PAULO VI, PEREGRINO DA HISTÓRIA – Há 50 anos de sua viagem à Terra Santa

Paulo VI em Tabgha, beija a rocha onde Pedro recebeu o Primado

Paulo VI em Tabgha, beija a rocha onde Pedro recebeu o Primado

Com a morte do Cardeal Schuster, em agosto de 1954, o papa Pio XII nomeou sucessor seu Pro-secretário de Estado, Giovanni Batista Montini. Em período normal, ser arcebispo de Milão era ser honrado por assumir a sede que foi de Santo Ambrósio e de São Carlos Borromeu. Montini, porém, teve sua escolha motivada pelo fato de que Pio XII não o queria em Roma para que não fosse seu sucessor, como se falava, pois via-o como simpático ao melhoramento de relações com os soviéticos e com a modernidade. Montini era “o nome”: mantivera contatos com episcopados nacionais, incentivara a fundação da CNBB e sua longa experiência romana, além de seu refinamento intelectual, diplomático e teológico, o credenciavam ao Pontificado.

O fato de ter vindo do mundo diplomático, sem experiência pastoral, favoreceu-o em Milão, pois foi capaz de olhar a cidade sem preconceito, como desafio à fé e à vida cristã. Era um homem moderno.

Pio XII recursou-se a nomeá-lo cardeal para evitar a eleição, mas a ação pastoral milanesa, sua abertura aos problemas sociais, seu enlaçamento com a cultura acabaram por prepará-lo ainda melhor para ser papa. Marcante foi a “Grande Missão milanesa”, de 4 a 24 de novembro de 1957 e que envolveu as 110 paróquias, 1288 pregadores e milhares de agentes de cada classe social e profissional. Escreveu, como motivação: “A preguiça religiosa domina nossa época. O mundo parece tornar-se menos sensível ao religioso. São muitos os que estão afastados e podem ser estes os preferidos da evangelização”.

No encerramento, o arcebispo propôs gestos concretos, humildes, mas eficazes: a bênção das casas, fichário paroquial, Missa festiva da Primeira Comunhão para todos, no mesmo dia, e a construção de novas igrejas na cidade que se expandia de maneira impressionante. Montini quis manifestar sua ação de graças a Deus com a Peregrinação a Lourdes de 27 a 29 de junho de 1958.

PAULO VI – PAPA MONTINI

Papa Paulo VI

Papa Paulo VI

Morto Pio XII, o Conclave aberto em 26 de outubro de 1958 discutiu a hipótese de eleger papa um não cardeal, Montini. A opção foi descartada e decidiu-se eleger pelo critério da idade e, no dia 28 de outubro, o Patriarca de Veneza, Ângelo Roncalli foi eleito, escolhendo o nome de João XXIII. Sua maior credendial: a idade. O mais já conhecemos, pois o insuspeitado santo era velho de 76 anos, mas enxergava bem. O Papa Bom, já em 4 de novembro escreveu a Montini que o criaria cardeal, o que aconteceu em 15 de dezembro. Sanava-se uma injustiça, era voz corrente. Em janeiro seguinte é anunciado o Concílio Ecumênico, para espanto de muitos: tinha-se a idéia de que com o dogma da infalibilidade papal (1870) Concílios não eram mais necessários.

João XXIII conquistou o mundo com seu coração onde todos encontravam lugar, sem exceção, superando o espírito inquisitorial. Sua grande obra, além do Concílio, foi sua pessoa, na qual o mundo sentiu ter um pai.

Cinco anos depois, o mundo chorava a perda de João XXIII e, no Conclave, em 21 de junho de 1963, foi eleito o Cardeal Montini, Papa Paulo VI. Tinha 65 anos, era frágil fisicamente (dizia-se que, desde jovem, tinha uma péssima saúde de ferro) mas era o homem escolhido por Deus para reger o caminho da Igreja num período difícil da história humana: a Guerra Fria, o surgimento de novas nações com a descolonização da África, os conflitos Norte-Sul, a secularização e secularismo, a contestação que se alastrava e atingia todas as instituições, também a Igreja.

No dia seguinte à eleição, anunciou os principais objetivos de seu pontificado: retomar as sessões do Concílio Vaticano II (“A parte mais importante de nosso pontificado será ocupada pela continuação do 2º Concílio Ecumênico do Vaticano, para o qual se voltam os olhares de todos os homens de boa vontade”), empenhar-se pela paz entre os povos, e pela unidade dos cristãos.

