II – A FÉ – DOM OFERECIDO AO DISCÍPULO

A FÉ - 2 - DOM OFERECIDO AO DISCÍPULO (imagem)

O pecado dos primeiros pais foi a negação da presença e da autoridade de Deus. Quiseram ser “como Deus” e caíram na solidão e na vergonha. Decidido a não perdê-los, Deus foi-lhes ao encontro: “Adão, onde estás?” (Gênesis 3,9). Essa mesma pergunta é feita a cada um de nós a cada dia. Deus nos procura para nos falar e oferecer-nos a salvação, a vida plena. Ao escutarmos a voz de Deus e ao acolhê-la permitimos que nasça e crie espaço em nós o dom da fé. Sim, a fé é sempre dom, graça, nunca merecimento. E a fé se alimenta da fé, da voz de Deus por todo o arco da existência. Ninguém pode dizer “já tenho fé que chega”, pois isso significaria que não tem mais fé, não escuta mais Deus.

Para reforçar a maior importância do escutar do que do falar, o povo diz que Deus nos deu duas orelhas e uma boca. Isso é verdade humanamente, pois amamos quando nos dispomos a escutar nosso próximo. No nascimento e crescimento da fé, porém, podemos dizer que os dois ouvidos são fundamentais, cada um com uma finalidade: um ouvido escuta a voz de Deus em nossa consciência, em sua Palavra revelada, a Sagrada Escritura e o outro, escuta a voz da vida, do mundo, da realidade. As duas vozes crescem juntas e juntas produzem frutos: Deus me fala para que eu ouça a voz do mundo e a vida me fala para que eu a transforme escutando a voz divina.

A fé nasce da audição, diz São Paulo aos Romanos (10,17). Quem não sabe ouvir é incapaz de captar a voz de Deus. A grande crise de fé é, em parte, produto de um mundo e vida egoístas onde temos ouvidos apenas para nós. O mundo do egoísmo é também mundo de descrença. Muitas pessoas até parecem estar buscando a Deus mas, na verdade, estão apenas buscando a si próprias. A fé nos leva à abertura a Deus e à vida e mata em nós todo o egoísmo que herdamos de Adão e Eva.

O Antigo e o Novo Testamentos são um contínuo falar divino: Deus chama Noé, chama Abraão, chama Moisés, chama os reis, chama os profetas. Deus chama o povo continuamente e o chama com infinito amor: Deus fala ao povo como o marido fala à esposa, como o amado chama a amada (veja e beleza amorosa do Cântico dos Cânticos, onde um Deus apaixonado procura o motivo de sua paixão, cada um de nós), Deus chama mesmo que estejamos na prostituição, trocando-o por outros amores, como na história de Oséias. Deus nos chama para falar-nos.

Jesus, Palavra que releva o Pai

E, por fim e para sempre, Deus nos fala por seu próprio Filho, Jesus Cristo. Lemos no Catecismo Católico: “Podemos crer em Jesus Cristo, porque Ele próprio é Deus, o Verbo feito carne: «A Deus, nunca ninguém O viu. O Filho Unigênito, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer» (João1, 18). Porque «viu o Pai» (João6, 46), Ele é o único que O conhece e O pode revelar” (CIC 151). Jesus é a Palavra de Deus, o narrador de Deus. Quem o escuta e contempla nos Evangelhos escuta e contempla o próprio Deus, o Pai.

Quando o povo está admirado com a sabedoria de Jesus, alguém grita: “feliz aquela que te gerou” e Jesus corrige: “Antes feliz quem escuta a Palavra de Deus e a põe em prática” (Lucas 8,21), porque esse recebeu e acolheu o dom da fé. Podemos, aqui, lembrar Isabel falando com Maria: “Bem-aventurada és tu, Maria, porque acreditaste” (Lucas 1,45). Quem tem a capacidade de ouvir e crer herdará uma bem-aventurança.

Tendo cumprido sua missão de nos revelar o Pai e de nos oferecer o dom da salvação, Jesus volta ao Pai, confiando-nos a missão de continuar o anúncio e a vivência do Evangelho. Mas, não nos deixa sós, como órfãos, e nos envia o seu Espírito: “O Espírito penetra todas as coisas, até o que há de mais profundo em Deus […]. Ninguém conhece o que há em Deus senão o Espírito de Deus” (1 Coríntios 2, 10-11; CIC 152). E o Espírito nos revela todas as coisas.

Crer é fruto de um encontro, crer é fruto da escuta, do discipulado. Somos discípulos ouvindo nosso Mestre, necessitamos continuamente de invocar a graça de termos o ouvido de um discípulo.

Pe. José Artulino Besen

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