ESCRAVOS EM NOSSO TEMPO

 28 de fevereiro – Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo

“O tráfico de pessoas é uma atividade ignóbil, uma vergonha para as nossas sociedades que se dizem civilizadas”, afirmou Papa Francisco, cuja preocupação com as migrações internacionais fê-lo ir à Lampedusa, no sul da Itália, em 8 de julho de 2013. Essa ilha é o porto onde desembarcam milhares de africanos e asiáticos, fugindo da guerra e da miséria, ou sendo enganados por atravessadores que enchem barcos inseguros de pobres ao lhes prometerem o paraíso.

A denúncia papal ajuda-nos a abrir os olhos para uma realidade que preferimos situar no passado, no século 19: a escravidão e o tráfico de escravos. Um capítulo vergonhoso da história humana e que fez do Brasil o maior importador de escravos africanos entre os séculos 16 e 19. Mas, é também um capítulo vergonhoso que está presente em nossos dias.

A Campanha da Fraternidade de 2014 tem como tema “Fraternidade e Tráfico Humano” e como lema  É para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5,1). A redenção que o Filho de Deus nos traz inclui a dignidade fundamental de pessoas livres, dotadas de liberdade. Sem a liberdade é-nos subtraído um aspecto decisivo do ser humano: ser livre.

O tráfico humano, ou tráfico de pessoas humanas tem como conseqüência a escravidão, que se define como forçar alguém a trabalhar, sob ameaça de violência, sem remuneração além da subsistência. O tráfico assume modalidades diversas: traficar um ser humano para a exploração no trabalho, traficar para a exploração sexual, traficar para a extração de órgãos, tráfico de crianças e adolescentes.

Nas extremidades dessa ação criminosa se encontra alguém sem escrúpulos, levado simplesmente pela busca do dinheiro, e a pessoa fragilizada pela miséria onde nasceu ou pelas promessas de uma vida melhor, em situação de vulnerabilidade social. É a mulher aliciada por ganhos extraordinários em emprego no exterior e que termina nas malhas da prostituição na Espanha, Portugal, Holanda, Alemanha. É a criança seqüestrada e tempos depois devolvida com um rim só, pois o outro foi extraído e vendido. É o migrante brasileiro seduzido por um gato que o leva para grandes fazendas e ali fica em situação análoga à escravidão, devedor da passagem e dos mantimentos.

Benjamin Skinner, historiador norte-americano, em 2008 publicou um livro estarrecedor: A Crime So Monstrous: Face-to-Face with Modern-Day Slavery – Um crime tão monstruoso – face-a-face com a moderna escravidão.

Tudo começou quando descobriu um grupo evangélico pretendendo comprar escravos em massa para garantir a sua liberdade. Resolveu investigar esse processo. Por cinco anos, em 12 países, rastreou mais de uma centena de escravos, traficantes de escravos e ex-escravos pela Índia, Romênia, Dubai, Haiti, Sudão, Holanda, Turquia, Europa oriental. E também em Nova Iork, descobrindo que se poderia ir dessa cidade à capital do Haiti, e por 50 dólares adquirir um escravo de 12 anos.

Descobriu mega bordéis em Bucareste e grandes haréns para milionários e turistas na famosa Dubai. Seqüestros e venda de mulheres birmanesas para serem vendidas como esposas para chineses. Muçulmanos do Sudão aprisionando cristãos para depois trafica-los com organizações cristãs que os libertavam.

Seu caminho tornou-se claro quando entrou em contato com um escravo em carne e osso: Muong Nyong era sudanês e estava a correr, descalço, por duas semanas, no deserto escaldante buscando a liberdade. Nyong revelou-lhe o que era ser escravo no século 21 e ajudou-o a mergulhar no mundo da escravidão moderna. E assim, Skinner tornou-se a primeira pessoa da história a desvendar a venda de seres humanos nos quatro Continentes. Conheceu crianças escravas nas carvoarias e fábricas de tijolos no Brasil e na Índia. Latino-americanos escravizados em luxuosas confecções paulistas. Jovens escravizados por dívidas dos pais. Irmãos vendendo as irmãzinhas como se isso fosse natural. Crianças deformadas propositalmente para serem usadas no pedido de esmolas. Escravos por violência, escravos vítimas de falsas promessas.

Sua conclusão foi dolorosa: hoje temos mais escravos no mundo do que em qualquer outro período da história humana: registrou 27 milhões de homens, mulheres e crianças cuja escravização anualmente rende 32 bilhões de dólares.

Alguns dados desse drama moderno:

  • No topo da lista, a Mauritânia – 140/160 mil em 4 milhões de habitantes, o que significa 4% da população.
  • Haiti – 200 mil
  • Paquistão – 2 milhões
  • Índia – 14 milhões de escravos.
  • China – 3 milhões
  • Brasil – 200/220 mil.
  • Nigéria – 701 mil
  • Etiópia – 651 mil
  • Rússia – 516 mil
  • Tailândia – 472 mil
  • Congo – 462 mil
  • Mianmar – 384 mil
  • Bangladesh – 343 mil 

O número de pessoas hoje privadas da liberdade é maior do que o retirado da África nos séculos 17 e 18 (cf. globalslaveryindex.org). Se, na origem da escravização africana, estava o conceito de raça inferior, amaldiçoada, hoje o grande motivo reside na convicção de tantos para quem a mulher, o jovem e a criança pobres podem ser subjugados, colocados a serviço de gente “superior”. Antes como agora, a busca do lucro e do prazer.

Felizmente, hoje existem protocolos internacionais banindo o tráfico humano e o Brasil é signatário deles. O que Skinner trouxe de novo foi o alcance numérico da escravidão contemporânea, pois não se pensava que nosso mundo iluminista, técnico se pensava livre dessa praga antiga e percebe que ela brota e cresce em seus centros desenvolvidos.

A Campanha da Fraternidade nos convida à conscientização da liberdade dos filhos de Deus, feitos à imagem e semelhança do Criador, chamados a serem cooperadores da obra divina e nunca para serem subjugados por outro ser humano. Um fato marca quem entra em contato com essa realidade: mesmo escravizados, no final de um dia trabalho o menino brinca com qualquer objeto parecendo bola, e a menina se produz diante de um espelho. Tão sofridos, e tão crianças ainda.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por ANNELIZE MARTINS em 27 de fevereiro de 2014 - 23:56

    Parabéns pela sua matéria.
    Sucesso!
    Annelize

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