Montini foi fiel ao pedido que lhe fizera João XXIII: continuar o Concílio. Seria um tempo de confronto, incertezas, mas também um novo Pentecostes na Igreja. No dia 30 de junho de 1963, aconteceu a Coroação de Paulo VI. O Cardeal Ottaviani, proto-diácono, colocou-lhe a Tiara (tríplice coroa), que o Papa pedira fosse simples e cônica. Usou-a poucas vezes até que, num gesto carregado de simbolismo, em 4 de dezembro de 1963, no encerramento da segunda Sessão do Concílio, tirou-a da cabeça e a depositou no altar de São Pedro, simbolizando a renúncia do papa a qualquer pretensão de poder temporal. O Papa suprimiu o uso pessoal da Tiara e não para os futuros papas, tanto que na Constituição de 1975 sobre a Eleição Papal fala de coroação. João Paulo II, na nova legislação de 1996, não fala mais dela, e o início do ministério papal passa a ser “Inauguração”, em vez de “Coroação”.

O ministério petrino exercido por Paulo VI sofre a injustiça de julgamentos parciais, especialmente por sua Carta encíclica “Humanae Vitae” (25 de julho de 1968) sobre o controle da natalidade e o uso de anticoncepcionais, na qual assume posição de minoria de teólogos moralistas contra a opinião da maioria. Alguns reduzem Paulo VI ao “Papa da Pílula” ou, com maior amargura, ao “Papa da Missa modernista”, do traidor da Missa de São Pio V.

Os detratores o julgam herético, maçom, judaizante, mancomunado com Moscou, anticristo, devasso e outros adjetivos de que alguns católicos tradicionalistas se apossam em sua sistemática e desumana campanha contra um Pontífice romano. Quando teve início o processo de beatificação de Paulo VI, ficaram escandalizados e mais ainda com a aprovação do primeiro milagre! Paulo VI sofreu a incompreensão em vida e na memória. A história lhe faz justiça e o Espírito lhe testemunha a santidade.

O processo de beatificação foi aberto em 1993, e João Paulo II oficialmente o reconheceu como “Servo de Deus”. Em 20 de dezembro de 2012, Bento XVI reconheceu a heroicidade das virtudes e o proclamou “Venerável”.

Alguns historiadores apelidam Paulo VI de “Hamletiano” (“ser ou não ser”), angustiado pelas dúvidas no caminho da vida eclesial e do qual são se conhecia o resultado. Sofreu as milhares de desistências de padres e religiosos, a contestação ao magistério papal, o decréscimo nas vocações, na participação religiosa, mas seguiu o caminho traçado pelos Padres conciliares. Como homem de visão histórica, sabia que não há renovação sem perdas, abertura de novos caminhos sem crítica. E, mais ainda, tinha claro que um acontecimento determinante como o Vaticano II, vivenciado numa época histórica dominada por conflitos políticos, culturais e econômicos, não poderia ser aplicado muito devagar, para não perder os idealistas que pediam pressa, nem muito ligeiro, para não perder os mais conservadores que pediam uma freada em tudo.

PAULO VI, CONTEMPLAÇÃO E AÇÃO

A obra do Papa Montini é imensa e, apenas como exemplo, podemos citar:

A criação do Sínodo dos Bispos, assembléia episcopal a ser convocada periodicamente para assessorar no governo da Igreja. A reforma da Cúria romana e a criação de Comissões pontifícias para conduzirem os novos serviços da Igreja. Revolucionou a eleição papal, reservando-a aos Cardeais abaixo dos 80 anos e elevando a 120 o número de eleitores. Convocou cinco Consistórios, com a criação de 143 novos cardeais.

Seguiu a recomendação conciliar de levar a efeito a reforma litúrgica, já iniciada por Pio XII, estabelecendo o Ritual romano da Missa em 1969. Se na Missa tridentina era acentuado o aspecto sacrifical da Missa, sem negá-lo agora se acentua o aspecto pascal, celebração do Povo de Deus. Mais de 40 anos depois pode-se dizer que a implementação do novo Rito foi marcada mais pelo sentido de novidade do que pelo sentido de ativa participação do povo que celebra a Páscoa. Em outras palavras, renovou-se a Liturgia, mas esqueceu-se bastante da renovação da Assembléia.

