FRANCISCO NA TERRA DE PAULO E ANDRÉ

Na Mesquita Azul, descalço, reza com o Grão Mufti Mehmet

Na Mesquita Azul, descalço, reza com o Grão Mufti Mehmet

Em sua sexta viagem apostólica, Francisco dirigiu-se à Turquia, na Ásia Menor, epicentro dos conflitos atuais no mundo árabe, da guerra civil na Síria, no Iraque, palco da fúria do auto-intitulado Califado Islâmico que pretende reviver, às custas da violência sem limites, os antigos sonhos de um domínio religioso da sociedade. A Turquia procura manter o equilíbrio entre tantas pendências geográficas, políticas, religiosas e econômicas, naturalmente que salvaguardando seus interesses geopolíticos, nem sempre ficando claras suas intenções e compromissos. Sempre que há o uso das armas, a verdade é escondida, e assim todos parecem inocentes, bombardeando e destruindo a serviço “do bem”.

Mas, para o mundo cristão, a Turquia é a pátria do Apóstolo Paulo de Tarso, é o solo sagrado dos sete primeiros concílios ecumênicos, dos Santos Pais da Igreja, dos mártires. Numa cidade turca, Éfeso, Maria morou com João, reza a tradição. Em sua capital hodierna está localizada a Igreja fundada por Santo André, o primeiro apóstolo chamado por Jesus, Constantinopla. E foi para visitar Bartolomeu I, patriarca sucessor de André, que Francisco deixou a Roma de Pedro entre 28 e 30 de novembro.

Hoje, 98% da população turca professa a fé muçulmana, e pouco menos de 2%, a fé cristã. Numericamente pequena, e ainda assim dividida em diversas Igrejas, Ritos e Patriarcados. Na primeira parte de sua peregrinação, o Papa foi ao mundo muçulmano representado pelo presidente turco Erdogan e pelo Grão Mufti de Istambul. Descalço – os muçulmanos comentaram “Ele faz como nós”, repetindo o gesto de Bento XVI, Francisco entrou na Mesquita Azul para silenciosa oração. Os discursos oficiais foram uma denúncia forte do uso da religião para justificar a violência, a rejeição de qualquer legitimidade nas ações militares em nome de Deus, um pedido angustiado pela acolhida aos refugiados da guerra e da miséria. Francisco também visitou Santa Sofia, a grande basílica ortodoxa do século VI, a partir de 1453 mesquita, e de 1938 em diante museu. Quando Paulo VI nela entrou em 1967, caiu de joelhos sob o êxtase causado pelo impacto da história, sendo muito criticado pelos muçulmanos, que viram no gesto um querer retomar a propriedade. Paulo VI apenas queria rezar, mas nestas terras cada pequeno sinal recorda imensidões de fatos históricos e antigas sensibilidades.

O ecumenismo do martírio

Os momentos fortes da viagem apostólica estavam reservados ao encontro fraterno com a Igreja de Constantinopla, separada de Roma desde o ano de 1054. Há 50 anos, em Jerusalém, Paulo VI encontrou-se com o Patriarca Atenágoras, trocando-se o beijo da paz e em seguida suspendendo as bulas de excomunhão de 1054. Acordava-se, nesse encontro, a decisão irrevogável de buscar a unidade cristã, vendo-se com clareza que não há sentido nas divisões cristãs. O caminho é longo, faltam muitos passos ainda, mas existe decisão, porque assim o Senhor determina. Muitas questões nascem de sutilezas teológicas e não foi por menos que naquele 1964 Atenágoras brincou com Paulo VI dizendo que no dia em que se recolhessem todos os teólogos numa ilha, haveria a unidade…

Patriarca Bartolomeu abençoa Papa Francisco e a Igreja de Roma

Patriarca Bartolomeu abençoa Papa Francisco e a Igreja de Roma

No dia 29, sábado, Francisco encontrou-se com Bartolomeu e ali pudemos contemplar a espontaneidade fraterna desses grandes homens: o Papa inclinou a cabeça pedindo que o Patriarca o abençoasse e à Igreja católica, o Patriarca beijou a mão pedindo a bênção do Papa. Pedro e André se encontraram e se abraçaram. No dia 30, domingo, Francisco assistiu à Divina Liturgia na Igreja de São Jorge, sede do Patriarcado de Constantinopla. Não pôde partilhar o Pão eucarístico, porque falta a unidade na fé. Sofrimento para os dois. Pouco antes, o Bispo de Roma disse palavras extremamente importantes: que Roma e Constantinopla, que a ortodoxia e o catolicismo, o Oriente e o Ocidente, devem buscar a unidade sem nenhuma imposição, sem nenhuma pretensão de domínio canônico, bastando que a unidade tenha como fundamento a prática cristã do primeiro milênio, cada Igreja respeitando as diferentes tradições canônicas e litúrgicas. Bento XVI disse as mesmas palavras, e é bom que se diga, porque alguns afirmarão que Francisco não leva a teologia a sério.

Na declaração conjunta, após a Divina Liturgia, reafirmaram a decisão da busca da unidade e, muito tocante, lembraram que hoje está acontecendo o ecumenismo de sangue, pois cristãos no Oriente estão sendo mortos pela fé em Cristo e não se lhes pergunta se são católicos, evangélicos, ortodoxos, antioquenos: “Estamos unidos no martírio”, comentou Francisco. O sangue derramado pela fé é o grande ecumenismo que se acrescenta ao ecumenismo teológico, ao espiritual, ao fraternal. Aos católicos de Constantinopla: “Nós, cristãos, nos tornamos autênticos discípulos missionários, capazes de interpelar as consciências, se abandonarmos um estilo defensivo para deixarmo-nos conduzir pelo Espírito, deixando de lado qualquer tentação de olhar-se a si mesmos”.

Dirigindo-se para o embarque, Francisco visitou a obra salesiana que acolhe uma centena de crianças vítimas da guerra, filhos de refugiados. Queria visitar muitos mais, porém não teve autorização. Ali clamou pela misericórdia para com tantas milhares de crianças, mães, jovens vítimas de uma guerra sem sentido, de bombas que são jogadas sem nenhuma consideração pela vida humana, como se as pessoas fossem descartáveis. Bombas que ampliam o raio de violência rumo ao Oriente e à África. As palavras e gestos de Francisco foram convite aos muçulmanos e cristãos, aos cristãos entre si, para que se quebre a lógica da violência. Visitando o Grão Rabino também incluiu o povo da Antiga Aliança no processo da paz.

Num convite à unidade, Francisco abriu a todos os braços e o coração: “Encontrar-nos, olhar a face um do outro, trocar o abraço da paz, rezar um pelo outro são dimensões essenciais do caminho para o restabelecimento da plena comunhão que buscamos”.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 30 de novembro de 2014 - 18:32

    Mais uma vez, obrigado Padre José Artulino Besen por nos trazer uma bela síntese da visita do Papa Francisco à Turquia.

    • #2 por José Artulino Besen em 30 de novembro de 2014 - 19:36

      Ademar,
      obrigado pela leitura e pelo estímulo.
      Pe. José

  2. #3 por Carlos Martendal em 1 de dezembro de 2014 - 12:52

    Muito obrigado, caríssimo Pe. José!

    Com sua bênção, um abraço.

    Carlos Martendal

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