EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ

2014-09 - EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ (ícone russo do século XV)

2014-09 – EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ (ícone russo do século XV)

Há uma palavra que não funciona ao se querer narrar o mistério da Salvação cristã: é a palavra “lógica”. Já tem início com a declaração de Jesus: “se alguém quiser me seguir, tome sua cruz e me siga”. O lógico seria: “se alguém quiser me seguir, será feliz e eu o libertarei da qualquer cruz”. A lógica de uma vida venturosa e vencedora é subir, vencer, crescer, acumular, ser servido. A lógica de Jesus não tem lógica: descer, repartir, perdoar, servir, amar o inimigo, ser o último. O mundo diz: seja amado!, e Jesus: ame!.

A imagem de todas as divinas contradições está num símbolo de derrota e que a Igreja festeja como glória: a Cruz. A maldita cruz é celebrada como bendita cruz. No dia 14 de setembro, as Igrejas do Oriente e do Ocidente festejam a Exaltação da Santa Cruz, cuja origem está em Jerusalém, na dedicação da Basílica da Ressurreição, no ano 335. Local da Basílica: onde o Senhor foi crucificado, morto e sepultado. Onde o Senhor venceu a morte e ressuscitou.

Seguindo a lógica humana, os homens se gloriam das vitórias, sucessos, beleza, prazer, fama: nós, porém, devemos gloriar-nos da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é nossa salvação, vida, esperança de ressurreição, escreve São Paulo.

Na Festa da EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ a verdade da Liturgia cristã narra a vitória do amor sobre o ódio, da vida sobre a morte: revela que, no momento em que Adão e Eva foram seduzidos por Satanás e comeram do fruto da árvore do bem e do mal, movido pela compaixão o Pai decidiu plantar outra árvore, cujo fruto destruiria a morte: a árvore da Cruz. Os Pais da Igreja narram o drama do Calvário: houve um duelo entre a vida e a morte, e o inimigo caiu na própria cilada, julgando que na crucifixão obteria a vitória definitiva. Mas, foi derrotado: do lenho da morte Deus fez nascer a redenção. Satanás gravou na cruz todos os pecados da humanidade, querendo mostrar a derrota do Bem e o fracasso do Criador. Novamente sai derrotado: do lado direito do Senhor corre sangue e água e lavam os pecados gravados na cruz.

Com os pregos prendendo o Senhor na cruz, Satanás quis revelar a força de sua maldade vitoriosa condenando o Senhor a sofrer “o mais terrível e desprezível suplício” (Cícero), reservado a ladrões e escravos. Para deixar bem claro sua vitória, determinou que a cruz fosse erguida no alto, enterrada num chão que guardava nas entranhas o sangue de muitíssimos condenados.

Foi derrotado: o sangue que escorreu pela cruz penetrou a terra, transfigurando-a em terra de salvação e de vida. E o peso do sofrimento do Senhor fez com que a cruz maldita penetrasse o chão no momento em que gemia: “Pai, perdoa, eles não sabem o que fazem. Em tuas mãos entrego meu Espírito”. Naquela hora, a cruz se transforma na Cruz que penetra as profundezas dos abismos infernais, rompe os grilhões da morte, derrotada pela Vida. A Luz vence as trevas e os prisioneiros podem contemplar o Senhor da Glória e saborear os frutos da Árvore da Vida.

A Cruz que une a terra ao céu, sinal glorioso do amor divino

Reconciliada, na Liturgia a comunidade escuta: A Cruz exaltada convida toda a criação a cantar hinos à paixão imaculada daquele que sobre ela foi erguido: sobre a Cruz ele levou à morte quem nos tinha dado a morte, ressuscitou os mortos e, tendo-os purificado, em sua compaixão e infinita bondade os fez dignos de viver nos céus.

Após aquele dia, destinado por Satanás para ser o dia da infâmia, nós, redimidos pelo Crucificado, festejamos a Cruz vivificadora, preço generoso pelo nosso resgate, exaltada nos céus. Santa Faustina narrou uma visão que teve do Dia do Juízo: querendo salvar toda a humanidade, Cristo apresenta o Pai, os Santos, a glória celeste, porém, os homens e mulheres não se convencem e o desprezam. Então, como último troféu, a Cruz aparece nos céus para descrever o preço de nossa salvação. É o preço de cada um de nós.

O ícone da Cruz é ícone da consolação, há cinco séculos contemplado pelo povo russo: ao pé da Cruz, Maria leva a mão à garganta para sufocar o grito de dor, e o apóstolo João olha para o infinito, meditando o mistério encerrado nessa cena de dor. Mas, o Senhor Crucificado é o Senhor Ressuscitado, inseparavelmente: é de paz profunda seu rosto, o corpo se volta para a Mãe numa curva de oferta. O Sangue não é recordação dolorida, mas sangue que dá vida.

Penetrando a terra, contemplamos a Cruz abrindo os porões onde estão os mortos, os ossos que recebem carne, e o Espírito que dá vida à carne. A antiqüíssima Liturgia da Igreja Antioquena medita a voz que se espalha pelo reino da morte: “A paz esteja convosco”. Adão, que jamais deixara de recordar aquela voz que escutara no Paraíso perdido, grita para todos: “É o Senhor!”. E novamente todos escutam: “A paz esteja convosco”, e proclamam: “E contigo também!”. A luz celeste invade o espaço das trevas e todos se saúdam na alegria da vida recebida.

O povo eslavo, provado por séculos de perseguição, nunca deixou de cantar o hino “Vitória! Tu reinarás! Ó Cruz, tu nos salvarás”. A Cruz nunca desviou o olhar de tantos homens e mulheres, anciãos e criancinhas diante de seus carrascos. Antes de a espada ou o fuzil penetrarem seu peito, sorridentes diziam: “Nenhum poder tens sobre nós. Cristo ressuscitou!”.

Exaltando a santa Cruz, continuemos o hino: “À sombra de teus braços a Igreja viverá. Por ti, no eterno abraço, o Pai nos acolherá”. Por isso, “adoramos a tua Cruz, Senhor, e glorificamos a tua santa ressurreição!”

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Ademar A. Cirimbelli em 17 de setembro de 2014 - 10:09

    Obrigado pelo belo texto, Padre Besen.

%d blogueiros gostam disto: