unidade entre espírito e corpo, entre terra e céu: “A alma desfalece de desejo de unir-se com Jesus e, contudo, não sabe pedir porque sente claramente que o seu Deus está com ela” (Castelo Interior). O Senhor não está do outro lado, mas nela, e isso provocou o mau humor da Inquisição.

Há liberdade interior, intimidade com o Rei. Teresa aconselha as Irmãs a jogarem xadrez nos mosteiros, se bem que o jogo não fosse permitido no regulamento, e isso “para dar um xeque-mate neste Rei divino”  (Caminho de Perfeição). Uma teimosia que lembra a fórmula de Meister Eckhart: “Peço a Deus que me deixe livre de Deus”.

Alguns gostam de vê-la como precursora das mônadas de Leibniz: “Compararei a Divindade com um diamante muito maior do que o Universo. Todas as nossas ações se refletem n’Ele, porque Ele encerra todas as coisas, tanto que fora da Sua amplitude nada existe”.  Somente uma mística pode viver a experiência de estar totalmente em Deus, fora de Deus, diante de Deus, infinitamente unidos e infinitamente separados.

Em Teresa, o amor atinge a perfeição da gratuidade, despido que está de qualquer interesse que o de amar:

Não me move, / Senhor, para Te amar / O Céu que me prometestes, / Nem me move o inferno tão temido / Para deixar, por isto, de Te ofender. / …  / Move-me, enfim, o teu amor. / E de tal maneira, / Que ainda que não houvesse Céu, / eu Te amaria; / E ainda que não houvesse inferno, / eu Te temeria. / … /  Nada tens que me dar / para que eu Te queira, / Pois, mesmo que eu / não esperasse o que espero, / O mesmo que Te quero, / Eu te quereria  (poema Não me Move).

E também na expressão: “Ou morrer, ou sofrer” (nessa ordem): ou morrer para ver Deus ou sofrer no serviço à Igreja. Ou Deus me leve ou me dê a vocação do serviço.

Teresa viveu intensamente a amizade com Jesus, toda sua obra reformadora foi para tornar os Carmelos jardins onde se cultivasse a amizade com o Rei. Sua vida foi consumida em buscar a face de Deus e experimentar seu amor. Morreu em Alba de Tormes na noite de 4 de outubro de 1582, aos 67 anos. Após ter recebido os sacramentos, sua última frase foi um suspiro de júbilo: “Oh, Senhor, por fim chegou a hora de nos vermos face a face!”.

Obs.: o presente texto pode ser completado com a leitura do Santa Teresa de Ávila ou só Deus basta.

 Pe. José Artulino Besen

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