O CONCÍLIO DE TRENTO NO CAMINHO DA IGREJA – 450 ANOS

Concílio de Trento - Congregação Geral (E. Naurizio)

Concílio de Trento – Congregação Geral (E. Naurizio)

Em 1517, um frade agostiniano alemão publicava suas Teses em Wittenberg, chamando os doutores a discutirem com ele os problemas que enxergava na Igreja católica, centralizando-os no tema da Justificação: como o homem alcança a salvação? Para nós, a resposta é clara e, com todos os protestantes dizemos: somos salvos pela graça que nos é dada pela fé em Jesus Cristo crucificado.

À época, com o Papado mergulhado na preocupação com as artes, a Renascença, com a Cúria romana mais interessada no jogo do poder, a reposta era confusa, mesmo que a teologia fosse clara. Era o tempo das Indulgências e o papa Leão X estava mais preocupado em arranjar dinheiro para a construção da nova basílica de São Pedro do que com as impertinências de um frade alemão, Martinho Lutero. Os pregadores de Indulgências anunciavam que se poderia salvar uma alma mediante pagamento e Lutero, que passara pela busca de querer ser salvo, descobrira o caminho bíblico: O Justo viverá pela fé! (Rm 1,17), pela fé em Cristo Deus nos salva.

Lutero (1483-1546) aliava em si profundo conhecimento bíblico, imenso amor pela oração, capacidade de liderança e irresistível atração nos ouvintes. A Alemanha entrou em convulsão religiosa, monges e monjas abandonaram os mosteiros, padres e bispos passaram para o lado do Reformador e, claro, os príncipes alemães viram na adesão a Lutero um modo de se apossarem dos bens da Igreja. A Alemanha católica se tornara em grande parte protestante.

E Roma, como reagiu? Com muita lentidão e receio. Afinal, quando se trata de perder privilégios poucos têm coragem de dar o passo. E, assim, grande parte do tecido imperial adere às novas doutrinas, a Igreja católica, que fora fiadora da Europa – pois a Europa é uma sábia construção católica – perde espaço, permanecendo católicos Portugal, parte da França, Espanha e Itália. Um grande trabalho missionário, especialmente dos jesuítas, reconquistou depois parte do espaço perdido.

Bispos e cardeais, leigos e intelectuais, Lutero, Calvino, os Príncipes, pediam um Concílio ecumênico para uma reforma na cabeça e nos membros. Suas vozes não eram ouvidas, pois as preocupações romanas eram outras. Infelizmente assim foi e, quando o Concílio Ecumênico foi aberto em Trento, os dois lados estavam irremediavelmente divididos após 27 anos de conflitos, fazendo com que o Concílio fosse um concílio católico e de reforma católica.

Por que em Trento, aos pés dos Alpes? Era uma cidade neutra, governada por um Bispo-príncipe e garantia a segurança dos bispos participantes e sua independência frente às interferências do imperador Carlos V, dos príncipes e da ambiciosa monarquia francesa.

Paulo III convocou o Concílio para 1544, mas, o reduzido número de bispos obrigou-o a transferi-lo para março de 1545. No início compareceram 25 bispos e 7 Gerais de ordens religiosas. É útil olharmos os números em confronto com outros Concílios: na 1a. sessão havia 31 bispos para a abertura e nas duas primeiras fases o número oscilava entre 65 e 70, na última chegando a 225; nos grandes Concílios da Antigüidade era outra a vivacidade: em Nicéia (325) eram 318 bispos; em Calcedônia (451) foram 630; nos tempos modernos, 700 no Vaticano I (1869-1870) e 2500 no Vaticano II (1962-1965).

Por que o reduzido número? As dificuldades de viagem, a falta de segurança, as ameaças dos príncipes e, sem dúvida, bispos que deixaram a Igreja católica.

O Concílio de Trento teve três fases: 1545-1547, 1551-1552, 1561-1563, vividas sob 5 Papas. Realizou uma obra admirável, respondendo de modo positivo às instâncias luteranas. Foi um Concílio dogmático, sim, mas os bispos que lá se reuniram estavam preocupados com algo muito imediato: como ser bispo frente a uma Cúria romana que interferia na sua autoridade? Como reformar a vida católica? A preocupação episcopal era mais pastoral. E muito foi conseguido, podendo ser dito que os bispos saíram de Trento com sua autoridade reforçada, apesar do título ambíguo de “delegados da Sé apostólica” (os bispos são sucessores dos Apóstolos, não delegados papais).

A grande palavra tridentina foi “pastoral”: reformar a vida católica, o clero, os religiosos. Missão da Igreja não é a promoção das artes, mas a salvação das almas: Salus animarum suprema lex esto. Foi a ação pastoral o grande fruto dessa assembléia que durou 18 anos e na qual houve liberdade de expressão para bispos e teólogos. Ali o santo arcebispo português, Frei Bartolomeu dos Mártires, pode dizer aos seus colegas: “Os eminentíssimos e reverendíssimos senhores Cardeais necessitam de uma eminentíssima e reverendíssima senhora reforma”. E assim foi.

 Trento e suas decisões

Quais foram as decisões que mais diretamente tocaram a vida da Igreja? Foram tantas e tão importantes que fica difícil salientar alguma, pois o corpo doutrinal e pastoral da Igreja é de tal modo compacto que as fissuras quebram-lhe a unidade.

Primeiro fruto foi a resposta positiva e bíblica à doutrina da Justificação, que até Lutero teria assinado. A afirmação do Cânon bíblico, com 72 livros, a doutrina dos Sete Sacramentos, a fé que opera na caridade, a purificação na doutrina do culto aos Santos, às relíquias, a riqueza das devoções, a vida religiosa consagrada, etc.

