SÃO JOÃO PAULO II – CONTEMPLAÇÃO E AÇÃO

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As aclamações e faixas com o “Santo súbito”, na Liturgia exequial de 2005, significaram o reconhecimento cristão e popular da santidade pessoal de Karol Wojtyla. Suprimindo os tempos de espera para a causa de beatificação, foi rápida a conclusão dela.

No desenrolar do processo de beatificação e canonização de João Paulo II foram ouvidos, sob juramento, 114 testemunhas: 35 cardeais, 20 arcebispos e bispos, 11 sacerdotes, 5 religiosos, 3 religiosas, 36 leigos católicos, 3 não católicos e um judeu.

Dado realçado na figura do Papa pelos leigos foi a libertação dos medos, dos condicionamentos, do sentimento de decadência da Igreja. Um guia excepcional, muito pessoal e carismático, com sua personalidade substituindo faltas das instituições e das pessoas. Um Papa corajoso, uma personalidade que arrastava multidões.

Também foram salientados seus gestos originais da Jornada Mundial de Assis, da visita à Sinagoga de Roma, à mesquita dos Omíadas em Damasco e a renúncia aos privilégios da Concordata de 1929 entre o Vaticano e a Itália, as grandes Celebrações do Ano 2000. Um depoimento severo, e quase solitário, foi dado pelo Cardeal Martini (1927-2012), de Milão, que julgava ser prudente deixar mais tempo passar. Entre os pontos que salientou e que depunham negativamente a respeito do Papa Wojtyla, podemos citar: escolhas não sempre felizes de bispos e arcebispos, escolha não as melhores de colaboradores sobretudo nos últimos tempos, o excessivo apoio aos Movimentos ao invés do apoio às Igrejas locais, seu “imprudente” colocar-se no centro das atenções, especialmente nas viagens, disso resultando obscurecida a missão da Igreja local e do bispo, ao mundo dando a impressão de ser o “bispo do mundo”. Martini afirmou ver no Papa um corajoso homem de Deus, capaz de grande recolhimento mesmo no tumulto das atividades, sua dedicação total à Igreja, mas, talvez tivesse sido prudente retirar-se do ministério petrino quando a doença se agravou e forças retrógradas assumiam o governo central da Santa Sé. Aqui devemos incluir também o sofrimento que infligiu a Dom Hélder Câmara (1909-2009) e à Igreja de Olinda-Recife, impondo como sucessor um bispo cuja missão parecia ser negar a herança cristã desse homem de Deus.

O teólogo e ex-abade de São Paulo fora dos Muros, Giovanni Franzoni, citou, em seu depoimento, aquelas atitudes de João Paulo II a seu ver negativas: a frieza com que recebeu o arcebispo mártir de Salvador Dom Oscar Romero (“Nunca me senti tão sozinho como em Roma”), em 1979, recebendo o conselho de trabalhar mais de acordo com o Governo. No ano seguinte, o santo pai dos pobres e defensor dos injustiçados foi martirizado enquanto celebrava a Missa. Franzoni também não julgou profética a atitude papal de ignorar os escândalos financeiros no Vaticano, os casos de pedofilia no clero, a dureza na dispensa do ministério dos padres egressos. Certamente o Papa sempre agiu no desejo firme de proteger o bom nome da Igreja, para não dar aos fiéis motivo de escândalo. Além disso, tinha vivido na Polônia as calúnias levantadas pelo regime comunista contra padres e bispos: não seria esse o caso? Infelizmente, não era.

Nem Martini, nem Franzoni, duvidam da santidade pessoal de Wojtyla, mas se perguntam se é possível, ou recomendável, separar a pessoa do Papa da missão exercida.

João Paulo II – a vida a serviço de Deus

Desde jovem, foi homem de profundíssima vida de oração e isso era tão visível que algum colega escreveu na porta de seu quarto de seminarista “Futuro santo”. Todas as suas decisões na vida concreta eram assumidas à luz de sua relação com Deus, e essa relação lhe proporcionava uma confiança enorme e uma enorme coragem.

Em seu testemunho, Joseph Ratzinger (Bento XVI) declarou “- “Que João Paulo II era um santo, durante os anos de colaboração com ele, se tornava cada vez mais e mais claro para mim. (…) Se doou com uma radicalidade que não pode ser explicado de outro modo. (…) Seu empenho era incansável, e não apenas nas grandes viagens, cujos programas eram cheios de eventos do início ao fim, mas também no dia a dia, desde a Missa matutina até tarde da noite”. “A espiritualidade do Papa foi caracterizada principalmente pela intensidade das suas orações, profundamente enraizada na celebração da Santa Eucaristia e realizada juntamente com toda a Igreja, com a recitação do breviário. (…) todos nós sabemos do seu grande amor pela Mãe de Deus. Doar-se totalmente a Maria significava ser, com ela, totalmente do Senhor”.

