APARECIDA – A IMAGEM DESCARTADA

Francisco toca carinhosamente a Imagem da Aparecida - 27-07-2013

Francisco toca carinhosamente a Imagem da Aparecida – 27-07-2013

Em nossa justa preocupação com a natureza, o bem estar do ser humano, insere-se o tema dos materiais descartados, descartáveis, recicláveis. Sob o slogan do “lixo que não é lixo” aprendemos a recolher e reutilizar o que sobrou do que consumimos ou usamos. Descobrimos cada vez mais que o descartável se constitui em grande riqueza e também desperdício. Aqui podemos recordar que Jesus, após saciar a multidão com os cinco pães e dois peixinhos multiplicados, ordenou que se recolhesse o que sobrara e recolheram doze cestos cheios, a quantia de cestos simbolizando as doze tribos de Israel, os doze Apóstolos, a totalidade. Jesus funda seu Reino com as sobras de seu povo, do mesmo modo que o Pai reúne seu Povo dos restos de Israel. Moisés, Gedeão, Jeremias, Isaías, Amós, Maria, todos se consideravam incapazes, mas, a graça os preparou para a missão.

As mães caprichosas recolhem o que sobrou da mesa dos filhos e transformam-no em outra refeição com o acréscimo de novos ingredientes. Os pobres que batem à nossa porta recebem com imensa gratidão os nossos restos, que não mais são restos, mas nova refeição.

A pedra que os construtores rejeitaram, esta é que se tornou a pedra angular. Isto foi feito pelo Senhor, e é admirável aos nossos olhos” (Mc 12, 10-11). A pedra que foi jogada fora por imprestável foi necessária para o pedreiro arrematar a sustentação do arco. Muitas vezes fazemos a experiência de recolher uma peça que tínhamos jogado fora e que, para surpresa, tivemos de buscar, pois era a que faltava para o trabalho.

Nossa Senhora da Conceição Aparecida

A imagem descartada pelo artista tornou-se pedra angular da religiosidade de um povo, o povo brasileiro. Do barro o escultor tirou uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição. Levando-a ao forno, queimou em excesso e trincou o pescoço. Resultado: imagem enegrecida e cabeça arrancada. O artista soube o que fazer: descartou seu trabalho e jogou-o no rio Paraíba do Sul, em São Paulo.

Por volta de 1717, ao lançarem a rede, três pescadores, Domingos Martins Garcia, João Alves e Filipe Pedroso pescaram uma imagem negra, de pouca beleza, sem cabeça. Novamente a rede foi jogada um pouco mais distante e João trouxe em sua rede a cabeça da Senhora. Dali por diante, a pescaria trouxe fartura e os três amigos voltaram para casa, trazendo a imagem e contando a todos o prodígio que haviam experimentado.

Humildes, cheios de fé, depositaram a imagem numa capela na vila dos pescadores. Já por volta do ano de 1745 teve sua primeira igreja oficial, em torno da qual viria a nascer o povoado e o santuário de Aparecida. Milagres e fatos extraordinários aconteciam, e a devoção de espalhou pelos Estados vizinhos: a imagem descartada pelo artista foi por Deus escolhida para a fundação de uma cidade e santuário onde, pela intercessão da Mãe de Deus, colhem-se frutos de conversão, cura e caridade.

A rápida expansão do culto a Nossa Senhora Aparecida é um fato extraordinário e pode ser considerado um milagre, como são os outros, que gostamos de citar: a grande pesca de peixes, as velas que durante o culto se apagaram sem motivo algum e novamente se acenderam sozinhas, o escravo Zacarias que, capturado depois de uma fuga, passando pela Capela pediu misericórdia a Nossa Senhora e imediatamente as correntes que o prendiam caíram, deixando intacto o colar de ferro que pendia de seu pescoço.

A presença cada vez mais numerosa de peregrinos exigiu igrejas maiores até que, em 1946, teve início a construção do Santuário Nacional de Aparecida, com capacidade para 45.000 pessoas. Ali acorre o povo fiel cumprindo promessas, pedindo graças, participando das celebrações e, sobretudo, sendo abastecidos pela alegria de estar no Santuário da Padroeira do Brasil.

Boa parte dos romeiros é constituída de trabalhadores, idosos, pobres, gente humilde aberta ao dom da fé. Cada um tem consciência de que ali pode entrar sem pedir licença, é sua casa. Com extraordinária alegria retornam a seus lares e narram o que viveram, viram e ouviram. De modo especial: contemplaram a pequena imagem negra da Aparecida, o trabalho descartado pelo artista e que se tornou o coração de numeroso povo que ali e por todo o Brasil expressa e vive sua fé e religiosidade cristãs. Em 2011 foram 11 milhões de peregrinos visitaram a “Casa da Mãe” e nela estiveram os papas João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Ela acolheu os bispos da América latina que ali realizaram a V Conferência do CELAM em 2007, e acolhe cada bispo que ali se dirige para as Celebrações e nela se sentem em casa.