Paulo VI assumiu a face da Igreja que se apresenta como dialogante, sendo “diálogo” a grande palavra: diálogo dentro da Igreja, diálogo entre as Igrejas cristãs, diálogo com o mundo, diálogo com os regimes comunistas de então. A Igreja montiniana faz-se diálogo, serviço ao mundo. O Ecumenismo, que era apanágio das Igrejas cristãs, também é assumido pela Igreja Católica. Em 1964, foi iniciada a “Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos”. Em 10 de junho de 1969, Paulo VI dirigiu-se a Genebra, à sede do Conselho Mundial das Igrejas, onde pronunciou a antológica apresentação: “Me chamo Paulo, e meu nome é Pedro”.

O diálogo com o mundo teve sua expressão na visita à sede das Nações Unidas, em Nova York. Era 4 de outubro de 1965, e foi recebido pelos representantes de todas as nações do mundo, menos a Albânia, que tinha assumido o “glorioso” título de “primeira nação atéia do mundo”. Vestia apenas a batina branca com a Cruz peitoral e foi saudado entusiasticamente. Apresentou-se como chefe de um minúsculo país e como representante da Igreja Católica em nome da qual discursou, afirmando que suas palavras eram também as dos Padres do Concílio, que ainda estava reunido, apresentou-se como servidor da paz, sem nenhum poder além da decisão de servir. Todos se ergueram quando clamou: “Jamais a guerra! Sim, nunca mais a guerra! A paz, a paz deve guiar o destino dos povos e da humanidade toda!”.

Significativo que, dois meses depois, em 7 de dezembro, era aprovada a Constituição pastoral “Gaudium et Spes” sobre a Igreja no mundo. Paulo VI duplicou o número de Nunciaturas e delegações apostólicas para poder dizer uma palavra em favor da vida humana e da paz.

A Igreja na América latina deve-lhe a convocação e a presença estimulante na abertura da Conferência do episcopado em Medellín, em 24 de agosto de 1968, com o tema “A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio”. No ano anterior tinha publicado a Carta encíclica “Populorum Progressio”, que teve influência decisiva em Medellín no sentido de a Igreja se empenhar pela causa da justiça e da superação das desigualdades. Paulo VI apoiou com o peso de sua autoridade os bispos brasileiros que se levantavam contra a Ditadura militar e nomeou novos, comprometidos com a causa da justiça.

PEDRO RETORNA A JERUSALÉM

Paulo VI na Via Dolorosa - olhar em êxtase

Paulo VI na Via Dolorosa – olhar em êxtase

Papa Montini realizou sete viagens internacionais, as primeiras de um papa desde 1812. A que mais lhe tocou o coração foi a peregrinação à Terra Santa: iniciativa pessoal, sem convite oficial, estritamente espiritual, e que teve um significado imenso na história católica. Na conclusão da segunda Sessão do Concílio, em 4 de dezembro de 1963, comunicou aos Padres que estava convencido de que, para o bom êxito do Concílio eram necessárias muitas orações e, para isso “decidimos ir como peregrinos àquela terra que é pátria de Jesus nosso Senhor … com a intenção de pessoalmente evocar os principais mistérios da nossa salvação, a encarnação e a redenção. … Veremos aquela terra veneranda de onde partiu Simão Pedro e à qual nenhum sucessor dele retornou. Nós, humildemente, e por curto tempo, a ela retornaremos em espírito de devota oração, de renovação espiritual, para oferecer a Cristo sua Igreja; para chamar a ela, una e santa, os Irmãos separados; para implorar a divina misericórdia em favor da paz”.

João Paulo II tinha planejado para o Jubileu do segundo Milênio uma peregrinação à terra de Abraão, Pai das religiões monoteístas, iniciando por Ur na Caldéia. Por questões de segurança, essa região não foi visitada. Paulo VI planejava seguir as pegadas de São Paulo, partindo de Damasco, e razões políticas também não o permitiram.

E assim, em 4 de janeiro de 1964, Paulo VI desembarcava na Jordânia, depois seguindo de automóvel, e era tarde quando chegou a Jerusalém e desembarcou para celebrar a Via-sacra. Dessa hora em diante aconteceu de tudo: a multidão cercou o Papa, cardeais, patriarcas e bispos eram jogados contra a parede e meia dúzia de heróicos soldados árabes cuidaram de garantir a integridade papal. Em meio ao turbilhão Montini sofreu algumas quedas, a multidão o fazia desaparecer de vista. Pálido e feliz, o Papa foi recolhido por alguns minutos na capela da 6ª. Estação e ali entrou em êxtase, como se pode observar em foto tomada ali. Refeito, segue o caminho e chega à basílica do Santo Sepulcro, onde se prostra em oração e deposita um ramo de oliveira no Sepulcro. Mais tarde, comentou que desejaria ser dispensado dos protocolos romanos e poder trabalhar como Pedro reunido com seus diáconos.

