PAULO VI – O BEM-AVENTURADO DA MODERNIDADE

2014-10 - Bem-aventurado Paulo VI, caminheiro no mundo - tapeçaria da beatificação.

2014-10 – Bem-aventurado Paulo VI, caminheiro no mundo – tapeçaria da beatificação.

Em 19 de outubro de 2014, ao declarar bem-aventurado o Papa Paulo VI, Francisco afirmou que foi um piloto solitário na sociedade hostil, um corajoso cristão e um instancável apóstolo. E, com o aplauso da multidão, disse: “Hoje não podemos proferir mais do que uma palavra tão simples e sincera: Obrigado! Obrigado por teu humilde e profético testemunho de amor a Cristo e a Igreja. Enquanto se formava uma sociedade secularizada e hostil, soube conduzir com sabedoria longemirante e às vezes na solidão, o timão da barca de Pedro”.

Sua aperência externa era solene e internamente carregava a cruz. Ao ser transportado na sédia gestatória tinha a aparência de um soberano, mas, secretamente usava um cilício que lhe provocava fortes dores oferecidas pela Igreja. As religiosas que cuidavam de suas vestes contam que algumas camisetas vinham lavadas, porque Paulo VI não desejava que percebessem as manchas de sangue. Arcebispo de Milão, num dia um padre veio comunicar-lhe que pensava em deixar o ministério. Ergueu-se da escrivanhinha e, chorando, prostrou-se no chão: “Pensa na Igreja”. O padre acabou também chorando e permaneceu no ministério. Em cada Natal e Páscoa visitava os ex-padres.  Declarou a um secretário: “Monsenhor, a nossa vida é como um fio de ouro com que o Senhor tece cada um de nós com seu amor infinito”.

Cada gesto seu era verdadeira expressão de sua vida interior: Montini foi um homem moderno, sentiu os dramas da Igreja e da sociedade: foi fiel a Deus, fiel ao homem. Um Papa justo, que tantos julgaram indeciso, inseguro, quando, na verdade somente decidia após muita oração e meditação e, ao tomar a decisão, não voltava atrás.

Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini nasceu em Concesio, na Lombardia, em 26 de setembro de 1897. Seus pais, o advogado Giorgio Montini e Giuditta Alghisi, que tiveram três filhos: Ludovico, que foi advogado, deputado e senador da República, Francesco, médico, e Giovanni Battista: padre, arcebispo, cardeal e papa. O pai dirigia o jornal diário de Bréscia e exerceu três mandatos de deputado pelo Partido Popular. Por toda a vida Montini reviveu com intensidade a fé dos pais e dos avós em estilo moderno. Conciderava a modernidade como condição para viver e despertar a fé. De seu pai Giorgio reconhecia “os exemplos de coragem, a urgência de não capitular diante do mal, o juramento de jamais preferir a vida às razões da vida” (Jean Ghitton). E repetia: “Meu pai não tinha medo”.

Montini nunca teve saúde estável, motivo pelo qual duvidaram que pudesse ser padre, mas depois concluíram que tinha uma péssima saúde de ferro. Estudou na Universidade romana “La Sapienza”, na Universidade Gregoriana e na Pontifícia Academia Eclesiástica, berço dos diplomatas da Santa Sé. Em dezembro de 1937 foi nomeado substituto da Secretaria de Estado de Pio XI, em seguida de Pio XII. Estava a serviço da Santa Sé quando, em 1º de novembro de 1954 foi nomeado arcebispo de Milão, onde desenvolveu um imenso trabalho de missão no meio urbano. Paulo VI é um santo verdadeiramente moderno, aprendeu a encontrar alegria na tristeza, e vitória em meio a derrotas aparentes. Lutou, dia por dia, para descobrir a alegria que Deus promete aos que o amam. Mesmo aqueles que questionavam se o papa sofria de depressão clínica, com ataques prolongados de tristeza, são obrigados a reconhecer nele a noite escura dos místicos, o combatente incansável no meio das contradições e dificuldade pelas quais a Igreja passava, mas sempre pode dizer, como Paulo: “Com toda a nossa tribulação, eu sou muito feliz”. Viveu acreditando na alegria.

