SÃO JOÃO XXIII – O DULCÍSSIMO PAPA CAMPONÊS

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No dia 28 de outubro de 1958, o Cardeal Patriarca de Veneza Ângelo Giuseppe Roncalli foi eleito papa. Após as homenagens dos cardeais, da Cúria romana, da apresentação ao povo reunido na Praça de São Pedro, dos cumprimentos de familiares e amigos, a noite já ia avançada. Então o fidelíssimo secretário Loris Capovilla lhe pergunta: “Ocorre-lhe mais alguma coisa, enviar algum telegrama?”, e João XXIII responde singelamente: “Agora, façamos a coisa mais simples, meus filho. Tomemos o Breviário e recitemos Vésperas e Completas . Assim foi a vida do Papa canonizado em 27 de abril de 2014. Ocupou os mais altos e significativos postos nos serviços da Igreja, mas nunca perdeu a unidade interior. Em nenhum momento achou que merecesse alguma honraria, pois elas eram sempre fruto da bondade da Igreja. O importante, para ele, era cultivar a alma, a santidade, cumprir seus propósitos de vida formulados durante os Exercíos Espirituais em 1895, no Seminário de Bérgamo e escritos nos cadernos do DIÁRIO DA ALMA . A última anotação no DIÁRIO foi em 20 de maio de 1963. Morreu no 3 de junho seguinte.

Filho de camponeses pobres e de sólida formação cristã, duas pessoas ficaram em sua memória espiritual e humana: o vigário Francisco Rebuzzini e o tio Savério que lhe ensinou as primeiras orações e princípios de vida cristã. Dava-lhe muita alegria observar os dois homens conversando e rezando enquanto caminhavam perto da casa paroquial de Sotto il Monte, o humilde povoado onde nasceu em 25 de novembro de 1881.

João XXIII conservou sempre a fé simples e profunda dos camponeses bergamascos. Suas missões diplomáticas na Bulgária, Grécia, Turquia e Paris, o cardinalato e o supremo Pontificado não complicaram em nada essa fé que o comprometia diariamente e era a causa de sua felicidade e, nela, a humildade e o silêncio tinham lugar privilegiado.

Foi Píer Paolo Pasolini, o famoso poeta e cineasta italiano, que o apelidou de “Dulcíssimo Papa Camponês”. Pasolini estava em Assis em 4 de outubro de 1962, quando lá esteve João XXIII, que tinha empreendido a peregrinação ao Santuário de Loreto e a Assis a fim de colocar sob a proteção de Nossa Senhora e de São Francisco o Concílio Ecumênico que seria inaugurado no dia 6 seguinte. Na verdade, Pasolini estava em Assis para confirmar seu anticlericalismo, sua rejeição ao Papado, queria olhar nos olhos aquele Papa que olhou nos olhos os presidiários romanos, armado apenas de imensa e arguta piedade. Estava no hotel quando, ao som dos sinos, o Papa ia passar. Teve o desejo de levantar-se e o olha-lo, mas venceu e, inexplicavelmente, tomou o livro dos Evangelhos que estava no quarto e leu do início ao fim o Evangelho de Mateus. Quando João XXIII ia se retirando, Pasolini tinha pronto seu filme, o “O Evangelho segundo Mateus”, dedicado ao Papa . O filme é a reprodução literal do Evangelho de Mateus, o Evangelho das Bem-aventuranças.

Na história do mundo a vida de papa Roncalli confirmou o valor atraente da bondade evangélica, que conserva sempre um lugar de honra no Sermão da Montanha: bem-aventurados os pobres, os mansos, os pacíficos, os misericordiosos, os sedentos de justiça, o puros de coração, os atribulados, os perseguidos.

João XXIII não apreciava muitos os livros e artigos a seu respeito, que julgava exagerados, equivocados: “Somente o olhar do Senhor nos vê como somos, e é somente isso o que conta”, respondeu a Indro Montanelli, jornalista que teve o privilégio de entrevista-lo em 1959 .

O que é ser santo?