Na manhã do dia 5, domingo, recebeu o Presidente de Israel Salman Shazar e o Rabino chefe Nissim. Agradecendo a saudação, Paulo VI fala: “Com satisfação recordamos os filhos do “Povo da Aliança” cujo destino na história religiosa da humanidade não podemos esquecer”. Em nenhum momento citou a palavra Israel e cabe uma explicação: estamos em 1964 e a região que hoje é a Palestina pertencia a Jordânia, incluindo Jerusalém oriental, e foi ocupada por Israel na Guerra de 1967. Como o Vaticano não reconhecia, ainda, Israel, o Papa não o citou.

Nessa peregrinação, o Papa pode sentir as conseqüências das divisões entre árabes e judeus, entre ortodoxos e católicos. A Missa no Santo Sepulcro foi celebrada em frente à basílica, pois os ortodoxos impedem os católicos de celebrarem diante do Sepulcro. O mesmo aconteceu na Basílica da Natividade, em Belém, onde o Papa, paramentado para a Celebração, teve de dar uma volta, pois não lhe seria permitido passar pela nave central, também ortodoxa. Nada disso, é evidente, tirou a alegria e a emoção de Paulo VI que, vindo da diplomacia, conhecia bem os meandros da história.

Nesse mesmo dia 5, o Papa dirigiu-se à Galiléia, prostra-se na rocha onde Pedro foi chamado, contempla o lago de Genezaré e celebra na Basílica de Nazaré, e falou de Nazaré como “Escola do Evangelho”. Sobe o Monte Tabor e, no final do dia, está novamente em Jerusalém.

Paulo VI abraça o Patriarca Atenágoras I

Paulo VI abraça o Patriarca Atenágoras I

Foi na tarde desse dia que aconteceu o grande encontro, esperado desde 1439: como que após longa procura, se abraçaram o Patriarca de Roma Paulo VI e o Patriarca de Constantinopla Atenágoras I, se abraçaram os dois irmãos Pedro e André. Cada um recitou o Pai Nosso em latim e grego. Atenágoras deseja que esse encontro “seja o alvorecer de um dia luminoso e bendito, em que as gerações futuras comungarão do mesmo cálice do Santo Corpo e do Precioso Sangue do Senhor”.

No dia seguinte, seguindo o protocolo, Paulo VI retribuiu a visita de Atenágoras e fala: “De ambos os lados os caminhos que conduzem à união são longos e cheios de dificuldade. Mas, as duas estradas convergem e se encontram nas nascentes do Evangelho. Não é sinal de bênção que o encontro de hoje aconteça nessa Terra onde Cristo fundou sua Igreja e derramou seu Sangue por ela?”.

O histórico encontro é concluído com a leitura do Capítulo 17 de João, em grego e em latim, alternadamente, a partir da mesma cópia do Evangelho. Agora juntos, rezam o Pai Nosso em grego e em latim e ambos abençoam os presentes. Nascia ali uma amizade profunda, que continua até nossos dias, entre Roma e Constantinopla.

Antes de deixar Jerusalém, o Papa visitou um paralítico, Mathia Khalil Nathan, e nesse abraço quis incluir todos os doentes da Cidade Santa.

No mesmo dia 6, às 18:30h, Paulo VI desembarcou em Roma. Revigorado, trabalhou sem descanso ou dúvida para a renovação da Igreja.

Em 8 de dezembro de 1975 publicou a Exortação apostólica “Evangelii Nuntiandi”. Com a “Populorum Progressio” são até hoje fontes inesgotáveis da vida pastoral.

Recitando continuamente o Pai Nosso, aos 80 anos, descansou em paz em 6 de agosto de 1978, festa da Transfiguração do Senhor. A seu pedido, foi sepultado rente ao solo. Aguardando sua beatificação, a Igreja louva o Senhor pela graça do ministério papal de Paulo VI.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Aluizio Brand em 4 de janeiro de 2014 - 16:27

    Date: Thu, 2 Jan 2014 13:02:26 +0000 To: aluiziobrand@hotmail.com

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