SÍNODO DOS BISPOS – MEDO E PROFECIA

 

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O Papa Francisco foi eleito em 2013 num Conclave onde se pediam reformas estruturais na Igreja. E iniciou o ministério petrino fiel ao que os Cardeais eleitores assinalaram nas congregações gerais antes do conclave. Evidente que sua pessoa foi uma surpresa do Espírito: um argentino sem solenidades, humano, com cheiro de pobres e pecadores.

Iniciou pela reforma das finanças vaticanas, contrariando interesses poderosos e até mafiosos. Não era possível que os católicos continuassem a ouvir que havia corrupção, desperdício, lavagem de dinheiro na Santa Sé. Isso foi feito com rigor e o Banco do Vaticano está prestes a receber a aprovação da banca mundial atestando que adotou a legislação internacional pertinente à lavagem de dinheiro. Ao mesmo tempo, age na vida interna da Igreja com relação aos bens, às suntuosidades, não receando punir desperdiçadores, o que faz com que os cristãos ousem pedir bispos e padres pastores e não administradores.

Toma decisões, mesmo que dolorosas, nisso seguindo e aprofundando a coragem de Bento XVI que, em sete anos de Pontificado, demitiu centenas de padres e numerosos bispos por escândalos ou seu acobertamento. A prisão do núncio Wesolowski, um arcebispo, a demissão do bispo paraguaio Livieres é indicação clara: foi-se o tempo das dinâmicas clericais que desfiguram o rosto da Igreja, das patologias que se expressam nos compromissos que alimentam o carreirismo clerical, sinaliza-se o final do excesso de burocracia, onde um monsenhor curial detinha mais poder do que uma Conferência episcopal. Tudo isso produz(ia) uma patologia esclerosada na vida das dioceses onde bispos carreiristas multiplicavam e alimentavam a dependência com relação a Roma, tendo em vista sua própria carreira e, com essa finalidade, entupiam Roma com questões que um padre, para não dizer um bispo, deve e pode responder com o discernimento pastoral.

Antes disso tudo, porém, a pessoa e a vida de Francisco dão testemunho de sua vida de pastor que vive a simplicidade evangélica: residindo na Casa Santa Marta, libertou-se do isolamento do Palácio apostólico, tem contato real com pessoas e, decisivo, sua Missa diária com breves homilias faz com que entre em contato espiritual e pastoral com o povo católico. Nunca se viu isso no último milênio: um Papa que fala como pároco de aldeia, que comenta a Palavra sem se escudar em afirmações doutrinais. Francisco é um Papa da Palavra, do encantamento do Evangelho, revelando-nos a cada dia o rosto do Pai narrado pelo Filho.

A maioria do povo cristão sente natural empatia por Francisco, bispo de Roma “que veio do fim do mundo”, escuta sua palavra e reanima as esperanças enfraquecidas por anos de escândalos e intrigas, como os que fizeram sofrer Bento XVI, cercado por uma corte que o controlava. Sinal evidente disso: o Papa aparece no meio do povo e nas audiências sem a antiga onipresença do Secretário de Estado.

Evidente, há muitos que não estão contentes, revoltados até com esse Papa que ocultamente acusam de pouco preparo teológico, destruidor da tradição, de fala intempestiva, demagogo nos gestos e decisões. Aproveitam os meios de comunicação ou conversas para tirar qualquer legitimidade a tudo o que Francisco faça ou diga. Oficialmente, protestam fidelidade irrestrita e, reservadamente, alimentam irrestrita infidelidade. Antes, o posicionamento era mais fácil e compensador: tudo se inseria no binômio conservador (fiel) / progressista (infiel) que alimentava carreiras e pretensas ortodoxias. Era muito bom esperar uma nomeação como recompensa pela fidelidade ao Papa, mas, no estilo de Bergoglio, o que decide é a fidelidade aos pobres, a abertura às questões sociais, ser pastor que saiba falar sem berrar, não importando ser conservador ou progressista.