Imagem profanada e imagem restaurada

Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida

Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida

Num período em que o fanatismo religioso quer ver obra satânica em toda imagem cristã, a imagem original de Nossa Senhora Aparecida não ficou livre: um atentado em 16 de maio de 1978, deixou-a em pedaços, quebrada em mais de duzentos fragmentos. Parecia impossível recuperá-la, pois o que restava eram fragmentos, pedaços esfarelados. Mas, não se podia desanimar. A Imagem foi levada ao Museu de Arte de São Paulo (MASP), onde o fundador, professor Pietro Maria Bardi, a encaminhou à artista plástica e chefe do Departamento de Restauração, Maria Helena Chartuni. Maria Helena mergulhou em um intenso trabalho de reconstituição, completado com sucesso. Restaurada, no dia 19 de agosto do mesmo ano foi levada de volta ao Santuário Nacional de Aparecida, em um carro aberto do Corpo de Bombeiros, causando comoção nacional. Uma multidão esperava pela Imagem em Aparecida, lotando o entorno do Santuário Nacional e da Rodovia Presidente Dutra.

A restauradora Maria Helena fala com carinho do trabalho que considera um divisor de águas em sua vida: “Para mim, existe o antes e o depois do restauro da Imagem. Sinto-me muito abençoada porque nenhum trabalho me deu tanta satisfação quanto aquele. Passados tantos anos, ainda percebo o retorno da esperança que a Imagem proporcionou a mim e toda a população”, revela.

Explica que o trabalho não foi fácil: “Fiquei muito assustada no início. A Imagem estava despedaçada, principalmente a parte da cabeça. Além das dificuldades técnicas, estava lidando com uma peça de arte produzida em terracota (barro cozido)”, lembra. Gosta de comentar a transição operada em sua vida:

“Foi a partir daí que me dei conta de que algo tinha acontecido com a minha fé que até então estava “congelada”, apesar de eu ter sido criada numa família católica. O trabalho de restauro da imagem de Nossa Senhora mudou a minha vida, minha fé. Ela é a mensageira de Deus, aceitou sua missão com humildade, pureza e obediência. Ela deve ser nosso exemplo de mulher de Deus e por isso devemos amá-la e respeitá-la sempre”.

A força dos pequenos sinais –rumo aos 300 anos em 2017

A imagem da Virgem é negra, a cor dos escravos e de nosso povo mestiço. Um sinal forte revelado por Deus e que teve de esperar 160 anos para a abolição da chaga da escravidão no Brasil (1888) e ainda espera o dia em que não haverá preconceitos de cor e condição social.

Os bem pensantes têm por certo que tudo não passa de superstição à espera de sua desmontagem peles mentes esclarecidas. Irritam-se com a religiosidade dos pobres e fracos, mas convivem tranquilamente num país que lhes edifica condomínios onde podem viver sem o perigo e a desagradável presença dos pobres. Afirmam que são donos das luzes e do progresso, mas ignoram o quanto as faces escuras dos trabalhadores são coloridas pelo sol abrasador, pelo pó, pelo ambiente sujo onde trabalham.

Ainda não descobriram que o Deus de Jesus resiste aos soberbos, depõe os poderosos e eleva os humildes. Não percebem que sua orgulhosa descrença não é fruto de sabedoria e ciência e sim, da fé que não lhes é concedida enquanto não forem mansos e humildes de coração.

De sua parte, enquanto suam por uma vida mais digna e melhor, os peregrinos de Aparecida com carinho entoam: Virgem santa, Virgem Bela, Mãe amável, Mãe querida, amparai-nos, socorrei-nos, ó Senhora Aparecida.

Maria leva os devotos a seu filho Jesus, o homem de Nazaré desprezado e crucificado, rejeitado pelos sábios e entendidos, mas pedra angular de um mundo que aspira por fraternidade e vida digna.

Em 27 de julho de 2013, falando ao Episcopado brasileiro em Aparecida, assim se expressou Francisco: “Felizmente, os pescadores não desprezam o mistério encontrado no rio. Embora fosse um mistério que tenha aparecido incompleto, não jogaram fora seus pedaços. Esperam a plenitude, e esta não demorou a chegar. Há aqui algo de sabedoria que devemos aprender. Há pedaços de um mistério, como partes de um mosaico, que vamos encontrando. Nós queremos ver muito rápido a totalidade; e Deus, pelo contrário, Se faz ver pouco a pouco. Também a Igreja deve aprender esta expectativa.

Deus também nos inspira a chamar os vizinhos para dar-lhes a conhecer a Sua beleza. A missão da Igreja nasce precisamente dessa fascinação divina, dessa maravilha do encontro. Porém, sem a simplicidade daqueles pescadores a nossa missão está fadada ao fracasso. “A Igreja tem sempre a necessidade urgente de não desaprender a lição de Aparecida […] As redes da Igreja são frágeis, talvez remendadas; a barca da Igreja não tem a força dos grandes transatlânticos que cruzam os oceanos. Contudo, Deus quer se manifestar justamente por nossos meios pobres, porque é sempre Ele quem está agindo”.

Pe. José Artulino Besen

 

  1. #1 por Ivone Maria koerich Coelho em 27 de dezembro de 2014 - 21:57

    Pe. josé, o Senhor escreveu muito bonito, sobre a Imagem descartada, e hoje a Imagem tão amada. É verdade, cada vez que a gente vai em peregrinação na casa da Mãe Aparecida, e já são tantas, mas é como se sempre fosse a primeira vez, a emoção é imensa, e a gente sempre tem qualquer coisa de novo pra sentir e pra contar. A gente vive um pedacinho desta bela história de amor do povo Brasileiro para com sua mãe e que já vai chegando nos 300 anos.

    • #2 por José Artulino Besen em 28 de dezembro de 2014 - 15:14

      Ivone, o que para nós pode parecer inutilidade, Deus acolhe como objeto ou pessoa de vida e de graça. Toda a criação é um hino ao Criador.
      Pe. José

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