João XXIII morreu após a primeira Sessão do Concílio, em 3 de junho de 1963. Seria fidelidade à tradição canonizar o Papa que morresse durante um Concílio. E, ao final do Vaticano II, um bispo polonês se levantou para pedir que fosse canonizado ao final da Assembléia conciliar. Em seguida, mais dois arcebispos fizeram o mesmo: o cardeal Stefan Wyszynski e Karol Wojtyla, que foi canonizado no mesmo dia como São João Paulo II. Um, o Santo que veio do mundo camponês e, o outro, o Santo que veio da opressão do Leste europeu. Evidente que poderosos Cardeais da Cúria se opuseram a esse anseio, pois, canonizar João XXIII seria canonizar um modo demasiado humano de ser papa, e isso não seria conveniente.

Com apenas 26 anos, Ângelo Roncalli definiu o que é ser santo: saber anular-se constantemente, destruindo dentro e ao redor de si aquilo que o mundo elogia como causa de louvor; conservar viva no coração a chama de um amor puríssimo para com Deus, acima dos lânguidos amores da terra; dar tudo, sacrificar-se pelo bem dos próprios irmãos, e, na humilhação, na caridade de Deus e do próximo seguir fielmente os caminhos indicados pela Providência que conduz as almas eleitas no cumprimento da própria missão: está aqui toda a santidade. Roncalli foi fiel a esses princípios por toda a longa e movimentada existência. Vida pública e privada. Antes e depois de ser eleito papa. Eleito bispo e papa, escolheu como seu o lema do Cardeal César Barônio: “Obediência e Paz”, duas virtudes que lhe permitiram viver na alegria e na simplicidade e que tanto atraem os estudiosos de sua vida: “a nossa paz é a vontade de Deus”.

O padre Ângelo Giuseppe Roncalli

Em 10 de agosto de 1904 foi ordenado sacerdote, um padre à moda antiga, mas ancorado no terreno sólido da revelação cristã. Quis sempre ser um padre marcado com fogo pela familiaridade com Cristo, preocupado com nada além do nome, do reino e da vontade de Deus, sua alegria.

No dia 24 de maio de 1915 partiu para o serviço militar em Saúde. Estava vivendo o horror da primeira grande guerra. Na véspera escreveu em seu DIÁRIO: “O Senhor dispôs a minha última hora para o campo de batalha? Nada sei; a única coisa que quero é a vontade de Deus em tudo e sempre e a sua glória no sacrifício completo do meu ser”.

Todo o ministério era causa de alegria: recitava a Liturgia das Horas com grande alegria interior, celebrava cada Missa como que mergulhado dentro dela, em êxtase. Era no altar o que era fora do altar: “a pessoa do sacerdote é sagrada”, falou ao clero romano já como papa em 26 de janeiro de 1960. De sua vida de oração brotavam as palavras que dirigia ao povo. Para ele era claríssimo que a autenticidade e a fecundidade de seu sacerdócio dependiam essencialmente de sua santificação pessoal, de sua vida de comunhão íntima com Deus.

Alimentava profunda espiritualidade missionária, o ardente desejo de que todos os povos cohecessem a Jesus. Teve a alegria de trabalhar em Roma na Obra pela Propagação da Fé, entre 1921 e 1925. Mais tarde, escreveu que a “Obra da Propagação da Fé é a respiração de minha alma e de minha vida” . Em 3 de março de 1958, recordando a entrega do Crucifixo para um grupo de missionários no distante 1910, escreveu: “nas conversas e confidências com alguns dos anciãos que retornavam dos campos da evangelização, me sentia como que preso por uma edificação e ternura inefável, que ainda não despertava em mim uma vocação missionária, mas educava meu espírito à admiração por quem se sentia chamado e respondia correndo àquele caminho corajoso e misterioso”.

Após anos de serviço diplomático, entre 1925-1953, comentou que tinha sido um trabalho importante, mas sem comparação com a saborosa e serena alegria da ação missionária, do contato com almas e ambientes diversificados e interessantes que me introduziram num conhecimento mais profundo com o que se refere às orientações e esperanças do Reino de Cristo no mundo.

João XXIII em seu escritório

João XXIII em seu escritório

Os caminhos de Deus

Ordenado padre para o serviço direto com o povo, em 1925 foi chamado pelo Papa Pio XI ao trabalho diplomático, primeiro na Bulgária, depois na Grécia e Turquia e, enfim, na sofisticada Paris marcada pela humilhação da Guerra. Em 19 de março de 1925 foi ordenado bispo. Em comum, essas nações passavam pelas provações da política que humilha os pobres e busca dominá-los.

