PADRE – TESOURO EM VASO DE BARRO

O humilde padrezinho indo para a igreja (Ottone Rosai)

O humilde padrezinho indo para a igreja (Ottone Rosai)

No dia 4 de agosto, nós, padres que trabalhamos nas paróquias e comunidades, celebramos nosso dia, porque é festa do padroeiro dos párocos e vigários, São João Maria Vianney (1756-1859), o humilde, santo e sábio Cura d’Ars. Ele falou que se soubéssemos o amor que Deus tem por nós, explodiríamos, pois não resistiríamos a tanto amor. Teríamos um infarto por excesso de amor.

Talvez nem sempre conseguimos sentir ao menos um pouco desse amor, e passamos a viver uma vida triste, sem a alegria do Evangelho, a alegria de sermos amados por nosso povo, a alegria de podermos ver Jesus nas pessoas concretas com quem trabalhamos. E, mais ainda, a imensa alegria de sermos as mãos e a boca de Jesus na administração dos sacramentos.

“Ora, trazemos esse tesouro em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós” (2 Cor 4, 7). São Paulo, padre como nós, sente nas perseguições o sinal da autenticidade: nelas percebe que muitos, não podendo possuir tamanho tesouro, procuram desmerecê-lo e, não sendo capazes de aceitá-lo, por todos os meios tentam destruir o portador. Assim mesmo, tudo é motivo de alegria, tanto o tesouro quanto o barro que o esconde e revela. A cruz não pode ser excluída na vida do padre.

Nós, padres, no feliz dia de nossa ordenação sentimos a máxima alegria pelo tesouro que o Senhor deposita em nós. Com o tempo, porém, essa alegria é substituída pela dúvida e o cansaço, pelo sentimento de impotência, e achamos que Deus nos fez portadores de barro, não de tesouros. O povo, por sua vez, cai em ambigüidades que nos frustram: uns nos julgam tesouro escondido no barro, outros nos vêm como barro escondido no tesouro. Tudo esperam de nós por nos confundirem com tesouros, e nada esperam de nós por verem apenas barro sem liga, sem utilidade.

No mundo das aparências, querem-nos como barro bem esculpido, colorido, renegando-nos quando temos apenas a dar o “em nome de Jesus Cristo, levanta-te e anda!” (At 6, 3). Não querem o novo do Evangelho e se contentam com a novidade da moda. E até chegamos a cair nesse jogo.

Nós, padres, pouco alegramos nossos olhos com as crianças, os velhinhos, os pobres, os doentes, os viciados que sentem imensa ternura por nós quando os contemplamos com caridade e lhes dirigimos a palavra. Mas, muito entristecemos nossos olhos diante de pessoas importantes, cultas, ricas e bonitas que riem de nossa simplicidade, da singeleza com que lhes anunciamos a palavra de Jesus, que porta vida verdadeira. Os pobres nos olham como somos, e nos amam. Os importantes do mundo preferem nos olhar como tesouros cheios de barro, mas, a alegria sacerdotal se alimenta na contemplação do humilde Jesus, pobre entre os pobres, cheio de misericórdia, e não na imponência dos Cristos dourados.

Também acontece que sofremos o abandono de nosso bispo, que se sente um soba africano e nos trata como funcionários. Mas, o bispo também é padre e sofre suas solidões.

Nós, padres, com freqüência escondemos nossa tristeza, insegurança, complexo de inferioridade revestindo-nos de paramentos luxuosos, capas suntuosas, vestes que anunciam nossa importância desimportante e que tantas vezes ocultam um coração esterilizado. Nos iludimos com o elogio recebido porque estamos bem enfeitados, barro colorido a esconder nosso tesouro.

Os pobres também elogiarão esses paramentos, mas por outro motivo: “nosso padre” é especial, merece nossa admiração, enquanto que os “ricos” se contentam em elogiar nosso bom gosto, o bom odor de nossos frufru.

O povo e o padre – um encontro de rostos

Caindo na tentação de uma pseudo-modernidade, passamos horas do dia e da noite na internet, no facebook, postando e recebendo mensagens e fotos, esquecendo-nos de que não há evangelização sem os sentimentos, o olhar, o face a face. Colocando o computador entre minha face e a face do outro, torno impossível a comunicação do Evangelho, que supõe a leitura do sentimento. É verdade que muitos jovens não são mais capazes de expressar e conhecer sentimentos por viverem essa ilusão, mas o padre pode alimentar isso? Sem dúvida, comunica mais estarmos diante de um rosto sem a mediação da informática. O uso excessivo da tecnologia faz as pessoas perderem a habilidade de interagir, de identificar emoções no rosto de outras pessoas (cf. Peter Salovey). E assim, como ver o rosto que transmite pecado, graça, dor, alegria, crise afetiva, emocional? Quem sabe, nossa timidez ou dúvida sobre a força da palavra viva nos faz buscar o escondimento num quarto, diante de uma tela. São as tais de estratégias de evangelização tão citadas, e tão inúteis, pois, se a comunicação evangélica necessita de estratégia não é mais comunicação, pouco serve. Não há estratégia para a verdade, dando-nos exemplo o papa Francisco, original porque verdadeiro.

Nós, padres, em geral somos pessoas humildes, de famílias de trabalhadores simples, da roça ou periferia. Não carecemos de maquiagem para sermos importantes, pois o Senhor nos chamou em nossa simplicidade, exatamente para revelar que tudo é obra da graça, que nossa pobreza humana é mais do que suficiente para o ministério que nos confiou. Nosso povo confia muito em nós se somos pobres, limitados, de modo que a glória de Deus, e não a nossa, resplandeça.

 O povo nos ama como nós somos e tudo perdoa. Ele sabe que somos humanos, frágeis, mas quer de nós apenas isso: que sejamos bons, não eficientes. Nossa misericórdia é fundamental, uma misericórdia para nós e para ele, e a misericórdia divina a nos unir. Deus resiste ao soberbo, o pobre resiste ao soberbo. A bondade humilde salva a todos e torna o Evangelho transparente.

E lembro a frase do Pe. Antônio Vieira: o anúncio da palavra é estéril quando nos elogiam “que pregador que nós temos”. E é fecundo quando ouvimos “que pecador que nós somos”.

José Artulino Besen

 

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  1. #1 por Ademar A. Cirimbelli em 1 de agosto de 2014 - 14:53

    Padre Besen, seu testemunho é que faz aumentar nossa fé.

  2. #2 por Pe. José Artulino Besen em 1 de agosto de 2014 - 18:11

    Ademar, muito obrigado por sua caridosa leitura do humilde texto. Lembre sempre dos padres em sua oração. Um abraço, Pe. José

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