FRANCISCO VISITA OS FILHOS DE ABRAÃO

Em Jerusalém, o abraço dos filhos de Abraão - Francisco, o Rabino e o mestre muçulmano

Em Jerusalém, o abraço dos filhos de Abraão – Francisco, o Rabino e o mestre muçulmano

A peregrinação que Francisco realizou nos dias 24, 25 e 26 de maio de 2014 à Terra Santa deve ser incluída nos caminhos dos patriarcas que demandaram Jerusalém em busca da Terra da Promessa, nos caminhos dos peregrinos judeus, cristãos e muçulmanos que há dois milênios seguem as trilhas que levam ao Jordão, a Belém, a Jerusalém. Francisco foi mais que um patriarca, mais que um profeta, mais que um bispo, porque foi patriarca, profeta e bispo ao mesmo tempo. Paulo VI, em 1964 deixou Roma simbolicamente para convidar a Igreja a retornar a Jerusalém, sob o signo do ecumenismo. João Paulo II, em 2000, quis refazer o caminho de Abraão de Ur da Caldéia a Jerusalém sob o signo da mais profunda espiritualidade bíblica que convidava os cristãos a sair da terra da segurança e buscar a “terra que te mostrarei”.

Francisco, o pobre desarmado, foi abraçar afetuosamente os povos cuja fé deita raízes em Abraão, os povos do Livro do único Deus: a Torá, o Evangelho, o Alcorão, JAWEH, o PAI, ALLAH. Jordânia, Palestina e Israel sentiram-se amados pelo Homem de vestes brancas que não veio como um novo cruzado, mas como um irmão, e irmão de verdade, sem jogos de sedução, de diplomacia, de teologia.

Nunca poderíamos imaginar o Papa de Roma dirigindo-se ao rio Jordão de carona num Jeep dirigido por Abdallah, rei da Jordânia. A simplicidade e despojamento de honras fez o bispo de Roma viver como Filipe que pega carona com o ministro da Rainha de Candace, como Pedro e Paulo que embarcam para Roma a fim de anunciar o Ressuscitado, como Jesus, o pobre de Nazaré que sobe para Jerusalém.

Os encontros de Francisco com cristãos e muçulmanos em Amman, em Belém, com judeus, muçulmanos e cristãos em Jerusalém revelaram que é possível a paz que nasce do coração pobre aquecido pelo amor, que é possível convidar a se encontrarem com ele em sua casa romana o presidente palestino Abu Mazen e o israelense Shimon Peres, convite prontamente aceito. Alguns comentaram que o convite não leva a nada, que o Papa arrisca seu prestígio com o provável fracasso. Há equívocos nessa dúvida: Francisco convidou para visitarem-no e para rezarem juntos, não para discutir alta geopolítica, e confia no poder da oração, na paz única que brota da fé no mesmo Deus de Abraão. Fora desse horizonte, sobra a paz do medo, da guerra, do comércio das armas.

Papa Francisco revelou toda sua humanidade – e a fé é verdadeira quando nos revela – ao sofrer com os cristãos perseguidos por causa da fé cristã no Oriente médio, sofrer com as crianças e adultos no campo de refugiados palestinos, sofrer com o povo judeu que até o fim da história recordará o Holocausto nazista.

Não deve ser fácil acompanhar Francisco, não porque quebre o protocolo, mas porque é intuitivo e age por inspiração: assim, é verdade que foi ao Muro das Lamentações, mas também parou no vergonhoso Muro que em Belém separa palestinos e judeus. Mas, não falou de muros, tocou-os com as mãos, gesto mais forte.

É verdade que reconheceu o direito dos palestinos a uma pátria, mas também reconheceu o mesmo direito aos judeus visitando o túmulo de Theodoro Herlz, pai do sionismo moderno. Acima de tudo, fez com que os moradores dessa região conflagrada há milênios antevissem a beleza do abraço da paz, que é possível, necessário.

Os gestos de Francisco confirmam e intensificam a beleza e profundidade de suas palavras. Há 50 anos, Paulo VI e Atenágoras se abraçaram em Jerusalém: Francisco abraçou Bartolomeu, e enriqueceu o gesto caminhando de mãos dadas, um ajudando o outro a caminhar, pediu até ao venerável Patriarca de Constantinopla que cuidasse para não escorregar no piso do Santo Sepulcro. Os dois gostariam de ir muito além, mas necessitam de levar em conta a realidade histórica e teológica de suas veneráveis Igrejas.

Num tempo, beijavam-se os pés aos papas, depois, beijava-se o anel. Em Francisco, o gesto de afeto e respeito se aprofundou: ele beija as mãos das pessoas. Beijou a mão da rainha Rânia e, em Jerusalém, beijou as mãos dos judeus sobreviventes do holocausto, num pedido de perdão em nome de toda a humanidade pelo crime inaudito do assassinato de seis milhões de judeus nos campos de concentração. Mas, normalmente beija as mãos de padres idosos, de doentes, de presidiários. São gestos de carinho, principalmente gestos de humildade que refletem a imagem de um Deus que em Jesus se abaixou, se anulou, fez-se servo mesmo sendo Senhor.