Fiel ao Evangelho e ao ser humano

Paulo VI com as mãos cheias de bênção - Floriano Bodini

Paulo VI com as mãos cheias de bênção – Floriano Bodini

Sua aparência frágil e humilde escondia o homem, padre, diplomata, bispo e papa decidido, conhecedor das necessidades da vida da Igreja. Com Dom Hélder Câmara favoreceu a criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, continuou o Concílio à morte de João XXIII, instituiu o Sínodo dos Bispos. Defendeu os pobres do sul do mundo diante das riquezas do norte do mundo, na Conferência de Medellín despertou para a justiça social a Igreja latino americana. Não teve medo de denunciar a ditadura portuguesa de Oliveira Salazar e a espanhola de Francisco Franco, ditaduras que apoiavam a Igreja e dela recebiam apoio.

Durante o Concílio, em 1964, tomou a decisão de Pedro – ele, retornar a Jerusalém, lá donde partira para Roma o pescador Pedro: sabia da necessidade que a Igreja tinha de um exame de consciência para redescobrir sua identidade, sua missão e assim, renovar o modo de propor a mensagem evangélica, as estruturas e o modo de agir da Igreja. No dia 6 de agosto de 1964, em pleno Vaticano II publicou sua Carta Encíclica “Ecclesiam suam”: a Igreja é, ao mesmo tempo, mãe amorosa de todos os homens e dispensadora de salvação.

Propõe como caminho o diálogo: aproximar-se do mundo com reverência, delicadeza, amor, para compreendê-lo, oferecer-lhe os dons da verdade e da graça que Cristo nos confiou para comunicar-lhe nosso maravilhoso destino de Redenção e de esperança. O diálogo implica em sinceridade, estima, simpatia, bondade. Supõe clareza, serenidade, confiança, prudência pedagógica. A Igreja deve dialogar com todos, num diálogo ecumênico e religioso.

Papa Montini foi peregrino do diálogo, nove viagens pelos cinco Continentes: Terra Santa, Filipinas, Colômbia, Nações Unidas, África, Genebra, sempre com humildade e, de modo visível, inundado de amor. Guardava escondido um coração poderoso, um homem fortalecido pelo amor a Cristo, à Igreja, à humanidade. Retornando da viagem a Bombaim, Índia, declarou na Praça de São Pedro: “Encontrei esses irmãos na fé que vivem na Índia, mas esse encontro muda o nosso modo de ser Igreja. Somos chamados a abrir mais o coração”. Ele não fala que deve mudar a Índia, mas como mudar o nosso ser Igreja depois que ele, representando toda a Igreja, fui visitar esses irmãos que vivem longe. Um santo, Paulo VI, um homem verdadeiro, pleno de amor pela humanidade.

Seu gesto mais característico eram os braços erguidos com as mãos abençoando. Os artistas modernos, muito amados por ele, gostavam de esculpi-lo com as mãos desproporcionais aos braços. Diziam: Paulo VI está sempre abençoando, suas mãos estão pesadas de tanta bênção que carregam.

Pouco antes de morrer, na Festa da Transfiguração, 6 de agosto de 1978, conclui sua meditação sobre a morte com uma declaração de amor: “Homens, compreendei-me; a todos vos amo na efusão do Espírito Santo, em que eu, ministro, era obrigado a fazer-vos participar. Assim olho para vós, assim vos saúdo, assim vos abençôo. A todos. E a vós, que estais mais perto de mim, mais cordialmente. A paz esteja convosco. E à Igreja, a quem tudo devo e que foi minha, que direi? As bênçãos de Deus estejam sobre ti; tem consciência da tua natureza e da tua missão; tem o sentido das necessidades verdadeiras e profundas da humanidade; e caminha pobre, isto é, livre, forte e com amor, para Cristo. Amém. O Senhor vem. Amém”.

Pe. José Artulino Besen

 

 

 

 

 

  1. #1 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 20 de outubro de 2014 - 20:39

    Quanta coisa bonita nós desconhecíamos. Obrigado, Padre Besen, por nos instruir.

%d blogueiros gostam disto: