IV – A FÉ – ATO PESSOAL E ATO ECLESIAL

pentecostes

Se todos os cristãos, por questão de lógica, creem em Deus e em Jesus Cristo seu Filho, por que falta a unidade entre os crentes, por que a competição entre os que vivem a mesma fé? Damos ao mundo o espetáculo da divisão, da competição, e até do ódio, o que se constitui num grande obstáculo para que o mundo creia. Jesus, em sua oração sacerdotal, pede ao Pai que os discípulos creiam e se amem, para que sejam um como ele o é com o Pai (Jo 17,21). Todo o problema do ecumenismo tem origem nessa dor: a divisão dos cristãos em grupos que se combatem, ou não se aceitam, ou querem o monopólio de Cristo.

A Carta apostólica PORTA FIDEI, que convocou o Ano da Fé, afirma: “O cristão não pode jamais pensar que o ato de crer seja um fato privado. A fé é decidir estar com o Senhor, para viver com Ele. E este ‘estar com Ele’ introduz na compreensão das razões pelas quais se acredita” (nr. 10). Cristo que nos fala é o conteúdo de nossa fé e não podemos fazer seleções de aspectos da fé, para não dividirmos Cristo em porções a la carte.

A fé é pessoal, não somos um rebanho levado pela onda: necessito dizer “eu creio” ao outro, que também me diz “eu creio”. Mas, o “eu creio” encontra sua realização plena ao confirmarmos “nós cremos”. Na Liturgia, proclamamos isso com bastante força após ouvirmos a Palavra de Deus e professarmos nossa fé dizendo “Creio em Deus Pai” como comunidade de fé.

A fé, dom divino a nós concedido, impele-nos necessariamente a uma comunidade/comunhão de fé: cremos na Igreja e com a Igreja. A própria profissão da fé é um ato simultaneamente pessoal e comunitário. É na fé da comunidade cristã que cada um recebe o Batismo, sinal eficaz da entrada no povo de Deus que busca a salvação. É da Igreja e na Igreja que recebemos o anúncio de Cristo e, deste modo, podemos afirmar o que de modo tão belo e claro afirma o nosso Catecismo: “Eu creio”: é a fé da Igreja, professada pessoalmente por cada crente, “Nós cremos”: é a fé da Igreja, confessada pela assembléia litúrgica dos fiéis. “Eu creio”: é também a Igreja, nossa Mãe, que responde a Deus pela sua fé e nos ensina a dizer: “Eu creio”, “Nós cremos”.” (Catecismo, nr. 167). Estando reunidos para ouvir a Palavra e partilhar o Pão, nosso ato de fé é pessoal (eu creio) e comunitário, todos a uma só voz proclamando “eu creio”. 

Crer com a Igreja – Povo de Deus

É pelo Espírito Santo que somos capazes de crer, e é pelo Espírito Santo que a Igreja nos transmite o conteúdo da fé. Temos, hoje, bastante dificuldade de admitir que haja um “conteúdo da fé”, porque gostamos de fazer a experiência individual da aceitação do Senhor morto e ressuscitado. É a dificuldade de sermos discípulos à escuta. Há o primeiro passo, a que se segue o “no que eu creio”, que não depende mais de mim, mas da Igreja que recebeu do Senhor a missão de nos transmitir a Sagrada Escritura de modo verdadeiro e fiel, e numa comunidade, como em Pentecostes. Pelo fato de no decorrer da história tantos acharem ter descoberto uma novidade na Bíblia é que surgiram e surgem novas comunidades e seitas religiosas.

A fé adquire todo seu sentido quando somos capazes de colocar nossa inteligência e nossas convicções pessoais a serviço dela, na certeza de que é mais verdadeiro o que a comunidade me oferece para a vivência cristã do que a pobreza do “eu acho que”.

Continuando com a Carta de Bento XVI: “O conhecimento da fé introduz na totalidade do mistério salvífico revelado por Deus. Por isso, o assentimento prestado implica que, quando se acredita, se aceita livremente todo o mistério da fé, porque o garantidor da sua verdade é o próprio Deus, que Se revela e permite conhecer o seu mistério de amor” (nr. 10). Nada mais belo para nosso serviço missionário e de caridade do que a unidade de fé que se expressa no amor de irmãos.

José Artulino Besen

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