Até aqui, Roncalli tinha sido um culto e estimado sacerdote, secretário pessoal de Radini Tedeschi, bispo de Bérgamo, com doutorado em Roma, professor de história eclesiástica e de apologética. Descobriu, comentou, traduziu e iniciou a publicação dos 5 volumes das Atas da visita apostólica de São Carlos Borromeu a Bérgamo, em 1575.. Brilhante “carreira eclesiástica”, pode-se dizer.

Agora, sua missão primordial era atender às comunidades católicas búlgaras, gregas e turcas. Procurou ser bispo com coração de padre para seus sacerdotes, participando de seus Exercícios Espirituais, de sua pobreza.

Como bispo e delegado apostólico continuou sua vida sacerdotal e inicia um caminho que o levou à Nunciatura de Paris e ao Patriarcado de Veneza. Seu DIÁRIO DA ALMA não descreve recepções, encargos recebidos, publicações e honrarias: está preocupado com sua alma, com sua santificação, em participar com o proveito do Retiro Espiritual. O cuidado com os pobres, todos os pobres, toma boa parte de seu tempo. Os católicos eram exígua minoria em países ortodoxos e na muçulmana Turquia. O campo de apostolado germinou nele a consciência ecumênica e de diálogo religioso. Concretamente, quase nada conhecia do mundo ortodoxo, menosprezado e esquecido pelo Ocidente católico. A formação sacerdotal não tinha em conta essas comunidades. Isso foi nele contrabançado pela capacidade de encontrar cada pessoa, de conviver com todos. A unidade humana e cristã prevalecia: “Sentia-me irmão deles. Possuem a sucessão apostólica, recebi-os como bispos irmãos. É uma dor não poder ainda celebrar a eucaristia juntos, mas existe a amizade. Abençoamo-nos uns aos outros, um irmão abençoa o outro”, confessou anos depois. Atenágoras, Patriarca ecumênico de Constantinopla, aplicou a João XXIII a passagem evangélica “houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João”.

Alargou os braços da Igreja, reunindo-os num sentimento comum, primeiro de estima, depois de veneração. Fortalecidos por esse afeto, durante o pontificado de João XXIII, os bispos ortodoxos visitavam-no nos tempos de opressão dos regimes comunistas, vinham com a confiança de filhos, filhos de uma Igreja irmã, a pedir socorro. Suas viagens a Roma era verdadeiras visitas ad limina Petri . Também como a irmãos foi seu relacionamento com o povo turco, muçulmano. Eram irmãos. Sua espiritualidade fez com que entendesse sempre mais o diálogo ecumênico e religioso como via pacis, via charitatis, via veritatis: paz-caridade-verdade.

A experiência deplomática e sacerdotal abriu-lhe os horizontes que levaram ao Concílio Ecumênico do Vaticano II. Acrescente-se a isso seu estar próximo das pessoas e o encontro com os mais pobres: ele nasceu de uma família pobre. Nos anos que vão de 1939 a 1945 fez o possível para socorrer as vítimas da guerra, de modo todo especial se empenhando na salvação de milhares de judeus ameaçados de extermínio. Era Núncio em Paris quando, em 1953, Pio XII o escolheu para Cardeal e Patriarca de Veneza. Estivera 28 anos fora de sua Itália e agora, para sua felicidade, era padre e bispo, podendo dedicar-se exclusivamente ao bem das almas. Por cinco anos foi o vigário de Veneza, abraçando a todos, católicos, não católicos, não-crentes. Estava feliz nessa missão, a cada dia se preparando espiritualmente para uma boa morte quando, em 28 de outubro de 1958, foi eleito Papa, escolhendo João como nome, e a missão de preparar os caminhos do Senhor.

Dia 27 de abril de 2014 - Com a presença de Bento XVI, Francisco canoniza João XXIII e João Paulo II

Dia 27 de abril de 2014 – Com a presença de Bento XVI, Francisco canoniza João XXIII e João Paulo II

Um Anjo com o nome de João

João XXIII continuou sendo o mesmo seminarista que seguia os propósitos escritos em 1895 nos Caderninhos que lia com freqüência para seus exames de consciência. As grandes recepções, o afeto que o mundo lhe consagrava, a fama, o Concílio, nada podia distraí-lo do cuidado com sua alma. Continuava a viver a devoção a Nossa Senhora, São José, São Francisco Xavier, recitando as orações diárias de sua juventude. Pode ser incluído entre as almas eleitas nas quais o pecado não conseguiu ter nenhuma influência.

