AMÉRICA LATINA MENOS CATÓLICA

Caminhante - Pietro Annigoni

Caminhante – Pietro Annigoni

No último dia 13 de novembro teve grande repercussão na imprensa nacional e internacional a publicação de um estudo do Pew Research, sobre pesquisa realizada sobre presença católica nos 18 países da América latina, seu crescimento ou diminuição numérica. Uma estudo muito interessante pelo fato de revelar os números da vida cristã em nosso Continente, cujas nações foram constituídas e conservadas com a presença da Igreja católica, onde pobres, crianças e doentes sempre tiveram o acompanhamento generoso de sólidas instituições católicas. Com bom senso, não se pode tirar esse merecimento da Igreja: ela acompanhou o povo latino-americano em todos os momentos, podendo-se dizer que “ser caridoso é ser católico”. Um título de honra.

Mas, os católicos reduzem sua presença na América latina: são hoje 69% da população. Os evangélicos são 19%, os que não têm afiliação religiosa são 4% e outros (ateus, agnósticos e sem religião), 8%.

Dentre os evangélicos, 19% pertencem às igrejas históricas (protestantes, batistas, presbiterianos, reformados) e 80% estão nas igrejas pentecostais e neo-pentecostais. O que mais impressiona nos protestantes e pentecostais é um dado que indica donde migraram esses novos fiéis: 84% receberam sua formação religiosa no catolicismo e apenas 9% no protestantismo. Isso significa que o expressivo número de evangélicos deixou a Igreja católica nos últimos anos, particularmente a partir da década de 70: os católicos latino-americanos eram 92% da população e hoje são 69%. Em outras palavras: foram nossos irmãos e nos deixaram, à base de 1% ao ano. Os católicos brasileiros éramos 64% em 2000, hoje somos 61% e os evangélicos são 26%.

O estudo também procurou conhecer o motivo do êxodo religioso e isso é muito importante saber, até para superar a confortante e falsa resposta: “eram maus católicos, não fazem falta, não freqüentavam a igreja”.

Para 81%, o motivo principal da passagem do catolicismo às igrejas evangélicas foi a procura de uma ligação mais pessoal com Deus, na busca de forças para enfrentar problemas sociais e morais. A mesma motivação pode ter sido a dos 4% que se declaram sem afiliação religiosa: aceitam Jesus, mas são peregrinos de diversas igrejas, incluindo os cultos afros e espíritas. Não crêem na instituição eclesiástica.

Outros motivos para a passagem às igrejas evangélicas, especialmente as pentecostais (como Assembléia de Deus, Deus é Amor) e neo-pentecostais (como Universal do Reino de Deus e conexas que anunciam a prosperidade): 69% gostam do estilo da nova igreja, 60% pela maior ênfase na moralidade, 59% pela maior ajuda dos fiéis da igreja.

Julgo de grande importância como foi o método usado para a mudança de igreja: 58% foram convidados por outro fiel, indicação clara do trabalho missionário e de convencimento pessoal dos evangélicos, do anúncio querigmático. No jornal EL PAÍS, após essas notícias, na sessão de comentários me deparei com duas opiniões: uma, dizendo que a Igreja católica é a pedra, a rocha firme; e outra, “esses evangélicos são uns chatos”. Uma se move no campo apologético e outra revela a ação missionária dos “chatos”, insistentes.

A América latina continua cristã

Sentir a presença do Senhor - Michel Ciry

Sentir a presença do Senhor – Michel Ciry

O estudo do Pew Research tinha como objetivo revelar o efeito da ação nova do Papa Francisco. Nisso peca, pois em menos de dois anos uma mensagem religiosa não se manifesta, e prova disso são os padres, bispos, fiéis conservadores e até cardeais que procuram minar a ação do Papa, que é um presente do Espírito à Igreja. Gostam de Francisco, do exemplo que ele dá, mas cada um continue a fazer o que sempre fez. Sua ação é aprovada por 70% dos latino-americanos, 90% dos brasileiros e 98% dos argentinos!

É muito claro que o programa papal expresso na Evangelii Gaudium é empenhativo, é opção pela simplicidade de Jesus, pelos pobres a quem ele ama. Para alguns, causa enjôo saber que Francisco ordenou a construção de banheiros e chuveiros embaixo do Palácio Apostólico, para que os pobres possam tomar banho e assim não serem rejeitados pelo mau cheiro. Um Papa que prega sempre, e somente, a partir do Evangelho incomoda, pois estamos acomodados a uma confortável teologia e organização pastoral que busca eficiência, revela o modelo modernoso da organização burocrática que nasce dos gabinetes pastorais e não da pastoral do encontro pessoal com as ovelhas. O êxodo católico não rejeita as organizações e organogramas, pois os desconhece. O motivo é a busca de um Deus que vem ao nosso encontro na pessoa de Jesus, um encontro que acontece nas pessoas que nos trazem Deus em momentos existencialmente sofridos em busca de transformação.

Devemos nutrir uma grande alegria: 88% dos latino-americanos buscam Jesus nas igrejas cristãs, dentre eles, 69% na Igreja católica. As raízes cristãs do Continente continuam vigorosas. Mas, isso vale para todos: os católicos e os evangélicos têm o grande desafio de alimentarem a fé cristã. Os jovens católicos e os jovens evangélicos são as primeiras vítimas do consumismo, do hedonismo, de uma sociedade que valoriza quase exclusivamente as aparências externas. O Cristianismo tem como valor maior a vida de Jesus gravada na interioridade humana, e necessariamente expressa no amor aos pobres. Não é fácil.

Pe. José Artulino Besen 

  1. #1 por Luiz Heleno em 15 de novembro de 2014 - 21:31

    Ótimo texto. Fala realmente de quem é o verdadeiro católico, aquele que conhece a doutrina e não se deixa influenciar por outras denominações .

  2. #2 por eddiessauro em 24 de novembro de 2014 - 13:54

    Republicou isso em eddiessauroe comentado:
    Excelente artigo. Condiz com a ‘preocupação’ que se deva ter com a essência católica de Francisco.

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