FRANCISCO E OS CARDEAIS DAS PERIFERIAS

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Sábado, 14 de fevereiro, na basílica de São Pedro, Francisco presidirá seu segundo Consistório Ordinário Público, no qual criará 20 novos Cardeais, anunciados por ele em 4 de janeiro, aos quais imporá o barrete cardinalício, entregará o anel e designará o Título ou Diaconia romana. Serão 15 Cardeais eleitores e 5 eméritos, ou seja, que já atingiram os 80 anos e não participarão de futuro Conclave. Dessa forma, o Colégio cardinalício passa a contar com 125 Cardeais eleitores, ultrapassando em 5 o limite de 120. O número logo sofre alteração, pois outros Cardeais atingirão os 80 e, além disso, o Papa é livre para as escolhas.

Francisco se refere com carinho aos 5 Cardeais eméritos: “são conhecidos por sua caridade pastoral no serviço à Santa Sé e à Igreja, e representam tantos bispos que, com a mesma solicitude de pastores, deram testemunho de amor a Cristo e ao povo de Deus nas Igrejas particulares, na Cúria romana, no serviço diplomático da Santa Sé”.

Esse Consistório revela claramente que Francisco redimensiona o Colégio e dá mais atenção às periferias, sem automatismo com relação às sedes mais ambicionadas, as assim chamadas “sedes cardinalícias” cujo titular tinha certeza de receber o barrete num Consistório. A universalidade da Igreja não pode estar condicionada a tradições históricas, é a mensagem clara. Não existem dioceses ou bispos mais importantes e o Cardeal é um amigo fraterno de Francisco, conselheiro e não um príncipe distante ou cortesão.

Na sua decisão de ouvir as Igrejas espalhadas pelo mundo, especialmente as Igrejas de fronteira, de missão, do “fim do mundo”, o Papa surpreendeu: como no Consistório anterior, abandonou o costume de considerar Sedes diocesanas como cardinalícias por tradição histórica – como exemplo Veneza, Turim, Salvador, o que dava margem ao carreirismo, lepra da Igreja em suas palavras, com bispos procurando criar zonas de influência para serem nomeados para essas sedes, e depois serem feitos cardeais. Desse modo, a eleição do papa ficava condicionada a esses eleitores, geralmente de sedes maiores e européias.

Francisco usa sua autoridade para fortalecer a Igreja missionária e pobre, cujo espírito e programa explicitou na Evangelii Gaudium.  O futuro papa será um bom pastor voltado para o mundo pobre e missionário, e não condicionado a repetir o modelo de Igreja marcado pelo mundo europeu.

No Consistório anterior, escolheu para primeiro Cardeal do Haiti não o arcebispo da capital, mas um humilde bispo da distante e pobre Les Cayes. No Consistório dessa semana, os 15 Cardeais eleitores são originários de 14 países: um do Uruguai, há bastante tempo sem cardeal e, pela primeira vez, 3 das Igrejas sofridas e missionárias do Cabo Verde, Tonga e Myanmar (Birmânia) e, também pela primeira vez, do Panamá . O Papa não levou em conta a importância ou o número de católicos destas nações, porque seu interesse é ouvir o que acontece nessas Igrejas distantes. No clima anterior, os bispos “importantes” falavam para a Igreja universal; agora, os bispos distantes falam e possuem uma palavra nova para as Igrejas historicamente estabelecidas.

Francisco, latino-americano, sentiu o que era estar condicionado à teologia e pastoral eurocêntrica e sabia da vivacidade das Igrejas do mundo periférico. Também não se sente obrigado a criar Cardeais pelo fato de trabalharem na Cúria romana, com exceção das Sagradas Congregações, pois sabia como cardeais curiais tinham a ousadia de ditarem regras para os bispos diocesanos, de esconderem do papa informações das Igrejas que não brilhavam pela teologia, pelo número de doutores, mas espelhavam a alegria, a criatividade e o heroísmo do Evangelho vivido no seguimento de Jesus de Nazaré.

Como jesuíta cujo sonho da juventude foi ser missionário no Japão, Francisco tem o coração na Ásia, no imenso Continente das grandes religiões, Continente misterioso cuja sabedoria ancestral desfia a missão cristã. Suas Viagens apostólicas, que são um claro modelo pastoral, o fizeram estar na Coréia do Sul, no Sri Lanka, nas Filipinas. É claro seu amor pela China, pela Igreja sonhada por São Francisco Xavier. Na Europa visitou a pobre Albânia e visitará Seravejo na Bósnia. Neste ano visitará a África e a América latina. Será o primeiro papa a falar no Congresso norte-americano, dirigindo-se aos deputados e senadores em 24 de setembro, fazendo sua a voz das vítimas do sistema econômico cujo deus é o mercado.

