MONSENHOR ANDREAS WIGGERS

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Andreas Wiggers nasceu em Cambará, Bom Retiro, SC em 20 de maio de 1933, numa família de agricultores. Descende dos Wiggers de Münster, Vestfália, que chegaram ao Brasil em 1863 e, posteriormente, foram alocados na Colônia catarinense de Teresópolis, depois dirigindo-se às terras férteis de Bom Retiro, na região serrana catarinense. Era o filho caçula de Guilherme Wiggers com Elizabeth Kauling, numa casa de sete irmãos, incluindo Rodolfo que foi frade franciscano com o nome de Frei Nicolau.

Cresceu numa família radicada no trabalho agrícola e na vivência da fé católica.

Com o desejo, alimentado na família e na paróquia, de ser padre, foi encaminhado ao Seminário Menor de Azambuja, da arquidiocese de Florianópolis e, para os estudos filosóficos e teológicos, a São Leopoldo, com os padres jesuítas. À época, a diocese de Lages não possuía Seminário.

A pedido do bispo diocesano de Lages, Dom Frei Dom Daniel Hostin, OFM, interrompeu os estudos eclesiásticos e por dois anos, em 1954 e 1955, exerceu a função de professor de português e de geografia no recém-fundado Seminário Diocesano, onde foi prefeito da divisão dos maiores. Nos seminários, os alunos eram divididos entre maiores e menores, a depender da idade, com pouquíssima comunicação entre si.

Retomando e concluindo o estudo da teologia, foi ordenado sacerdote por Dom Daniel Hostin na catedral de Nossa Senhora dos Prazeres de Lages em 10 de dezembro de 1961. Andreas se caracterizava pela piedade, espírito de oração e fez de sua opção pelo ministério sacerdotal uma entrega total e definitiva a Deus e ao serviço na Igreja. Prova disso foi o lema escolhido: “Que minhas mãos sejam uma manjedoura para que Jesus nasça todos os dias”, com profundo sentido eucarístico, pois na Eucaristia a mão do padre é a manjedoura onde brota o Pão da Vida. A celebração da Missa foi um compromisso alegre assumido em todos os dias de sua existência.

Pe. Andreas exerceu o ministério em dois campos: formação de novos padres e trabalho em âmbito diocesano na pastoral, na Cúria e na administração, além de presença constante nos organismos pastorais do Regional Sul-IV da CNBB. Sua seriedade e dedicação tornaram-no merecedor da confiança dos bispos, dos padres e ex-alunos. Sua simplicidade e ausência de ambição pessoal chamavam a atenção de quem com ele conviveu.

Ministério do serviço eclesial

Sua primeira missão foi ser professor e auxiliar na administração do Instituto São João Batista Vianney, nome do Seminário diocesano de Lages, de 1962 a 1964.

Muito estimado, era reconhecido como ótimo professor de matemática. O Professor Ary Martendal, seu ex-aluno, recorda a didática dele em outras disciplinas: “Participar de suas aulas era um alívio, tal a leveza e falta de ameaças, exceção de regra num rígido sistema de estudos demarcado por rigoroso regulamento. Sempre achava formas didáticas mais agradáveis e nos trazia curiosidades. Eu, como piazote criado na roça, escutava embevecido suas explanações ou leituras complementares”. Todos os ex-alunos dele guardam dele a bondade, compreensão e piedade.

Nos anos de 1963 a 1969, exerceu a função de prefeito de disciplina no mesmo Seminário e, em 1970, foi nomeado Reitor. Esse período foi bastante difícil para a Igreja diocesana de Lages, que vivia o forte e inesperado processo de renovação conciliar e, ao mesmo tempo, ressentia-se da diminuição no número de seminaristas, além do sofrimento pela desistência do ministério de bons sacerdotes, jovens, inclusive formadores do Seminário.

Bom na matemática e bom na administração, já em 1964 foi nomeado Ecônomo, função exercida em diversos campos diocesanos e sempre com competência. Não foi marcado pela tentação financeira.

Além do Seminário Menor de Lages, a diocese mantinha um Pré-Seminário em Peritiba, uma espécie de preparatório para o Curso ginasial, e Pe. Andreas foi nomeado seu reitor em 1971, acumulando com a missão de pároco de Santo Isidoro e vigário paroquial de Santa Catarina de Piratuba. Em 1979, o prédio do seminário foi doado ao hospital local.

Novo trabalho, em 1972, como cura da Catedral e coordenador dos Meios de Comunicação da Diocese de Lages e, de agosto de 1973 a janeiro de 1974 vigário substituto de Bom Retiro, sua terra natal.

Não lhe faltaram trabalhos nem disposição para desafios novos, sempre disposto, silencioso e sorridente.

A partir de 1977 seu ministério foi exercido ano serviço diocesano. De 26 de setembro de 1977 a 1981 foi Coordenador de Pastoral da Diocese de Lages. Conservando a função, de setembro a dezembro de 1977 foi também reitor e diretor do Seminário de Lages que, então, vivia forte crise pelos contratempos do novo sistema pedagógico e espiritual na formação dos seminaristas. Ali pode contar com a fraterna colaboração do Pe. Otávio de Lorenzi.

