QUARESMA – CAMINHO BATISMAL

O amanhecer da ressurreição - JRC Martin

O amanhecer da ressurreição – JRC Martin

Quando a Liturgia quaresmal nos propõe as leituras do ANO A, mergulhamos de modo claro, esclarecido e decidido na contemplação da graça batismal, revivendo na Liturgia a catequese dos primeiros séculos ao preparar os catecúmenos para o Batismo. A Vigília pascal é vigília batismal: o fogo que ilumina, as luzes, a renovação das promessas do Batismo, a água que é aspergida são símbolos da Páscoa do Senhor: assim como Jesus foi sepultado e ressuscitou para a Vida, no Batismo somos com ele sepultados e com ele ressuscitamos.

No ANO A, a Igreja escolhe textos do Evangelho segundo João, cada um deles sendo catequese preparatória para a Vigília pascal, quando os catecúmenos são batizados e os batizados renovam sua profissão de fé e de vida.

Em comum, nos ANOS A, B ,C, no primeiro domingo temos a leitura das tentações de Jesus no deserto e sua vitória contra o grande sedutor; no segundo domingo contemplamos o Cristo transfigurado, imagem que preanuncia a glória da ressurreição.

A partir do terceiro domingo da Quaresma, o Evangelho de João nos ilumina sobre o porquê Jesus veio ao mundo e o que em nós realiza pela graça batismal.

Cristo – água para nossa sede (João 4, 5-42): a mulher samaritana dirige-se ao poço de Jacó. Contradizendo a tradição do desprezo pelos samaritanos, a inferioridade da mulher a quem um Rabi não dirigiria a palavra, Jesus lhe pede: “Mulher, dá-me de beber”. A mulher espantou-se e Jesus, após leva-la a um exame de consciência e revelar-se como o Messias, fala da Água viva que aplaca a sede para sempre. E a mulher pede: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede”.

A água que Jesus pedira não era simplesmente água, porque sua sede era a sede do Salvador: sede de almas, sede de salvar, sede de pessoas, sede que manifestará no alto da Cruz: “Tenho sede!” e que continua a gritar pela história humana: “Tenho sede de almas para salvar!”. A mulher samaritana compreendeu a Palavra salvadora e teve saciada a sede de vida.

Cristo – luz para nossas trevas (João 9, 1-41): a cura do cego de nascença. Jesus não lhe concede apenas o dom de enxergar, pois quer oferecer-lhe a graça de discernir entre treva e luz. Manifesta seu poder salvador com dois sinais: a saliva misturada com terra que produz lama e que colocou nos olhos do homem cego que necessitava ser recriado como na primeira criação, quando o Pai tirou o homem do barro e soprou-lhe nas narinas o sopro de vida, e ele se tornou um ser vivente (Gênesis 2, 7). Somente Jesus tem o poder de renovar a vida de uma criatura mergulhada nas trevas do pecado. O segundo sinal: “Vai lavar-te na piscina de Siloé”. O homem foi e voltou enxergando. O Batismo purifica a natureza humana e a ilumina com a Luz que torna a vida possível, pois nas trevas não há desenvolvimento de vida.

Cristo – ressurreição para nossa vida (João 11, 1-45): a ressurreição de Lázaro é a revelação da divindade de Jesus, pois somente Deus tem o poder de dar a vida. Há quatro dias sepultado, Lázaro, o amigo transformado em cadáver putrefato e que desperta em Jesus o sentimento da amizade, as lágrimas choradas pelo drama vivido pelo Pai que contempla os filhos desamparados, destruídos pelo mal. Jesus quer alegrar o Pai dando vida ao cadáver e grita: “Lázaro, vem para fora!”. Palavra eficaz, e o morto agora é um ser vivente.

“Vem para fora” é o clamor que Jesus dirige à humanidade desde aquela sexta-feira em que assumiu sua glória no trono da Cruz, realizando a promessa feita a Ezequiel: “Ó meu povo, vou abrir as vossas sepulturas, e sabereis que eu sou o Senhor” (cf. Ezequiel 37, 12-14). Cristo não oferece ao Pai um imenso cemitério ornamentado por urubus, mas um jardim onde vive a humanidade renovada.

A Páscoa da humanidade

Dessedentados pela Água viva que o Espírito derrama em nossos corações, iluminados por Cristo, luz do mundo, lavados pela água batismal, escutamos a grande promessa: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais”. Lemos essa promessa gravada em tantos túmulos e capelas funerárias por onde passamos, e poucas vezes nos damos conta de que o Senhor não quer apenas consolar os familiares dos mortos, mas quer que nós tomemos a decisão definitiva: “Eu quero ressuscitar”. E assim criamos a ponte entre o divino e o humano, entre o tempo e a eternidade. Iniciamos a vida eterna na grande vigília que é nossa existência e que anualmente vivenciamos, renovada, na Vigília Pascal.

Mas, falta ainda a eficácia dos sinais da água, da luz e de Lázaro. Jesus, com eles, antecipou o que irá tornar realidade em Jerusalém: é lá, onde o acompanhamos a partir do Domingo de Ramos, que recebe plenitude todo o mistério da salvação, através da Paixão, Morte, Ressurreição, Ascensão e Pentecostes. Jesus que morre é o Cristo ressuscitado que envia o Espírito, renovando a criação.

Importante: Deus não quer um povo de escravos, pois é para a liberdade que Cristo nos libertou (Gálatas 1, 5) da sede de vida, das trevas e da morte. Ele quer companheiros no caminho, quer repartir conosco o Pão da Eucaristia, alimento de eternidade, sustento pascal e ouvimos sua palavra: “Desatai-o e deixai-o caminhar”.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Marcio Maurino ereira em 7 de abril de 2014 - 10:54

    Depois de um longo período sem saber notícias suas, me retorna a alegria de ler suas palavras.
    Um forte abraço amigo Pe. José.

    Marcinho
    Movimento Água Viva Jovens/Saco dos Limões.
    mmaurino40@gmail.com

    • #2 por Pe. José Artulino Besen em 8 de abril de 2014 - 16:14

      Marcinho, com alegria li sua mensagem amiga e recordei tantas passagens da vida no Água Viva, especialmente seu bom humor. Honra-me tê-lo como leitor.
      Pe. José

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