As palavras simples e diretas, acompanhadas desses gestos, possuem um efeito desarmador único e permitiram a Bergoglio ser ele mesmo até o mais profundo de seu ser. Ele ama, e o demonstra com os gestos, como ir à basílica romana de Santa Maria orar e pedir pela viagem, levando um buquê de rosas que depositou no altar. Quando em Buenos Aires, observando o esquife de um velho padre percebeu como estava pobre e saiu a comprar flores para ornamenta-lo.

O objetivo traçado para a peregrinação à Terra Santa foi celebrar os 50 anos da peregrinação de Paulo VI, rememorar o abraço entre Papa Montini e o patriarca Atenágoras. Conduzido pelo amor e pela espontaneidade, o objetivo foi suplantado pela visita a Belém e encontro com os refugiados palestinos, a parada diante do muro de Belém e o convite a Abu Mazen e Shimon Peres a rezarem com ele em sua casa no Vaticano.

Subtraindo o impacto das imagens desses gestos, suas palavras tocam profundamente, são palavras de profeta bíblico, palavras de um Pai da Igreja, palavras simples, embelezadas pelas parábolas, desafiantes.

Amman, Belém, Jerusalém – muçulmanos, cristãos e judeus

Em Amman, 24 de maio, em Missa na qual mais de mil crianças fizeram a Primeira Comunhão, anunciou o Paráclito que é o próprio Jesus e o “outro”, que é o Espírito Santo. O Espírito Santo que prepara Jesus para a missão, unge-o no Jordão e o envia: “Jesus é o Enviado, cheio do Espírito do Pai. Ungidos pelo mesmo Espírito, também nós somos enviados como mensageiros e testemunhas de paz. … A paz não se pode comprar, não está à venda. A paz é um dom que se deve buscar pacientemente e construir ‘artesanalmente’ através dos pequenos e grandes gestos que formam a nossa vida diária. Consolida-se o caminho da paz, se reconhecermos que todos temos o mesmo sangue e fazemos parte do gênero humano; se não nos esquecermos que temos um único Pai no Céu e que todos nós somos seus filhos, feitos à sua imagem e semelhança”.

Na Praça da Manjedoura, em Belém, dia 25, partiu do texto “Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura” (Lc 2, 12). Pergunta sobre nossa sensibilidade diante das crianças e afirma: “Quando as crianças são acolhidas, amadas, protegidas, tuteladas, a família é sadia, a sociedade melhora, o mundo é mais humano”. Lembra que o menino é frágil, como todas as crianças, o Menino de Belém é frágil e, no entanto, é a Palavra que se fez carne e veio transformar a história humana.

Francisco interroga tocando nossos mais profundos sentimentos de dignidade: “Quem somos nós diante de Jesus Menino? Quem somos nós diante das crianças de hoje? Somos como Maria e José que acolhem Jesus e cuidam d’Ele com amor maternal e paternal? Ou somos como Herodes, que quer eliminá-Lo? Somos como os pastores, que se apressam a adorá-Lo prostrando-se diante d’Ele e oferecendo-Lhe os seus presentes humildes? Ou então ficamos indiferentes?

‘Isto nos servirá de sinal: encontrareis um menino…’. Talvez aquela criança chore! Chora porque tem fome, porque tem frio, porque quer colo… Também hoje as crianças choram (e choram muito!), e o seu choro interpela-nos. Num mundo que descarta diariamente toneladas de alimentos e remédios, há crianças que choram, sem ser preciso, por fome e doenças facilmente curáveis. Num tempo que proclama a tutela dos menores, comercializam-se armas que acabam nas mãos de crianças-soldado; comercializam-se produtos confeccionados por pequenos trabalhadores-escravos. O seu choro é sufocado: o choro destes meninos é sufocado! Têm que combater, têm que trabalhar, não podem chorar! Mas choram por elas as mães, as Raquéis de hoje: choram os seus filhos, e não querem ser consoladas” (cf. Mt 2, 18).

Conclui, invocando Maria:

Ó Maria, Mãe de Jesus,
Vós que acolhestes, ensinai-nos a acolher;
Vós que adorastes, ensinai-nos a adorar;
Vós que acompanhastes, ensinai-nos a acompanhar.
Amem
.

Em Jerusalém, dia 26, visitou xeque Muhamad Ahmad Hussein, Grão Mufti de Jerusalém e de toda a Palestina, na Esplanada das Mesquitas e recordou as origens comuns de judeus, cristãos e muçulmanos que, cada um a seu modo, reconhecem em Abraão um pai na fé. Abraão o peregrino que se faz pobre, põe-se a caminho em busca da suspirada meta: “Esta foi a condição de Abraão, esta deveria ser também a nossa disposição espiritual. Não podemos jamais considerar-nos auto-suficientes, senhores da nossa vida; não podemos limitar-nos a ficar fechados, seguros nas nossas convicções. Diante do mistério de Deus, somos todos pobres, sentimos que devemos estar sempre prontos para sair de nós mesmos, dóceis à chamada que Deus nos dirige, abertos ao futuro que Ele quer construir para nós”.