Trento não teve condições de unir os aspectos visíveis da Igreja à sua natureza místico-sacramental. Não conseguiu definir um conceito de Igreja; apenas definiu-lhe os aspectos doutrinais. No longo prazo isso fez com que se acentuassem os aspectos visíveis, institucionais. Basta ver o que o santo teólogo Roberto Belarmino declarou a respeito: “a Igreja é tão visível como a república de Veneza”, e isso levou a se confundir a Igreja Corpo de Cristo com suas estruturas que são passageiras, mas defendidas como dogmas de fé. O papa Francisco está decidido a uma reforma nesse sentido, e a fará como fruto de outro Concílio, o Vaticano II.

Mas, algumas instituições marcaram a vida da Igreja para melhor: a criação dos seminários, obrigatórios para cada diocese, a fim de haver seleção dos candidatos ao sacerdócio e, ao mesmo tempo, a possibilidade de pobres e ricos serem padres. A Cúria romana foi reformada com a divisão em Dicastérios e deu-se forte impulso à ação missionária.

A obrigação de cada bispo realizar a Visita ad limina Apostolorum: a cada cinco anos ir a Roma e, junto ao túmulo dos Apóstolos, prestar contas de sua ação pastoral. A mesma obrigação cabia aos bispos em suas dioceses que devem ser visitadas em visita pastoral, a obrigação de o bispo residir em sua diocese. Grande exemplo nesse campo foi o arcebispo de Milão São Carlos Borromeu (1538-1584): visitou toda a diocese, os conventos e mosteiros e, com energia até excessiva, puniu os desvios doutrinais e de comportamento, dando à diocese de Milão a fisionomia que possui até hoje, fruto de grandes bispos e cardeais, alguns recentemente Papas: Pio XI e Paulo VI.

Não foi positivo o fruto de outra decisão: obrigar as religiosas à clausura, impedindo-as de ação pastoral, o que incorporou um caráter machista à organização da Igreja, o mesmo que aconteceu na Igreja protestante. A acentuação na Hierarquia enfraqueceu a formação do laicato adulto, levando à clericalização da organização elecial.

Os bispos conciliares delegaram ao Papa Pio V a elaboração de uma Profissão de Fé (1564), a publicação do Catecismo Romano (1566), do Breviário (1568) e do novo Missal (1570), a Missa de São Pio V. Se um dos grandes méritos de causa de sucesso de Martinho Lutero foi o uso da língua alemã na pregação e no culto, o mesmo não se pode dizer de Trento, apegado firmemente à língua latina, quase canonizando-a. O conflito já existia na Idade Média, mas lá se dizia que a Liturgia poderia ser expressa nas línguas citadas na cruz: grego, latim e aramaico. O latim foi responsável pelo espírito autoritário romano e franco-germânico frente aos povos eslavos que se convertiam à fé cristã.

A preocupação com a reta doutrina fortaleceu na Igreja o espírito inquisitorial.

A unidade dos bispos em torno do Papa deu-lhe autoridade para enfrentar os novos Estados absolutistas que tentaram por todos os caminhos assaltar a liberdade da Igreja e sua missão.

Concílio Vaticano II - 1962-1965 - Congregação Geral

Concílio Vaticano II – 1962-1965 – Congregação Geral

Mudanças sempre são lentas

As decisões conciliares se depararam com a adversidade da Cúria romana que continuou a conceder privilégios e isenções, bispos se deixando empolgar pela riqueza e pelo apoio da autoridade dos reis e, somente no século XX, a obrigação dos seminários se universalizou com a criação de seminários regionais. Parte do clero continuará a mergulhar numa prostração espiritual fruto do sustento recebido do Estado.

O espírito controversístico levou a pastoral a acentuar os aspectos antiprotestantes: Tradição mais forte que a Bíblia, obras mais poderosas que a fé, vontade em detrimento da graça, culto aos Santos e a Maria, os exercícios de piedade mais valorizados do que uma espiritualidade verdadeiramente centrada no Cristo e no mistério trinitário. A autoridade do Papa e da Cúria marcou na Igreja o caráter acentuadamente romano e centralizador.

Finalizando, o Concílio de Trento deu à Igreja energias insuspeitadas, principalmente conteúdo e convicção doutrinária para enfrentar as grandes batalhas que logo ganharam força: garantir a liberdade da Igreja, salvar a revelação diante do Iluminismo racionalista, afirmar a Palavra de Deus frente às escolas modernas que a reduziam ao mito, salvar a encarnação do Verbo e própria existência de Deus frente a uma sociedade econômico-cultural cada vez mais narcisista, arrogante e que tenta repetir o desafio de Prometeu: roubar o fogo dos deuses e deste modo negar a Deus e deixar o homem ao arbítrio do tempo.

No dia 3 de dezembro de 1563 era encerrado o Concílio de Trento e, 400 anos depois, em 4 de dezembro de 1963, os padres conciliares do Vaticano II publicavam a Sacrosanctum Concilium, a liturgia do povo de Deus que celebra comunitariamente o mistério pascal.

A duras custas aprendemos a ser servidores do povo, humildes e desarmados oferecendo ao mundo uma palavra de vida, uma pessoa: Jesus, o Salvador.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por osnildo Maçaneiro em 6 de dezembro de 2013 - 15:21

    gostei , muito , é importante sabermos a história nos bastidores , grato

  2. #2 por Alexandre Borges em 8 de dezembro de 2013 - 23:27

    Que aula! Obrigado caríssimo!

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