De acordo com o Papa emérito, neste contexto deve ser compreendida a santidade de João Paulo II: “Somente a partir da sua relação com Deus é possível compreender o seu incansável empenho pastoral”.

Mons. Slawomir Oder, postulador do processo de canonização, descreve a santidade de João Paulo II a partir da sua relação íntima com Deus e Nossa Senhora: uma relação que nem todos conseguiam entender e achavam até estranha. “Às vezes, durante a oração mariana, o Papa parecia em êxtase, desligado do contexto circundante, como num encontro. Ele vivia uma relação pessoalíssima com Nossa Senhora”. Para algumas testemunhas, quando João Paulo se dirigia à Virgem Maria não falava com alguém distante, mas, com alguém próximo, a seu lado.

Seu segredo de santidade era sua vida interior, de oração. O próprio João Paulo II sugeriu a chave para o conhecerem: “Muitos tentam me conhecer olhando de fora, mas eu só posso ser conhecido de dentro, do coração”. Alimentava relação íntima com Deus, que se realizava na oração incessante, fazendo, muitas vezes, com que deixasse intacta a cama e preferisse passar a noite no chão, imerso em oração, e isso apesar do cansaço das viagens, da progressão da doença e da fragilidade física.

Mons. Oder refere um fato concreto: “no final de uma das últimas viagens apostólicas, foi quase arrastado para o quarto pelos seus colaboradores. Os mesmos colaboradores, na manhã seguinte, encontraram a cama intacta, porque João Paulo II tinha passado toda a noite em oração, de joelhos no chão. Para ele, recolher-se em oração era essencial, tanto que, nos últimos meses de vida, ele pediu no quarto um espaço para o Santíssimo Sacramento. Sua relação com nosso Senhor era verdadeiramente extraordinária”.

Wojtyla nutria um relacionamento íntimo com o Cristo vivo, especialmente na Eucaristia, de onde vinha tudo aquilo que vimos nele como fruto de extraordinária caridade, zelo apostólico, paixão pela Igreja, amor pelo Corpo místico. Numa palestra em que estive presente, Dom Luciano Mendes de Almeida comentou que aconteceu presenciarem o Papa, na ação de graças após a Missa, na sacristia, estar prostrado no chão, em sua preferida posição de cruz (braços estendidos) e falando em voz alta, num profundo diálogo espiritual com o Senhor.

O jornalista e historiador Vitório Messori, que teve o privilégio de contata-lo pessoalmente, assim se expressou: “Diria que no caso de Wojtyla nem se pode falar de ‘homem de fé’, pois está possuído pela certeza. Não tem necessidade de crer: ele vê. Falando com ele, tem-se a impressão de que esteja imerso numa espécie de visão. Aquilo que vê não o espanta, parece-lhe natural e não fonte de dúvida. Não se pode explicar seu pontificado se não se leva em conta esse aspecto do homem: cada pensamento e cada ato fincam raízes na contemplação e na oração”.

Seu identificar-se com Cristo significou também estar com Ele crucificado, ver o aniquilamento das energias, forças, carisma de comunicação que marcaram o início do Pontificado em 1978. O dia 13 de maio de 1981 marcou a transição de um Pontificado do Papa vigoroso para o Pontificado do Papa humanamente fragilizado: os tiros que recebeu na Praça de São Pedro significaram a progressão no caminho da Cruz. Na Carta apostólica Salvifici Doloris, de 1984, convidava a Igreja a penetrar no sentido salvífico do sofrimento de Jesus Cristo, sofrimento vencido pelo amor. João Paulo II aprofundava a vivência do sofrimento que aniquila as forças físicas, mas, liberta as forças espirituais. Em sua Carta Novo Millennio Ineunte, de 2001, convida a Igreja a contemplar a face de Cristo em sua dor sem medida e em sua glória sem fim.

Impressiona o número de Mártires beatificados e canonizados por ele: os que derramaram o sangue por Cristo receberam estatuto de glória, neles incluídos os martirizados pelos regimes comunista, nazista, ditatoriais e inimigos da fé cristã. Carregando sua cruz, o Papa nos fez olhar para tantos homens e mulheres que não fugiram da morte no testemunho da fé no Senhor. O século XX foi o século dos mártires tanto católicos como ortodoxos, anglicanos e evangélicos, escreveu na Tertio Millennio. E o século XXI continua a sê-lo.

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João Paulo II – o retorno à Casa do Senhor

O dia da morte dos santos é seu dies natalis, nascimento para a eternidade. E esse dia chegou para João Paulo II quando tinha vivido 84 anos, dos quais 57 de sacerdócio, 47 de episcopado e 27 de pontificado.