Nunca, em nenhum dia, mesmo como Papa, esqueceu suas origens humildes, seu tio Savério, o povo de Sotto il Monte. Loris Capovilla, quase centenário e agora Cardeal, afirma : “Ângelo Giuseppe Roncalli, da infância ao final de sua vida terrena, foi sempre a mesma pessoa: um cristão que levou a sério as promessas batismais; um cristão que sacerdote primeiro, depois bispo, cardeal e Pontífice, viveu sempre no altar entre um livro, o da divina revelação, e o cálice que é compêndio celeste que nos faz filhos de Deus”.

O Cardeal Capovilla, agora residindo em Sotto il Monte, não aprecia que se identifique João XXIII com o apelativo “Papa BOM”, porque muitos o entendem em sentido até pejorativo como Papa Bonachão, que não enxergava a realidade, o mal presente no mundo, o mestre do bom humor. Não se pode folclorizar esse homem, o Papa do diálogo, do Concílio, do Ecumenismo, da Mater et Magistra e da Pacem in terris.

Papa Roncalli foi homem de princípios, de clara visão da realidade, rigoroso no seguir as normas, príncipe da paz nos conflitos da Guerra fria. Um Papa que introduziu na visão eclesial os “sinais dos tempos”, isto é, ser fiel à Igreja mas enxergando sempre os novos horizontes históricos, um homem alimentado pela esperança e não agindo com pessimismo, que conhecia as dificuldades e os obstáculos.

Para o cristão, a fé é anúncio de salvação, de conversão do homem às coisas de Deus e a missão do sacerdote é encorajar as pessoas a medir-se com as situações, a empenhar-se, a trabalhar. Era uma pessoa firmíssima que sabia que sem clareza não se realiza o diálogo e que falar com todos não significa ceder.

No final de setembro de 1962, menos de 15 dias antes da abertura do Concílio, os médicos diagnosticaram a doença que o levaria à morte alguns meses depois: um câncer que lhe provocava muitas dores. Em 11 de outubro, após a abertura do Vaticano II, confidencia ao secretário: “Durante a leitura do discurso olhava os que me estavam vizinhos e pedia ao Senhor que ele falasse a cada um dos presentes”. E à pergunta “Como se sente?”, respondeu “Com aquilo que hoje o Senhor me concedeu devo sentir-me bem”.

Alma de criança e de gigante, de camponês provado pelas glórias humanas, repreendeu Loris Capovilla que chorava seu fim de vida: “Por que chorar? Esse é um momento de alegria, um momento de glória”. Tinha vivido 82 anos a espera do encontro com o Senhor.

E o mundo inteiro chorou no dia 3 de junho de 1963, quando morreu João XXIII, a quem a Igreja venera e invoca com o nome de São João XXIII.

Pe. José Artulino Besen

NOTAS

  1. Saverio Gaeta. Giovanni XXIII – uma vita di santità. Milano: Mondadori, 2000, p. 200ss.
  2. Foi publicada nova edição em português pela Editora Paulus, em 2000. O DIÁRIO é o relato de seu caminho de santidade, da busca incessante de fazer a vontade de Deus. Ele mesmo escreveu: “A minha alma está mais nestas folhas do que em qualquer outro escrito meu”.
  3. Zizola, G. Giovanni XXIII. Sotto il Monte: Servitium Editrice 1998, , p.142-144.
  4. Montanelli descreveu suas impressões no Corriere della Sera de 29 de março de 1959.
  5. Nutria grande ternura pelo Pontifício Instituto das Missões-PIME e pela memória de seu fundador Dom Ângelo Ramazzotti, que gostaria de ver canonizado. Hoje, os padres do PIME conservam e alimentam a memória de João XXIII em Sotto il Monte.
  6. Kiril Plamen Kartaloff. La sollecitudine ecclesiale di monsignor Roncalli in Bulgária. 2014: Città del Vaticano. Entrevista com o autor por Antonella Pilia , em 28 de março de 2014.
  7. LUOGHI DELL’INFINITO, 7 di aprile 2014 – numero speciale.
  1. #1 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 26 de abril de 2014 - 14:07

    Admirável artigo, Padre José Artulino Besen! Obrigado.

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