NATAL – SACRIFÍCIO DE COMUNHÃO

 

Deus vem ao nosso encontro - políptico de Lorenzo Veneziano - detalhe

Deus vem ao nosso encontro – políptico de Lorenzo Veneziano – detalhe

Ghislain Lafont, beneditino e teólogo, sentiu a necessidade de estudar e comentar o tema da obediência em Gênesis 2, 16-17: “O Senhor Deus deu-lhe uma ordem, dizendo: ‘Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas, da árvore do conhecimento do bem e do mal não deves comer, porque, no dia em que dele comeres, com certeza morrerás’”. Lafont se pergunta: por que Deus dá com uma mão e retira com outra? Será que uma árvore entre tantas teria tamanha importância? O que Adão teria pensado ao receber ordem tão ameaçadora? Seria apenas um capricho divino?

Ainda na posse da graça original, Adão entendeu que não estava em jogo o que comer ou não comer, mas a identidade de quem lhe dava o mandamento com autoridade, e o demonstra no momento da tentação, quando o tentador lhe revela o benefício do comer da árvore: ‘Sereis como Deus’, de modo algum morrereis (cf. Gn 3, 4-5). Morrer significa perder a identidade, a existência. Decidir comer do fruto é querer ser como Deus, é perder o medo de morrer, é existir sem nada dever a outro. G. Lafont expõe o tema da obediência, palavra latina que tem origem em obaudire, escutar. Escutar/obedecer sempre incluem uma renúncia, um limite, não para limitar e sim para criar comunhão, relação. A comunhão não existe sem o sacrifício, sem a perda para se receber o dom. Não há relação entre duas pessoas se permanecerem exatamente o que sempre foram.

Perder para receber é inseparável do sacrifício: ofereço algo para receber em troca, não por atitude interesseira, mas movido a uma doação que me fará comungar com o outro. Sempre é sacrifício de comunhão. G. Lafont resume[1]: Deus me fala, eu escuto e aceito o sacrifício da obediência para receber a comunhão.

O sacrifício de comunhão inaugura a história da salvação, a história de Deus que continua a apresentar palavras/limite ao homem a fim de que possa oferecer-lhe o dom da comunhão. O pecado dos primeiros pais foi a rejeição da obediência, da escuta e, deste modo, perderam o dom da relação, dom necessário para a existência humana que é também divina, incompatível com o viver solitário. Nossos primeiros pais agiram para nunca morrerem, e colheram a morte. Julgaram ser apetitoso viver sem escutar, escutar sem obedecer.

O Deus criador fez-nos à sua imagem e semelhança: a imagem sempre está presente, mesmo no pecado, e a semelhança oferecida como projeto[2]. Deu-nos sua imagem, mas no próprio ato da criação colocou a necessidade de querermos ser semelhantes a ele numa resposta progressivamente empenhativa e positiva, onde um sacrifício é necessário para estabelecer o diálogo, porque não há comunhão sem a dor da obediência, fruto da escuta, e não há semelhança possível sem a doação.

Antes da primeira prova, porém, Deus criou a mulher, porque não é bom que o homem esteja só (cf. Gn 3, 18). Além da palavra/limite dada por Deus, o homem e a mulher também se trocam palavras/limite para que exista a comunhão e assim, nossa vida é humana à medida que somos capazes de dar e receber obediência, e se torna desumana à proporção que negamos ao outro uma escuta com renúncia.

Quando se fala da relação entre as pessoas, entre Deus e nós, há sempre a dor, e o fundo, a substância da dor é a luta do amor. Ao amar, estou afirmando que o outro existe e o outro reconhece minha existência ao me amar, o que não acontece sem o sacrifício de escutar uma palavra e aceitá-la. O amor é sempre gerado pelo diálogo entre a doação e o dom.

Evidentemente que nos esforçamos para obedecer aos limites colocados por Deus e crescemos em sua amizade, porém, num sacrifício e obediência sem fim, recebendo continuamente novas palavras de Deus, numa história cujo fruto maduro é o amor e o fim a santidade.

natal

O Natal, dom do Pai – a Páscoa, dom do Filho

O Natal simboliza a doação sem limite que nos traz dom sem limite. Conduzindo seu povo no deserto e Oriente próximo sob a guia de Moisés, Juízes, reis e profetas, Deus pediu sempre mais porque sempre mais oferecia, num amor/doação cujo limite é o ilimitado. E assim, a humilde palavra no Paraíso se estendeu ao mundo, a toda a história.

Através do Anjo, Deus apresenta uma palavra/sacrifício a Maria de Nazaré, dela escuta o sim integral de uma serva.  Nova palavra é apresentada, e agora é a Palavra, o Filho que diz sim ao Pai e vem habitar entre nós, assumindo a condição humana pelo sim de Maria. O sim doloroso de José lhe traz o dom da paternidade. O sim dos Magos lhes oferece a adoração.

A história prossegue com Jesus, o Deus encarnado apresentando palavras de vida ao povo da Galiléia, com seus gestos descrevendo as palavras de sacrifício que o Pai pede a fim de poder entrar em comunhão com os pobres, os pecadores e os doentes. Aqueles que não o aceitaram se privaram do dom da comunhão, e os que o receberam foram agraciados com a vida eterna (cf. João 3, 16-21).

Jesus, doação do Pai ao mundo, quer ser um sim sem limite para oferecer-lhe toda a criação. Do mesmo modo que o Pai nos deu seu Filho, o Filho se dá ao Pai por nós em doação total, na entrega de sua humanidade ferida pela dor, a humilhação e a morte. O sacrifício da cruz não foi para expiar nossos pecados, como se o Pai tivesse usado uma balança de dor para medir a dívida da humanidade. Foi, isso sim, o encontro efetivo do Filho encarnado com Deus, a quem se doa totalmente e recebe o dom da salvação para todos que o procuram com sinceridade.

Voltemos às origens, onde é decidida nossa vida: se quisermos ser humanos, e não uma criatura como as outras, escutaremos do Pai um pedido de sacrifício/obediência que, sendo aceito, nos colocará em comunhão com ele e seremos pessoas. O Natal nos lembra esse pedido, para que ingressemos na relação amorosa com Deus, a cada dia mais intensa. O fruto generoso a nós doado é o Salvador.

Pe. José Artulino Besen

[1] Cr. Texto publicado em Lumière et Vie, 62 (2013) 4, n. 300, 6-21.
[2] O tema foi tratado por Irineu de Lyon no Adversus Haereses, de modo belo afirmando que entre esses dois termos – imagem e semelhança – se desenvolverá toda a vida espiritual do homem, que recebeu a perfeição em germe, devendo amadurecê-la. A imagem, o homem possui para sempre (o pecado não a suprime). O essencial é fazer a passagem para a “semelhança”.
  1. #1 por Alexandre Borges em 22 de dezembro de 2014 - 11:53

    Caro, pe José! Um feliz natal pra si e para todos os seus! O Senhor nascido humildemente lhe traga o dom de uma fé profunda, cada vez mais! Abraço!

    • #2 por José Artulino Besen em 30 de dezembro de 2014 - 15:02

      Alexandre, muito me sensibiliza seu voto natalino, que retribuo para sua esposa e filha. Desejo que sua casa seja um presépio onde vocês estejam guardados por Maria e José. Cresçamos na fé!. Um abraço,
      Pe. José

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