SÍNODO DOS BISPOS – IGREJA FAROL E IGREJA TOCHA

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E DEUS OS FEZ HOMEM E MULHER – Igor Mitoraj

Graças ao falar misericordioso de Francisco desde o início de seu ministério como bispo de Roma, também nas intervenções sinodais prevalece a afirmação da misericórdia, da compreensão, do acompanhamento frente às diversas situações vividas pelos casais. Para Francisco, “é tempo de propor caminhos de diálogo, de misericórdia”. Distante dos discursos que viam nos tempos presentes apenas heresia, imoralidade, blasfêmia, nos defrontamos com o caminho aberto pelo Concílio em cujo discurso de abertura São João XXIII afirmou que “a Igreja prefere servir-se da misericórdia em vez do rigor”, e o Bem-aventurado Paulo VI explicava que “a misericórdia é a chave hermenêutica dos Mandamentos”.

Quem tem oportunidade de acompanhar as intervenções dos Padres sinodais percebe o clima propositivo, distante das fáceis afirmações que denunciam a homossexualidade como “intrinsecamente desordenada”, a “mentalidade contraceptiva”, o “hedonismo egoísta”, as ideologias aberrantes que atacam a família, a influência invasiva dos meios de comunicação. As solenes condenações apenas facilitam a vida de quem pretende passar à história como defensor incansável da verdade. O estilo combativo em nada auxilia as pessoas a se aproximarem de Jesus Cristo, cuja mensagem e vida foi sempre misericordiosa, de vizinhança dos que viviam situações difíceis. É belo e verdadeiro anunciar que o amor divino da Trindade é o modelo do amor humano entre os esposos, mas, não se pode esquecer que na maioria das vezes o amor conjugal é ferido pelo pecado, marcado por uma história de lutas e limitações, sofrimentos e privações que devem ser levados em conta no relacionamento com os casais. Cristo veio para nos redimir do enfraquecimento da graça provocado pelo pecado original. Ele é o redentor dos caminhantes no caminho de superar o pecado e não aquele que vem selecionar os bons e condenar os pecadores. A fraqueza pessoal inerente à condição humana permanece na existência do homem e da mulher unidos pelo matrimônio.

O jesuíta Antônio Spadaro, especialista em comunicação, foi muito feliz ao se referir a dois modelos de Igreja: a Igreja-farol e a Igreja-tocha. O farol é sólido, construído sobre um morro, ou sobre uma rocha no mar, para indicar os perigos aos navegantes. Sua luz é forte para orientar. Igreja-farol é a Igreja luz da verdade. A tocha acompanha uma procissão, um caminhante, sua luz é mais fraca, mas orienta o suficiente para evitar quedas, esbarradas. A Igreja-tocha é a Igreja que acompanha, caminha na história, entre as pessoas. As duas são necessárias: a luz da tocha é frágil e o vento pode apagá-la, por isso a necessidade do farol. Infelizmente, acontece preferirmos ser farol, denúncia do erro, proclamação da verdade, deixando de acompanhar as pessoas concretas, de carne e osso, nas suas alegrias e tristezas. Normalmente conhecemos o farol, mas necessitamos muito de uma chama, que pode até ser frágil, mas aquele que a carrega está ao nosso lado.

O encontro da doutrina com a vida real

O Sínodo, pelo fato de contar com o resultado das consultas feitas em todo o mundo a respeito de 38 temas, se encaminha para a pastoral concreta com pessoas concretas. Quando foram apresentados ao Papa possíveis temas a serem nele tratados, em primeiro lugar foram apresentadas temáticas cristológicas e antropológicas, preocupações de cunho doutrinal. A novidade introduzida por Francisco está na passagem do doutrinal para o real.

Papa Francisco

Papa Francisco

O Cardeal de Aparecida, Dom Raimundo Damasceno, na 6ª. Congregação Geral (dia 8-10) apresentou situações familiares difíceis e reais que exigem urgente resposta pastoral: as convivências; as uniões de fato; a situação dos separados, dos divorciados e dos divorciados recasados; os filhos e aqueles que permanecem sozinhos; as jovens mães; as situações de irregularidade canônica; o acesso aos sacramentos, nestes casos; o cuidado pastoral das situações difíceis, entre as quais os casais gays. A respeito dessas situações, afirmou o Cardeal: “Longe de nos fecharmos numa atitude moralista, queremos penetrar no profundo destas situações difíceis para acolher quem nelas está envolvido, para fazer da Igreja a casa paterna onde há lugar para cada um com sua vida provada por dificuldades”.

Permanece tenso o clima entre os Padres que olham apenas o aspecto doutrinal da indissolubilidade e os que buscam um caminho para o acesso aos sacramentos da parte dos divorciados recasados, o que inclui a revisão dos processos de nulidade de matrimônios. Há quem defenda o caminho da “nulidade espiritual” para casamentos que se desfazem em dois anos. Nesses casos, 95% das decisões dos tribunais são favoráveis e, sendo assim, por que fazer o casal passar por um processo caro e demorado e não permitir que a decisão seja tomada pelo bispo diocesano ou vigário geral? Como caminho de estudo, são três as possíveis soluções, sintetizadas pelo Cardeal Coccopalmerio, da Comissão para os Textos Legislativos: a eliminação da dupla sentença, a eliminação do colegiado de juizes (basta a sentença de um juiz), e o procedimento administrativo, ou seja, a nulidade declarada diretamente pelo bispo local em casos de matrimônio “certamente nulo”.

Dom Rino Fisichella, do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização observou que o sacramento do matrimônio ficou engessado num excesso de acentuação canonística em que o legal foi substituído pelo legalismo, de certo modo enfraquecendo a dimensão sacramental.

Iniciando a apresentação de novo tema, os métodos não naturais de controle da natalidade, o casal brasileiro Artur e Hermelinda Zamperlini foi revolucionário ao afirmar que os métodos naturais “são bons, mas na cultura atual nos parecem privados de praticidade” e os casais católicos “na grande maioria não recusam a utilização de outros métodos contraceptivos”. Realçaram a importância da vida sexual porque “um casamento é fecundo não só porque gera filhos, mas porque ama e amando se abre à vida”.  O casal é o lugar onde se articulam as três funções da sexualidade: a função relação, a função prazer e a função fecundidade. O casal se constrói ao integrar de forma equilibrada essas três dimensões.

Concluindo: a Igreja não deve assumir a atitude de um juiz que condena, mas a de uma mãe que sempre acolhe seus filhos, trata suas feridas com vistas à cura. Misericórdia, acompanhamento, compreensão e paciência são atitudes cristãs no acolhimento de tantos casais em busca de reconciliação.

Pe. José Artulino Besen

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