O Sínodo da fidelidade e da misericórdia

Num gesto sem precedentes, Francisco delegou ao Sínodo a redação do documento final, contra o costume anterior de se levar as conclusões ao Papa e que depois redigia uma exortação apostólica. O Papa crê na assistência do Espírito numa assembléia sinodal. Os representantes das 114 conferências episcopais trabalharão a idéia que Francisco tem da Igreja como “hospital de campanha” no qual se age com “misericórdia”, sobretudo com os “feridos”, sem menosprezar os temas mais espinhosos de nossa época. O Cardeal hondurenho, Oscar Maradiaga, coordenador do Conselho de Cardeais, pediu mais flexibilidade ao Card. Müller, do ex-Santo Ofício, intransigente com relação aos divorciados recasados: “O mundo, meu irmão, não é assim. Não é preto sobre branco”.

Os sinodais discutirão casos humanos e delicados hoje se multiplicando: como trabalhar pastoralmente pessoas do mesmo sexo que adotaram crianças com vistas à transmissão da fé? O que diz o povo que está nas “periferias” da comunidade cristã? Em janeiro passado o Papa falou aos superiores gerais das ordens religiosas: “Os filhos dos casais gays e de pais separados apresentam desafios educativos novos à Igreja”.

O Sínodo sobre a família, de 4 a 19 de outubro, oferece uma demonstração bela de que Francisco não trabalha com projetos abstratos e solitários, o que seria mais simples: reafirmar a doutrina da Igreja sobre o sacramento do matrimônio, denunciar os desvios. Em nenhum momento está em jogo a indissolubilidade matrimonial, do mesmo modo que acolher um pecador não põe em jogo a lei divina. Mas, pode-se entender: há bispos, teólogos, leigos e padres burocratas bem intencionados, longe do povo, incapazes de estar próximos dos homens e das mulheres na vida real.

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Francisco autografa no gesso de menina – 3-04-2013

O Evangelho é tão simples que incomoda os amantes das tradições clericais e demoras canônicas. É tão simples como Jesus de Nazaré que fez-se pobre e recolheu à sua volta pecadores, pobres, doentes, doidos, o povo. Francisco tem o instinto do amor e do afeto: sente as dores e alegrias do povo que, por sua volta, nele sente um pai, um amigo.

O Sínodo, que se prolonga e conclui num outro Sínodo em 2015, apresentará o casamento como aliança entre homem e mulher em comunhão de amor, fidelidade e fecundidade. Um de seus frutos será reanimar o desejo de constituir uma família. E constatará o colapso da cultura do casamento, a mentalidade anti-casamento. A família ficou problemática, com frutos dolorosos para pais e filhos, para a vida cristã. O matrimônio é indissolúvel e, ao mesmo tempo, canonistas do porte de um Pe. Jesus Hortal afirmam que 60% dos casamentos não são sacramentos, pois, ou falta a fé necessária ou incluem impedimentos para um verdadeiro sacramento. O que fazer para tantos casais que, numa segunda união, vivem um amor verdadeiro, educam os filhos na fé? Não seria possível reestudar os processos de declaração de nulidade matrimonial? Não seria melhor suprimir a necessidade de sempre recorrer a uma segunda instância? O bispo não teria autoridade e discernimento para decidir casos particulares?

Em 27 de agosto o Vaticano anunciou a criação de uma “Comissão especial de estudo para a reforma do processo matrimonial canônico”, para simplificar seu encaminhamento, torná-lo mais rápido e justo. Fazem parte da Comissão canonistas, bispos, padres e leigos. O ato é importante: o Sínodo não será dominado por alguns Cardeais que, com o peso do cargo, podem centrar tudo na indissolubilidade e assim encerrar as discussões, e pode encontrar um caminho de misericórdia para tantos casais que sofrem e estão cansados e desanimados diante de tribunais que levam até décadas para decidir. O falecido Cardeal Martini afirmou, em seus últimos dias: os cristãos precisam de mais sacramentos, de mais graças, pois os sacramentos são para os pecadores. Ao invés, queremos reduzir os que podem recebê-los, condenando-os à anemia espiritual.

Francisco deseja um encontro fiel e evangélico. O Sínodo não é uma competição entre dois times, mas um encontro na coragem que brota da fé de uma mesma torcida, os fiéis cristãos.

Pe. José Artulino Besen

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