DITADURAS DO PRESENTE – TELECRACIA E DEMOSCOPIA

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A cada eleição, o cidadão brasileiro é bombardeado com pesquisas semanais de intenção de voto, com a apressada boca-de-urna e, a partir dela, as opiniões dos comentaristas do meio impresso e televisivo. Os comentaristas e analistas políticos pontificam em seus horários e não enrubescem ao explicar seus erros de prognósticos porque, nesse meio de números e ilações, tudo se explica a favor, até o próximo erro por acerto ou acerto por erro. No meio desse tiroteio pré-eleitoral está situado o cidadão, embevecido pelos resultados e comentários e, no final, convencido de chutar o voto útil, para abreviar a festa democrática.

Não se é contra institutos de pesquisas, pois ajudam a por em evidência candidatos que podem ser melhores/piores e aglutinar/desaglutinar substancial grupo de eleitores. O mais condenável está no outro lado do balcão: o eleitor fascinado pelos números e percentagens, desobrigado de refletir com seriedade a partir de propostas e de história pessoal.

O regime democrático e da liberdade individual está bastante sujeito a dois regimes: o da telecracia e o da demoscopia, ditadura da rádio e televisão, e ditadura das pesquisas de opinião, respectivamente. Duas ditaduras agradáveis e sedutoras, ornamentadas com imagens, opiniões e números. No primeiro momento, mostra-se um produto do qual nem se ouviu ainda falar e, à custa de sermos martelados sobre a sua importância, nos convencemos de que a vida é impossível (e inútil) sem o tal produto. A mesma ditadura age nas alterações cosméticas do mesmo produto: mudam a cor, o tamanho e nos convencemos que é necessário trocá-lo, pois é impossível viver sem os benefícios da novidade. De novidade em novidade nossa casa se enche de coisas (in)úteis tornadas (in)úteis, e somos reduzidos a devedores de cartão de crédito submetidos a prestações multiplicadamente estúpidas. Contudo, isso não deve preocupar: surgirá uma nova proposta de parcelamento, um novo produto financeiro para acalmar o nervosismo dos devedores.

A telecracia e a demoscopia podem ser divididas em três “ministérios”: da facilitação, da saúde e do embelezamento. A facilitação inclui todos os produtos que tornariam a vida mais fácil; a saúde, revela doenças que poderíamos ter e já oferece a solução; o embelezamento inclui os dois anteriores e inspira-nos produtos e atitudes que nos tornarão saudáveis, bonitos, charmosos. Tudo bem que haja produto para solucionar problemas reais ou imaginários, o mais triste, porém, é as pessoas reduzirem seus encontros a trocas de experiências, suas refeições a repetitivas conversas de culpa caso não tenhamos as medidas, pesos e cores certas para afugentar proteínas e lipídios. Mas, também isso tem solução: adquirir o bom e velho calmante na vizinha farmácia e freqüentar a academia.

Educar a consciência pela verdade e pela fé

Podemos viver com serenidade sob esse regime ditatorial se nossa vida não for pautada pelas medidas do sucesso e da aprovação. Nossa medida de pessoas livres só pode ser a consciência educada pela verdade e pela fé, duas medidas verdadeiras. Ajudam-nos ao discernimento frente ao universo da telecracia e da demoscopia, que impõem a medida de valores a partir de pesquisas, estatísticas e opiniões dogmáticas de comunicadores tornados sumos pontífices com baixo compromisso moral sobre o que falam.

Da rica Suécia chega a notícia de um casamento de dois homens com uma mulher, mas, ela explica: “Não sou eu que tenho dois maridos. Somos nós três que temos dois cônjuges”. Crianças e donas-de-casa são orientadas pela “pesquisa revela que 56,9% dos brasileiros são favoráveis ao aborto”, “pesquisa aconselha multiplicar relações sexuais para a saúde cardíaca”, “90% aprovam o Papa Francisco, mas somente 43,8% concordam com seus ensinamentos morais”, “92% dos professores de Yale não creem em Deus”, o que prova que a fé é fruto de sinapses cerebrais mal encadeadas.

Tudo é ainda mais importante quando se acrescenta o envolvimento de uma Universidade americana, de preferência Stanford, Yale ou Massachusetts. Então, fiquemos com a opinião de Charles Seife, professor da Universidade de Nova York: “a pesquisa de opinião é uma fábrica nonsense de tom autoritário, uma máquina de produzir falácias matemáticas”. Parece que, diante de pesquisas, devemos ter a mesma reverência prestada aos ensinamentos religiosos: não mais dixit Deus, e sim dixit TV. Revela nosso fascínio pelos números e percentagens, pois o que é apresentado com um número causa emoção e induz a comportamentos sem lógica, pressupondo que o número é infalível. A pesquisa pode adquirir tom autoritário quando sai de sua competência e é instrumentalizada para regular atitudes e comportamentos morais, regendo-se pelo moderno, pelo agradável.

Deveríamos ser bem mais exigentes na escolha de formadores de opinião. Nenhuma pesquisa transforma o erro em acerto, o acerto em erro. Especialmente no campo moral e ético, somos governados pela consciência bem formada: os que temos fé, pela Palavra revelada; os descrentes, por convicções que levam à justiça e à fraternidade.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por vilfloripa@bol.com.br em 19 de janeiro de 2015 - 09:25

    Muito obrigado Pe. José Besen, pelo seu artigo, vou usá-lo nas aulas de Moral Social. Um abraço do Pe.Vilmar

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