Escolhendo como seu lugar estar do lado dos pobres, o Papa quer escutar o que o Espírito diz às Igrejas. Decidiu ser solidário na causa da justiça e da paz, despertar as imensas energias que pulsam no coração das comunidades cristãs, dos doentes, pobres, idosos, jovens e crianças. O rico Norte do mundo já falou o suficiente: deve aprender a ouvir e ver o Sul. O desafio posto aos cristãos não é somente doutrina e teologia, como talvez pensam os romanos, mas é despertar a vida no seguimento evangélico de Jesus.

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Os Cardeais de Francisco, pastores das periferias do mundo

No Consistório de 14 de fevereiro o Papa criará apenas um Cardeal curial, pois sua opção é pelos pastores das periferias do mundo. Segundo John Allen, vaticanista do Boston Globe, “a maneira como Francisco está modificando a sociologia do Colégio cardinalício é, talvez, seu ato mais revolucionário e que cimentará sua herança”: é corte seco à velha Europa, porta fechada às ambições romanas e de bispos carreiristas cujo sonho pastoral era a púrpura, reconhecimento do trabalho das Igrejas periféricas cujo exemplo mais claro é Tonga, Arquipélago de ilhas na Polinésia, cujo bispo criado Cardeal pastoreia 14 mil almas no total. É o jovem cardeal Dom Soane Patita Paini Mafi, nascido em 1961, e que respondeu a quem lhe perguntou o que achava da escolha: “Apenas posso imaginar que o Papa está querendo mostrar sua posição e, para fazê-lo, necessita fazer entender que a Igreja é formada por todos os quatro ângulos do planeta. O Papa busca fazer entender uma coisa que ainda é pouco familiar a muitas pessoas: a existência dos “pequenos”, e o fato de que esse “pequenos” podem dar uma contribuição e serem reconhecidos”.

Deve ser lembrado que na Igreja não existem postos de grandeza, de honra, que o ser cardeal é o máximo a que se possa aspirar, como se a fama mundana devesse contar. O máximo na Igreja é claro: é ser santo e servidor; o máximo mesmo é dar a vida.

Evidente que Francisco não inventou o Colégio cardinalício, como também é evidente que os papas anteriores criaram grandes e zelosos cardeais; também é conhecido que foi Pio XII que, no Consistório de 1946, pela primeira vez tornou os europeus minoritários no Colégio. O que parece claro, agora, é o acento missionário e pastoral, com o desafio de “manter-se humilde no serviço, que não é fácil quando se considera o cardinalato como um prêmio, o apogeu da carreira, uma dignidade de poder”.

Na carta que dirigiu aos novos purpurados em 4 de janeiro, pediu ao Senhor que os “acompanhasse em sua nova vocação que é um serviço de ajuda, sustentáculo e proximidade especial à pessoa do Papa e para o bem da Igreja”. Francisco recorda que ser cardeal significa incardinar-se na diocese de Roma para dar-lhe testemunho da ressurreição do Senhor e dar a vida totalmente, até o sangue, se necessário, e que deve estar consciente da palavra “somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer”, porque a vaidade separa da cruz do Senhor.

Missão importante dos cardeais é a eleição de novo papa, conduzir a Igreja na Sede vacante, poderíamos até dizer que é o momento mais visível, “jornalístico”, mas não esgota o serviço, que é de auxiliar o papa em sua missão.

Os vaticanistas falam que o fevereiro será “quente”: o Consistório será precedido da reunião do Colégio dos 9 Cardeais de 9 a 11 de fevereiro, quando apresentarão e discutirão propostas para a reforma da Cúria. Os novos Cardeais já vão participar das discussões posteriores nos dias 12 e 13, exercendo sua missão de ajudar o Papa porque aqueles que procedem do mundo da missão têm muito a dizer sobre a organização da Igreja, a missão e a pastoral cristãs.

Numa Igreja servidora, a palavra que Francisco sugeriu aos cardeais é a mesma que vale para todos os cristãos: “abaixamento e humildade”.

 Pe, José Artulino Besen

  1. #1 por Carlos Martendal em 10 de fevereiro de 2015 - 08:04

    Bonitos escritos, Pe. José: obrigado!

    Abraço,

    Carlos Martendal

  2. #2 por osnildo maçaneiro em 18 de fevereiro de 2015 - 15:22

    Gostei desse trabalho esclarecedor e do que o PAPA quer de nós, católicos.

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