NOVOS CARDEAIS JUNTO À CÁTEDRA DE PEDRO

Chibly Langlois, arcebispo de Les Cayes, primeiro cardeal do Haiti

Chibly Langlois, arcebispo de Les Cayes, primeiro cardeal do Haiti

No dia 22 de fevereiro a liturgia celebra a Cátedra de São Pedro Apóstolo. A festa teve origem no século IV, quando os cristãos de Roma passaram a honrar Pedro junto a seu túmulo no Vaticano. A Antífona da Entrada motiva a celebração: “O Senhor disse a Simão Pedro: roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça. E tu, por tua vez, confirma os teus irmãos” (Lc 22,32). E o Evangelho proclama a profissão de fé de Pedro, seguida da imposição do mandato (cf. Mt16, 13-19). No primeiro momento, o Pescador de Tiberíades se adianta aos discípulos: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. E Jesus: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela”.

A missão de Pedro e de seus sucessores, os papas, é confirmar os cristãos na proclamação de Jesus como Messias e Filho de Deus. Hoje é o papa Francisco que nos recorda continuamente a salvação dada por Deus Pai àqueles que aceitam o dom da fé no Senhor Crucificado e ressuscitado. Pedro confirma a fé vivida na Igreja, pois não é possível isolar Cristo de sua Igreja.

O Papa tem a autoridade única recebida por Pedro e transmitida aos sucessores, os bispos de Roma. Mas, ele não é uma solidão: é fortalecido pela oração dos fiéis e busca o conselho de teólogos, bispos e povo de Deus. Seus conselheiros principais são os Cardeais, que formam o Colégio apostólico e governam a Igreja na vacância papal e se reúnem em Conclave para eleger o Bispo de Roma, o Papa. Oficializado em 30 de setembro de 2013, Francisco nomeou o Conselho de Cardeais, com 8 Cardeais escolhidos dos cinco Continentes como conselheiros nos estudos e encaminhamentos para a reforma da Cúria romana.

Jean-Pierre Kutwa, arcebispo de Abidjan, Costa do Marfim

Jean-Pierre Kutwa, arcebispo de Abidjan, Costa do Marfim

Durante a liturgia de 22 de fevereiro é tradicional a nomeação de novos cardeais, anunciados com antecedência. Reunido em Consistório, Francisco também imporá o chapéu cardinalício a 19 cardeais, cujos nomes são conhecidos desde 12 de janeiro. Desses 19, três não são eleitores, pois ultrapassaram os 80 anos e foram nomeados como uma homenagem fraterna de Francisco. Um deles é Dom Loris Francesco Capovilla, por 10 anos secretário particular de João XXIII, que será canonizado em 27 de abril, juntamente com João Paulo II. Através de Loris Capovilla, o Papa quer recordar o extraordinário papa João XXIII, o Papa Bom. Capovilla não estará presente, pois seus 98 anos impedem-no de realizar uma viagem tão longa e participar de uma solenidade na qual ocupará um lugar visível.

Os 16 Cardeais completarão o quadro de 120 eleitores num eventual Conclave.

Papa Francisco, tão rico de sinais indicativos para a vida da Igreja, como a supressão dos títulos de Monsenhor, surpreendeu também nesse Consistório: os novos cardeais “representam a profunda relação eclesial entre a Igreja de Roma e as outras Igrejas espalhadas pelo mundo”.

Escolheu bispos de todos os Continentes, de 12 países: 5 das Américas, 2 da África e 2 da Ásia, com atenção a dois das mais pobres países do mundo como o Haiti e Burkina Faso. Esses homens levarão ao Papa e a Roma a voz de suas nações.

O Cardinalato é um serviço e não uma honra ou homenagem

Em outros Consistórios prevalecia a tradição de serem nomeados bispos de sedes “importantes”, mesmo que legalmente não existam mais sedes cardinalícias. Francisco indicou a superação da existência de Igrejas mais ou menos importantes, pois todas as Igrejas são apostólicas, todos os bispos sucedem os Apóstolos no mesmo grau e missão.

Como acontece com freqüência nas instituições, aquilo que era um serviço humilde se transforma em honraria e privilégio, e isso aconteceu também com os cardeais que passaram a ter vida própria quando, na verdade, seu sentido de existir é auxiliar o Papa. Assim, o Presidente da França, Portugal, Itália e o Rei da Espanha detinham o privilégio de impor o chapéu cardinalício ao núncio apostólico nomeado cardeal, numa cerimônia muito estranha de um arcebispo ajoelhar-se diante de uma autoridade civil [1]. Paulo VI suprimiu essa tradição.

No Brasil, as sedes episcopais de Salvador, São Paulo e Rio eram também consideradas sedes cardinalícias. Francisco não levou isso em consideração: escolheu Dom Orani Tempesta, do Rio de Janeiro, mas não o arcebispo de Salvador. Focalizou o interesse da Igreja, não eventuais homenagens.

A Igreja italiana sentiu isso com maior clareza: não foram escolhidos para o Colégio cardinalício nem o Patriarca de Veneza, nem o arcebispo de Turim. Francisco pôs os olhos em Gualtiero Bassetti, humilde bispo da pequena Peruggia, que vive na simplicidade e pobreza o ministério episcopal, quase ao estilo de Jorge Bergoglio quando arcebispo de Buenos Aires.

João XXIII nomeou o primeiro Cardeal negro, Laurean Rugambwa, em 1960

João XXIII nomeou o primeiro Cardeal negro, Laurean Rugambwa, em 1960

Maior significado ainda trouxe a escolha do primeiro cardeal da história do Haiti: buscou não o arcebispo da Capital, mas, na periferia haitiana, Dom Chibly Langlois, bispo da pequena cidade de Las Cayes. E nas Filipinas, escolheu Dom Orlando Quevedo, da diocese de Cotabato, Mindanau, que nunca teve cardeal. O Papa que veio “do fim do mundo” quer escutar os cristãos dessas periferias eclesiais.

Sempre mais seremos chamados a ver a missão cristã como serviço cristão, que a glória cristã é ocupar o último lugar. O trono cristão é participação do trono do Calvário, onde Nosso Senhor dá a vida.

Pe. José Artulino Besen


[1] Assis aconteceu em 1953, quando no Palácio de Versailles em Paris, o francês Vincent Auriol impôs o barrete no Núncio Ângelo Roncalli, cinco anos depois eleito Papa João XXIII.

  1. #1 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 21 de fevereiro de 2014 - 17:28

    Como sempre, Padre José Artulino, o sr. nos brinda com um excelente artigo. Obrigado, Senhor, pela sua existência.

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