Servimo-nos de algumas palavras do doutor Renato Buzzonetti, médico que o acompanhou até os últimos instantes e narrou as últimas horas do Papa no livro-entrevista “Accanto a Giovanni Paolo II” (publicado na Itália pela Editora ARES):

“Na quinta-feira, 31 de março de 2005, por volta das 11 horas da manhã, enquanto celebrava a Missa na capela privada, o Santo Padre sentiu um tremor intenso, seguido por uma séria elevação da temperatura e por um gravíssimo choque séptico. Graças à habilidade dos reanimadores, a situação crítica foi controlada e dominada mais uma vez.

Perto das 17 horas, foi rezada a santa Missa ao pé da cama do Papa, que aos poucos emergia do choque. Na Consagração, o Papa levantou fracamente o braço direito, duas vezes, em direção ao pão e ao vinho. Tentou bater no peito com a mão direita no momento do Agnus Dei. Depois da Missa, a convite de Mons. Stanislaw, os presentes beijaram a mão do Santo Padre. Ele chamou as freiras pelo nome e acrescentou: “Pela última vez”. Depois, sendo quinta-feira, o Santo Padre quis comemorar a hora de adoração eucarística: leitura, recitação dos salmos, cantos entoados pela irmã Tobiana.

Na sexta-feira, 1º de abril de 2005, após a Missa concelebrada por ele, o Santo Padre pediu, às 8 horas, para fazer a Via sacra, fazendo o sinal da cruz em cada uma das 14 estações. Participou da recitação da terceira hora do Ofício divino e, às 8:30h, pediu para ouvir a leitura de passagens da Sagrada Escritura.

No sábado, 2 de abril de 2005, foi celebrada a santa Missa ao pé da cama do Santo Padre. Ele participou com atenção. No final, com palavras arrastadas e quase ininteligíveis, João Paulo II pediu a leitura do evangelho de São João, que o Pe. Styczen fez devotadamente, lendo nove capítulos. Homem contemplativo, com a ajuda dos presentes, o Papa recitou as orações do dia até o Ofício das leituras do domingo que se aproximava.

Por volta das 15h30, o Santo Padre sussurrou para a Irmã Tobiana: ‘Deixem-me ir para o Senhor…’, em polonês. Foram suas últimas palavras, o seu ‘consummatum est’ (Jo 19, 30). Ele não queria atrasar esse encontro com o Senhor, esperado desde os anos da juventude. Foi para isso que ele tinha vivido. Aquelas palavras eram de expectativa e de esperança, de renovada e definitiva entrega nas mãos do Pai, seu TOTUS TUUS definitivo.

Depois das 16 horas, o Santo Padre foi adormecendo e perdendo gradualmente a consciência. Por volta das 19 horas, ele entrou em coma profundo e em agonia. O monitor registrava o esgotamento progressivo dos parâmetros vitais. Às 20 horas, começou a Missa celebrada aos pés da cama do Pontífice que falecia. Cantos poloneses se entrelaçavam com os cantares que subiam da Praça de São Pedro, lotada. Uma pequena vela brilhava sobre o criado-mudo, ao lado da cama.

Às 21:37h, o Santo Padre morreu. Depois de poucos minutos de atônita dor, foi entoado o Te Deum em língua polonesa e, da Praça, de repente, viu-se iluminada a janela do quarto do Papa. A morte de João Paulo II às 21,37 horas deste sábado coincidiu com as vésperas da festa litúrgica da Divina Misericórdia”.

A grandeza dos santos está em buscar sempre a Misericórdia que regenera a vida. Eles não acertaram em tudo o que fizeram, porque eram humanos, mas souberam ser conduzidos pela graça.

O Bem-aventurado João Paulo II cometeu erros, ou equívocos, no exercício do ministério papal, boa parte deles fruto de escolhas que fizera na Cúria romana e de bispos cujos conselhos ouvia. Nada disso tira o esplendor de sua vida, e sim, manifesta como Deus é admirável nos seus santos. Seu testemunho de vida fiel e corajosa na opressão comunista de sua Polônia natal, a perda da mãe, pai, irmão, sua confiança inabalável no Senhor e na intercessão de sua Mãe Maria, seu amor intransigente pela Igreja e pela humanidade tornaram justo que o invoquemos como São João Paulo II a partir de 27 de abril de 2014.

Pe. José Artulino Besen

 

 

 

  1. #1 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 14 de abril de 2014 - 08:42

    Mais uma rica contribuição! Obrigado, Padre Besen. Curiosidade: quando o Papa João Paulo II esteve em Florianópolis, usou a cadeira que se encontra no interior da sesquicentenária Capela São Sebastião, localizada no centro da Capital, junto à Beira-Mar Norte.

  2. #2 por Pe. José Artulino Besen em 14 de abril de 2014 - 16:15

    Ademar, obrigado por tantas vezes que você me estimula a escrever. O Papa usou duas cadeiras, uma delas estando guardada na Casa paroquial e a outra, no Arcebispado. Uma, desse modo, foi transferida para a Capela.
    Pe. José

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