E o convite

Amados irmãos, queridos amigos,
a partir deste lugar santo,
lanço um premente apelo a todas as pessoas
e comunidades que se reconhecem em Abraão:
Respeitemo-nos e amemo-nos uns aos outros como irmãos e irmãs!
Aprendamos a compreender a dor do outro!
Ninguém instrumentalize, para a violência, o nome de Deus!
Trabalhemos juntos em prol da justiça e da paz!
Salam!

Francisco não é conduzido por ingênuo otimismo, porque sabe a que ponto chegou a soberba humana na tentação de se construir sem Deus, contra Deus, transformando a história da civilização na história de Babel. Tem diante de si o mistério da Cruz redentora que, rejeitada, leva à fabricação de cruzes dolorosas colocadas sobre ombros já chagados de crianças, homens e mulheres, de judeus, cristãos e muçulmanos.

No mesmo dia 26, visitou o YAD VASHEM, o monumento da Memória em Jerusalém onde estão gravados os nomes dos quase seis milhões de judeus mortos pela ideologia racista do nazismo. O decreto da morte do povo judeu significou o desafio blasfemo ao Deus da Aliança, o repto humano “quem tem a última palavra?”. Extinguindo o Povo da Aliança Hitler pensava ter extinto a Aliança, depositando Deus no lixo da história. João Paulo II, Bento XVI visitaram o Memorial, e ali a palavra mais forte é o silêncio envergonhado do homem em seu estágio mais baixo de soberba e crueldade.

Francisco ali proferiu palavras perturbadoras, remontando ao pecado de Adão que se escondeu de Deus, em nome da humanidade confessando os pecados e clamando por misericórdia. Nelas escutamos não um homem, um papa, um crente, mas um profeta que escapa das páginas bíblicas:

“’Adão, onde estás?’ (cf. Gen 3, 9).
Onde estás, ó homem? Onde foste parar?
Neste lugar, memorial do Shoah,
ouvimos ressoar esta pergunta de Deus: ‘Adão, onde estás?’.
Nesta pergunta, há toda a dor do Pai que perdeu o filho.
O Pai conhecia o risco da liberdade;
sabia que o filho teria podido perder-se…
mas talvez nem mesmo o Pai podia imaginar uma tal queda, um tal abismo!
Aquele grito ‘onde estás?’ ressoa aqui,
perante a tragédia incomensurável do Holocausto,
como uma voz que se perde num abismo sem fundo…

Homem, quem és? Já não te reconheço.
Quem és, ó homem? Quem te tornaste?
De que horrores foste capaz?
Que foi que te fez cair tão baixo?
Não foi o pó da terra, da qual foste tirado.
O pó da terra é coisa boa, obra das minhas mãos.
Não foi o sopro de vida que insuflei nas tuas narinas.
Aquele sopro vem de Mim, é algo muito bom (cf. Gen 2, 7).
Não, este abismo não pode ser somente obra tua, das tuas mãos, do teu coração…
Quem te corrompeu? Quem te desfigurou?
Quem te contagiou a presunção de te apoderares do bem e do mal?
Quem te convenceu que eras deus?
Não só torturaste e assassinaste os teus irmãos,
mas ofereceste-los em sacrifício a ti mesmo, porque te erigiste em deus.
Hoje voltamos a ouvir aqui a voz de Deus: ‘Adão, onde estás?’”.

E Francisco, em nome da humanidade, eleva a Deus o único grito que tem sentido, pedindo perdão por todos os holocaustos hoje fabricados e alimentados pelas guerras:

Tende piedade de nós, Senhor!
Para Vós, Senhor nosso Deus, a justiça;
para nós, estampada no rosto a desonra, a vergonha (cf. Bar 1, 15).
Pecamos contra Vós.
Vós reinais para sempre”
(cf. Bar 3, 1-2).

O Bispo de Roma termina sua peregrinação pedindo perdão pelos pecados e confiando na graça divina que pode regenerar a história. Há dois mil anos o Filho perguntava ao Pai por que o abandonara e, hoje, Francisco nos coloca diante do Pai que, pelo Espírito de Jesus prepara, unge e envia os filhos de Abraão. Confia em nós.

Pe. José Artulino Besen 

  1. #1 por eduriodocampo em 27 de maio de 2014 - 12:08

    Profundo! Lindo,o gesto do Papa, e o seu comentário, padre Artulino!

    • #2 por LUIZ HELENO em 6 de junho de 2014 - 23:29

      Excelente esse texto do papa como seus gestos, me conquistaram assim como a seleção do seu país. Ele infiltra DEUS NAS PESSOAS.

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