O AMOR E A PROFUNDIDADE DOS SEXOS

igor-mitoraj-sono-iiNossa cultura avalia as coisas e ações pelo prazer ou dor que produzem e, para isso, não rejeita fazer o corpo sofrer para tornar-se uma fábrica de orgasmos: regimes ascéticos, liposucções e lipoaspirações, socorro de Viagra, RU-486, vibradores eletrônicos, a prática de um eros virtual, a pornodependência da internet e tantos outros. Por causa do hedonismo, nossa sociedade é tremendamente mortificadora.

O prazer é procurado na quantidade, cumpulsão, o encontro sexual é reduzido ao prazer físico e ao orgasmo: é preciso possuir o outro para fazê-lo instrumento do prazer que é possuí-lo. Reduz-se a riqueza humana a um corpo que se torna objeto, mercadoria e diz-se: «o corpo é meu e faço dele o que bem entendo». É uma pena, pois não tenho um corpo, mas sou um corpo e não posso me destruir fazendo o que bem entendo.

Esquecemos que a energia sexual é unificadora se dirigida pelo amor, pela comunicação, pela relação, uma história de amor. Reduzida ao erotismo se fragmenta, divide, dissipa o sujeito (Fabrice Hadjadj [1]). O ato carnal não é essencialmente gozo, mas comunhão de duas pessoas.

Certa moral cristã insiste tanto no pecado carnal que esquece o pecado espiritual, diabólico, raiz de tudo: o demônio é um espírito. A Bíblia oferece compreensão para o pecado carnal, nunca para a infidelidade. Na genealogia de Jesus encontramos cinco mulheres: Tamar foi explorada pelos filhos de Judá e teve um casal de gêmeos com ele; Raab era prostituta; Betsabéia foi obrigada a ser adúltera com Davi; Ruth era estrangeira pagã. Quatro mulheres mal afamadas, e a quinta é Maria, Mãe de Jesus. O pensamento bíblico insiste na fidelidade, e nós insistimos na castidade, onde o que é da carne é pecaminoso.

A alegria da união do homem e da mulher é tão sagrada que livra o noivo do serviço militar: «Se um homem é recém-casado, não irá à guerra nem lhe será imposto nenhum cargo, mas ficará livre em casa durante um ano, para se alegrar com a mulher que desposou» (Dt 24, 5). Os rabinos não separam a Torah da união carnal de que origina a família e afirmavam: «Não há família sem a Torah, e não há a Torah sem a família». A união sexual brota da Torah e da Torah brota a união sexual. Atualizando: «não há família sem Evangelho, e não há Evangelho sem a família», porque Deus põe o casal como símbolo de sua Aliança com a humanidade. O amor nupcial se define pela aliança cujo protagonista é Deus: a comunhão de vida e de amor vivida no matrimônio é um sinal do amor fiel de Deus pela Humanidade.

A fecundidade divina na fecundidade humana

O ato sexual é uma santificação: há o sacramento do matrimônio, de modo que a união do homem e da mulher é sinal vivo da união de Deus com a humanidade, de Cristo com a Igreja. Assim, o ato carnal não é somente abençoado, é também imagem da união na Trindade e início imediato da Redenção.

Tudo isso é tão belo que exige a alegria da unidade: num homem estão todos os homens, numa mulher estão todas as mulheres. Quando se casa, o homem acolhe todas as mulheres numa só e eles se pertencerão na geração da fidelidade. Deus não é homem nem mulher, ou então, assume em si, num modo inefável, as perfeições do masculino e do feminino. Cristo é celibatário para melhor ser esposo de cada alma. Maria é virgem para melhor ser mãe. O celibato masculino e feminino é fecundo, inclusivo, não estéril proibição ou privação do prazer.

O mistério central do Cristianismo é a Encarnação: o Pai quer nos salvar e faz seu Filho encarnar-se, mergulhar na carne e gerar carne divino-humana. A encarnação redentora é precedida de todas as pessoas frutos da encarnação do homem na mulher.

Essa é a vontade de Deus na criação: os anjos, criou diretamente. O homem e a mulher, porém, Deus cria necessitando da intermediação do homem e da mulher: espera pacientemente que os futuros pais durmam; somente através da interpenetração dos dois corpos Deus cria uma alma, um ser humano, mesmo que o ato tenha sido violento, pois a invasão da morte não extingue os pequeninos amados por Deus e criados para sua glória. Retribui a generosidade do casal com um prazer unificador e total.

O casal se une como fruto duma história de amor, na experiência do amor plural: um só amor em dois amores. A presença de Deus no ato sexual tem como fruto a capacidade do ser humano se relacionar com o Absoluto. Deus se abre a nós e nós nos abrimos a ele, como na Eucaristia: recebemos Cristo encarnado e por ele somos recebidos.

É no relacionamento humano dos sexos – pois todo encontro é sexual, sempre acontece entre homem e mulher – que cada um se revela ou aproveitador destrutivo ou ser voltado para a comunhão, capaz da amizade, da doação e do heroísmo.

Pe. José Artulino Besen


[1] Fabrice Hadjadj: judeu a ateu, e hoje cristão católico. Devo-lhe as intuições desse texto.

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