Em 1980, assumiu o delicado encargo de administrador da Mitra Diocesana de Lages e presidente da Ação Social e Beneficente, substituindo Mons. Luís Orth, venerado e inesquecível sacerdote. Ao mesmo tempo, foi encarregado do Arquivo diocesano, salvando e organizando os documentos históricos da diocese, portarias, provisões e o que mais restava. Lages lhe deve esse trabalho competente: não é um grande arquivo, mas possui o que foi possível catalogar.

Vida de oração e serviço

Em todos esses ofícios, afirma Ary Martendal, Pe. Andreas “foi figura humilde, serviçal, postada à sombra de qualquer honra e fama, deixando em todos aqueles que com ele conviveram um conceito unânime de homem pacífico e virtuoso”.

Dom Honorato Piazzera, SCJ, segundo bispo diocesano, quis que a diocese abrigasse um mosteiro de Irmãs contemplativas que tivessem como missão orar pela Diocese. Quando recebeu sinal positivo das Irmãs Clarissas, logo dispôs a doação do terreno na Avenida Papa João XXIII, vizinho ao Seminário e ao Centro de Pastoral. Mons. Luís Orth assumiu a construção do Mosteiro Nazaré, inaugurado em 1977. Nomeado capelão, Pe. Andreas igualmente nutriu um carinho especial pelas Clarissas e muito sofreu quando, em 2011, as Irmãs foram transferidas. Felizmente, três meses depois chegaram sete religiosas de Marília, SP, dando continuidade à vida contemplativa serrana.

Em 25 de março de 2008 faleceu seu irmão, Frei Nicolau Wiggers, OFM que, a pedido pessoal, foi sepultado em Bom Retiro, no distrito de Cambará, sua terra natal. Ele e Mons. Andreas ali tinham celebrado a Missa no dia de Finados de 2007. Frei Nicolau era um frade santo e popular, totalmente dado aos pobres, pedindo para si a pensão para reparti-la entre os necessitados. Um frade feliz, como narra o confrade Frei Pedro Galdino de Oliveira: “Numa passagem rápida por Porto União, conheci o Frei Nicolau, no ano de 1999. Notei que estava muito alegre. Perguntei-lhe: “Frei, o senhor está contente?” “Sim”, respondeu-me. E completou: “Estou cansado de ser feliz!”. Convivendo pouco (quase um ano) com ele em Paty do Alferes, pude constatar que a frase era verdadeira”.

Pe. Andreas também caminhava para o dia final: no dia 26 de abril de 2012, às 12:10h, faleceu no Hospital Nossa Senhora dos Prazeres, de Lages, aos 78 anos.

Seu corpo foi velado na capela do Mosteiro Nazaré, onde no mesmo dia foi celebrada a Eucaristia. No dia 28, às 8:30h, após as Exéquias, foi trasladado para o distrito de Cambará, em Bom Retiro.

Com a presença de multidão de amigos, de muitos sacerdotes e religiosas, às 15h, Dom Oneres Marchiori, terceiro bispo diocesano, grande amigo, com quem por anos trabalhou e agora bispo emérito de Lages, presidiu a Santa Missa com encomendação. Em seguida, foi sepultado junto as seus pais e Frei Nicolau.

Dom Irineu Andreassa, bispo de Lages, estava em Aparecida participando da Assembléia geral da CNBB, razão de não estar presente, mas enviou mensagem de gratidão por sua vida e trabalho, oferecendo esse belo testemunho: “A partida de quem amamos é sempre uma catequese para nós que ficamos. Contemplando a vida do Monsenhor Andreas, conseguimos colher muitos exemplos e virtudes. Cito, entre as tantas:

1) Monsenhor Andreas contribuiu notoriamente com a história de nossa Diocese. Seria difícil descrever a Diocese de Lages sem citar este nosso irmão. Contribuiu com seu ministério, com seu exemplo, sua presença, sua palavra. Como grande benfeitor, possibilitou que a Diocese tivesse muitos meios e espaços que facilitam a evangelização. Formou muitos dos sacerdotes como professor e formador. Acompanhou as atividades e deu a devida assistência à diocese como Vigário Geral.

2) Monsenhor é para nós um modelo de amor. Porque amava a Deus, sabia que seu sofrimento era passageiro. Porque amava ofereceu suas dores aos mais necessitados. Porque nos amava, jamais reclamou de qualquer enfermidade – porque pensava que iria incomodar. Nós, muitas vezes, rezamos juntos na oração das Laudes: “fazei-nos carregar o peso do dia, sem jamais murmurar contra a vossa vontade” e acredito, piamente, que essa oração lhe era muito presente.

3) Monsenhor morreu pobre. Morreu pobre, mas porque teve uma vida pobre. Entregou-se nos braços do Pai sem ter sequer um bem material. Homem de um desprendimento imenso, fez da sua vida um total doar-se. Carregava no coração um desejo: ajudar. Se para ajudar fosse preciso dar o que tinha, ele o fazia com alegria”.

Quem teve a graça de estar com Pe. Andréas percebia que era sempre o mesmo: humilde, afável, sorridente, pronto para servir. A simplicidade extrema lhe ocultava a inteligência, a atitude modesta, as responsabilidades que assumia. Engrandeceu o clero serrano, marcou a vida católica por tantos anos de dedicação integral nos seus 51 anos de ministério, sempre fiel a seu lema: “Que minhas mãos sejam uma manjedoura para que Jesus nasça todos os dias”.

Pe. José Artulino Besen

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